3 obás de Xangô
Nunca foi tão fácil fazer um filme
Evidentemente, isso não é um escárnio à dificílima vida de quem empreende na indústria cultural brasileira. De fato, estamos vivendo um interlúdio de quatro anos sem muito sufoco que os eleitores brasileiros nos deram para que os incentivos à arte e à cultura sejam mais facilitados. Contudo, sabemos como é dura a vida de quem sai de casa todos os dias em busca de recursos para uma atividade que deveria estar em primeiro lugar na lista de prioridades do governo, para tornar o Brasil, diante do mundo, o país da música, da beleza e da poesia. Entretanto, diante do tema de 3 Obás de Xangô, de Sérgio Machado, supõe-se que é fluido e prazeroso organizar filmicamente a amizade entre três gigantes da cultura brasileira. Junte-se aí seu papel de representantes da cultura do candomblé da Bahia.

Mas a facilidade no trabalho de Sérgio Machado vem não apenas da farta fonte de imagens visuais e entrevistas focadas nos três artistas escolhidos para seu documentário. Tal escolha não foi por acaso. Mas também não foi porque os três baianos Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé (este útimo, argentino, mas auto-renomeado e baiano por vocação) eram amigos de longa data. Eles, e mais outros grandes brasileiros que vieram antes e depois, foram consagrados Obás de Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá por Mãe Senhora. Nesse sentido, o exercício de seu papel na cultura do candomblé baiano e na arte brasileira está em foco no documentário. Esse motivo já era mais que suficiente para que esses três grandes artistas e pessoas relevantes na história brasileira fossem tema de filme. Entretanto, o também baiano Machado agrega a seu trabalho um luxo a mais.
3 Obás de Xangô é um filme banhado em sol e mar
Sérgio Machado conhece muito bem o brilho do sol baiano e a energia amorosa que vem do mar do Recôncavo, onipresente no documentário. Igualmente, uma grande e inspiradora energia também emerge do diálogo com os três artistas. Isso tudo torna 3 Obás de Xangô uma obra absolutamente imperdível para quem deseja se nutrir com o que o Brasil tem de melhor. Sobretudo e essencialmente em dias de expurgo das suas doenças sociais e políticas, expostas pelas vísceras em todas as telas que estiverem ligadas.
Mesmo banhada em sol e mar, em arte e cultura, 3 Obás de Xangô é uma obra essencialmente política. Com efeito, nem podia ser diferente: a política, num sentido amplo e universalizante, estava na mente de Mãe Aninha, antecessora de Mãe Senhora no Ilê Axé Opô Afonjá, e na raiz de sua invenção, em 1936, da honraria do candomblé oferecida a grandes figuras baianas que operariam os liames entre a religião e a sociedade. A criação da persona do Obá de Xangô foi absolutamente oportuna diante da perseguição que as religiões de matriz africana já (melhor dizer sempre) sofriam no Brasil, com quebra e saque nos terreiros e agressão de seus membros por parte das forças policiais.

A presença de grandes personalidades artísticas a apoiar o candomblé era uma forma de argumentar pela defesa dos membros do candomblé e seu desejo de apenas existir, e que isso não poderia ser crime. Que o candomblé é arte e beleza inspiradora, e parte constitutiva do que torna a Bahia um centro cultural brasileiro, um celeiro de artistas tão relevante.
Para os 3 Obás de Xangô, acreditar significa outra coisa
Nesse sentido, o Obá de Xangô não precisa nem acreditar em algum deus. Basta amar a Bahia e amar o que ali foi construído, sua cultura e sua história. Porém, mais do que amor, os Obás de Xangô retratados por Sérgio Machado também são constituídos pela Bahia, tanto que é impossível pensar neles sem pensar nela. Eles devem sua vida e sua capacidade de criar a ela. E afirmam isso, afirmam seu arrebatamento, a todo momento na projeção.
Ao fim do filme, tem-se o sentimento de que ele poderia ser um pouco mais longo, para que pudéssemos ouvir e ver mais da obra e do pensamento de pessoas que entendiam, respeitavam e viviam profundamente o ser baiano. Além disso, ou por isso, sabedoras de que isso necessariamente incluirá a umbanda e o candomblé, não importa em que se acredite. Santo ou Orixá. Ou nada, tanto faz.

O que 3 Obás de Xangô mostra sobre os três artistas retratados não é novidade para o público brasileiro. Nem ninguém sairá do cinema sabendo algo mais sobre a Bahia ou sobre o candomblé por causa de Sérgio Machado. Não é isso que está em causa ali. O resultado que se vê na tela é mais do que a soma das três partes selecionadas. Há o lugar, a História, um pouco da dor de existir, de se afirmar e ser aceito como gente. A soma disso tudo é uma beleza e de um encantamento impressionantes.
Um pouco de potência em meio ao fanatismo
Essas qualidades vêm em parte pelo tratamento das imagens dos três artistas, já falecidos. Ao ouvi-los em plena potência de vida, em algum momento chegamos a pensar que ainda estão vivos. Acho que isso é algo que vem da alegria e da leveza com que contam seus casos, observam as coisas e interagem com as pessoas. Ou, talvez, isso venha de um desejo de que eles ainda estivessem entre nós, mesmo em um tempo de miséria, racismo e desigualdade, como foi sempre no Brasil, mas com mais pessoas capazes de traduzir com perfeição o melhor do que é ser brasileiro.

Ver juntos três grandes artistas brasileiros vivendo sua nacionalidade de maneira tão orgânica é, neste momento, ter em mãos uma bússola sobre o que é viver uma crença de maneira profunda, em meio a tanta hipocrisia e tanto fanatismo. Por isso, tanto quanto belo, 3 Obás de Xangô é um filme sobre como viver em plenitude, tesão e potência.
Ficha Técnica

Direção: Sérgio Machado
Roteiro: Josélia Aguiar, André Finotti, Sérgio Machado
Edição: Juliana Guanais
Fotografia: Walter Carvalho
Trilha Sonora: Dorival Caymmi
Elenco: Jorge Amado, Dorival Caymmi, Carybé, Zélia Gattai, Lázaro Ramos
