Jurassic World: Recomeço
A franquia “Jurassic World” possui um problema fundamental que surgiu já em sua estreia, em 2015, e agora, dez anos depois, se mostra mais agudo do que nunca. Esse problema é basear toda a sua trama, estética e narrativa na contraditória noção de que as pessoas estão cansadas de dinossauros. Para uma série que reiteradamente ultrapassa a marca de 1 bilhão de dólares, independentemente do tipo de bobagem que escolha como tema, essa auto sabotagem constante beira uma questão de divã.

A verdade é que, a cada nova produção, mais essa franquia se afasta de compreender o impacto real que “Jurassic Park”, dirigido por Steven Spielberg, teve sobre o cinema. Quando o público viu, pela primeira vez em 1993, um dinossauro de “carne e osso” – ainda que feito de forma totalmente digital –, o mundo mudou.
Falta o encantamento original
Não se tratava apenas de mais um blockbuster, como os “Star Wars” de George Lucas ou o próprio “Tubarão”, de Spielberg. O que havia diante dos olhos do público era uma nova forma de deslumbramento cinematográfico. Agora mediada por efeitos visuais, era possivelo mesmo encantamento da mesma forma que os épicos grandiosos de outrora, com seus truques práticos e matte paintings. O fato de essa tecnologia absurda ter sido usada para nos maravilhar com um dos temas mais fascinantes da imaginação humana – os dinossauros – apenas coroava, simbolicamente, algo que já sentíamos de forma instintiva. É preciso entender que esse tipo de encantamento só acontece uma vez.
Os filmes seguintes são todos tentativas de repetir essa primeira sensação, com esforços pontuais para trazer alguma novidade. Vejamos: O Mundo Perdido emula a estrutura do livro – não o de Michael Crichton, mas o de Arthur Conan Doyle – em busca de frescor. Enquanto isso, Jurassic Park III tenta ser menor para encontrar sua identidade como um típico filme de monstro. Até mesmo o único título da franquia “World” que arrisca alguma originalidade, Reino Ameaçado, flerta com o horror gótico ao perceber que esta nova fase deve mais a Frankenstein do que aos tropos clássicos de histórias com dinossauros.

Mas mesmo nele há algo inescapável: os produtores se cansaram dos dinossauros. Estes são, como revela a primeira cena de Recomeço, algo ultrapassado e velho – um estorvo morrendo na pista e atrapalhando o tráfego (alô, Chico Buarque!).
Tantas buscas por híbridos, por mais dentes, por mais horror ignoram o fato de que uma simples sequência de um T-Rex cercando um bote inflável é suficiente para cativar a imaginação de qualquer criança. Ou que a ideia de uma superfarmacêutica tentando curar o infarto (!?) já carrega, por si só, reflexões imediatas sobre o acesso aos avanços científicos.
E mesmo se não fosse isso, esse filme já seria ruim
São ideias óbvias, mas que o roteiro de David Koepp não consegue desenvolver com um mínimo de humanidade. Aqui, os roteiristas repetem tudo mil vezes: o valor da família, o quanto nossos protagonistas são boas pessoas (mesmo sendo criminosos envolvidos com gente perigosa) e, caso ainda não tenha ficado claro, o quanto o mundo deixou de valorizar os dinossauros.

É cansativo, é bobo e adota os piores atalhos dos manuais de roteiro mais pueris. Por isso mesmo, não faz nada “errado” — no sentido de se arriscar e falhar. Pelo contrário: é morno, insosso e tudo o que não se espera de um Jurassic Park. Percebe que mal falei de efeitos, drama ou atuações? É que, diante de tamanha mediocridade, nada disso se destaca.
Não tenho dúvida de que os dinossauros sempre serão interessantes. Mas, no caso dos dinossauros da franquia Jurassic, talvez já tenha chegado a hora de voltarem a estar enterrados.
