Parthenope

Parthenope

Canto de sereia. Se me pedissem para descrever Parthenope, de Paolo Sorrentino, permitindo-me usar pouquíssimas palavras, seriam essas: canto de sereia. A escolha talvez pareça óbvia, já que o título deriva justamente do mito da sereia que falhou em seduzir Ulisses na Odisséia e que, segundo a lenda, teria se lançado ao mar, sendo sepultada onde hoje se ergue Nápoles.

Trata-se de uma obra que, além de anunciar seus significados, anuncia também sua própria beleza a cada instante apenas para revelar, ao fim, a profunda superficialidade da vida, esta muito menos complexa e mais comum do que gostaríamos de aceitar. Mesmo para deusas.

A beleza é uma guerra que se vence

Competindo pela Palma de Ouro em Cannes, o filme acompanha Parthenope desde seu nascimento, em 1950, até os dias atuais. Sua sinopse o descreve como um épico feminino sem heroísmo, mas atravessado por uma paixão inexorável pela liberdade, por Nápoles e pelas diferentes formas do amor — verdadeiro, inexplicável, breve ou destrutivo; aquele que condena ao sofrimento, mas ainda assim impulsiona o recomeço.

E o filme é, de fato, tudo isso. Mas também parece encenar um modo de vida profundamente privilegiado e inevitavelmente poético. Não há grandes novidades formais aqui, tampouco pretensões de ruptura na maneira como Sorrentino filma ou modula emocionalmente sua narrativa.

A câmera retorna, incessantemente, a imagens da juventude europeia bela e idealizada, como se evocasse um imaginário clássico tão sedutor quanto artificial — política e culturalmente moldado. Quase não há interesse em examinar criticamente a elite econômica e intelectual que habita o filme. Ainda assim, sempre que o mundo real irrompe, há choque entre o grotesco e o belo, e o segundo sempre sai vencedor. Aqui, para Sorrentino, a dor jamais pode existir sem ser imediatamente envolvida por uma imagem deslumbrante.

No fim, talvez a própria protagonista sintetize o espírito da obra ao afirmar que tudo no mundo é repetitivo e que devemos agradecer aos artistas capazes de romper, ainda que por instantes, nossa monotonia.

E a beleza que engana

Em “A Mão de Deus”, a anterior carta de amor de Sorrentino à cidade onde nasceu, Nápoles surgia personificada tanto por um jogador de futebol mítico quanto por um adolescente em processo de amadurecimento. Para os padrões do diretor, aquele era um filme surpreendentemente minimalista e íntimo: uma tragicomédia melancólica sobre a passagem à vida adulta, acompanhando Fabietto (Filippo Scotti), alter ego do cineasta.

Como que para compensar a contenção emocional daquele trabalho, Parthenope parece recuperar toda a sensualidade arrebatadora da Cidade do Sol. Nápoles torna-se novamente espetáculo, mas agora um espetáculo melancólico, cuja beleza acompanha e aprisiona sua protagonista.

Entre as figuras que atravessam a vida de Parthenope estão seu escritor favorito, John Cheever, interpretado por Gary Oldman como um cavalheiro alcoólatra melancólico — momentos em que seurgem alguns dos melhores diálogos da produção; seu conselheiro rabugento, Devoto Marotta (Silvio Orlando); a professora de teatro Flora Malva (Isabella Ferrari), escondida sob um véu quase grotesco; um bispo ambicioso (Peppe Lanzetta), dividido entre o desejo de ascender ao papado e sua paixão blasfema por Parthenope; e Roberto Criscuolo (Marlon Joubert), jovem sedutor que conduz a protagonista por uma descida quase dantesca às periferias napolitanas.

Mas por vezes, Parthenope parece uma carta de amor um tanto amarga, Nápoles é observada pelos olhos de uma jovem incapaz de se encantar plenamente com o mundo à sua volta. Assim como a própria juventude. E talvez seja por isso que a pergunta repetida ao longo do filme — “o que é antropologia?” — ecoe para além do diálogo e contamine a própria estrutura da obra.

Seria este um filme antropológico? Estamos nós do lado de cá da tela observando a “tribo” dos ricos, belos e privilegiados — tão mais exótica que o exotismo que a Europa historicamente projetou sobre outras culturas?

Talvez. Mas estamos distraídos. Distraídos pela beleza.

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