A Empregada (2025)

Dirigido por Paul Feig (“Missão Madrinha de Casamento”, de 2011), “A Empregada adapta o best-seller homônimo de Freida McFadden e entrega um thriller doméstico que abraça o exagero e, por muito pouco, não perde o controle. Estrelado por Sydney Sweeney e Amanda Seyfried, o filme parte de uma premissa conhecida. Trata-se da empregada misteriosa que entra em uma casa aparentemente perfeita, apenas para desmontá-la com reviravoltas sucessivas, personagens pouco confiáveis e uma encenação deliberadamente estilizada.

O resultado é um suspense provocativo, autoconsciente e extremamente divertido, desde que você se permita ignorar a adaptação errática das viradas extremamente literárias.

Cinema é cinema, e literatura é…

Adaptações literárias para o cinema são uma arte sofisticada apurada há anos. Mas ainda há roteiros que erram. Não é simples observar uma história construída como um verdadeiro “Page-turner” e imaginar que transpor suas reviravoltas diretamente para as telas não exigiram adaptações no tom ou ritmo. 

Na trama, Millie (Sweeney) é contratada como empregada doméstica pela sofisticada e gelada Nina Winchester (Seyfried), em uma mansão nos subúrbios de Nova York. O que começa como um típico jogo de aparências logo se transforma em um embate psicológico marcado por conflitos de classe, relações de poder e manipulação emocional. Feig conduz a narrativa como um thriller “over-the-top”, acelerando tensões e descartando o realismo estrito em favor de uma lógica quase operística.

Na transposição do texto literário para o cinema, “A Empregada” sofre justamente por abandonar aquilo que fazia do livro de McFadden um fenômeno. A saber, a confiança na sutileza e na construção paciente do suspense. O filme opta por uma adaptação apressada e excessivamente espetacularizada. Sacrifica camadas narrativas, silêncios e pistas graduais em favor de erotização, conflitos explícitos e soluções dramáticas infladas. O filme acelera o desenvolvimento do triângulo entre Millie, Nina e Andrew e transforma tensões psicológicas em espetáculo visual. Assim, dilui o impacto das surpresas e compromete a lógica interna da trama, culminando em um terceiro ato que substitui o suspense sofisticado do livro por ação genérica e pouco inspirada. O resultado é uma adaptação que preserva o esqueleto da história, mas enfraquece sua essência, revelando uma desconfiança injustificada na força do material original.

Apesar disso…

Contudo, maior trunfo de “A Empregada” está nas atuações. Sweeney constrói uma protagonista ambígua, transitando com funcionalidade entre vulnerabilidade e cálculo. Já o grande espetáculo é ver que Seyfried entrega uma de suas performances mais perturbadoras. Subverte sua imagem tradicionalmente empática para encarnar uma figura fria, instável e hipnotizante. A dinâmica entre as duas sustenta o filme e eleva o material, transformando o que poderia ser apenas mais um suspense doméstico em um duelo cênico em constante mutação.

Apesar de recorrer a conveniências narrativas e a situações nem sempre verossímeis, “A Empregada” parece saber exatamente o tipo de jogo que propõe e convida o espectador a aceitá-lo. Ao priorizar o impacto do enredo, as reviravoltas e a manipulação constante das expectativas, o filme se alinha à tradição dos thrillers psicológicos dos anos 1990, como “A Mão que Balança o Berço” e “Atração Fatal”, atualizando esse estilo com uma abordagem contemporânea atravessada por questões de gênero, classe e poder. Nesse sentido, mesmo com seus excessos e atalhos dramáticos, trata-se de um suspense pop consciente de si, eficaz em sua proposta e que  até pode se destacar entre produções mais “prestigiadas” justamente por assumir o prazer do entretenimento tenso, provocativo e cheio de reviravoltas. Tudo depende da sua paciência e tolerância.


Ficha Técnica
The Housemaid (2025) – Estados Unidos
Direção: Paul Feig
Roteiro: Rebecca Sonnenshine, Freida Mc Fadden
Edição: Brent White
Fotografia: John Schwartzman
Design de Produção: Elizabeth J. Jones
Trilha Sonora: Theodore Shapiro
Elenco: Sidney Sweeney, Amanda Seyfried, Brandon Sklenar

 

 

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