A vida secreta de meus três homens
Logo no início da projeção de “A vida Secreta de meus três homens”, de Letícia Simões, somos agraciados com uma linda imagem de um barco a remo que, navegando em um rio ladeado pela floresta fechada, lentamente se aproxima do nosso ponto de observação. Vemos que o barco tem um único homem, que está de pé e se deixa reconhecer à medida que se aproxima. Esse homem está trajando um vestido de noite, que, ao chegar à margem perto de nós, faz menção de retirá-lo.
Essa imagem traz uma metáfora interessante que permeia “A vida Secreta de meus três homens”. Podemos ler que o vestido significa uma aparente e epidérmica delicadeza, própria do feminino, que, ao se aproximar, se desnuda e revela a masculinidade frágil e tóxica em seu estado puro, sem qualquer disfarce.

Esta revelação é a busca de Letícia Simões ao compreender que falar da masculinidade da maneira que ela foi se configurando na história brasileira é também falar dessa história. Neste momento do nosso país, não vejo discussão mais urgente. No Brasil de agora, a cada dia acontecem quase seis casos de feminicídio (dado de 2025), e 227 casos de estupro (dado de 2024). Por isso, falar sobre como as formas de masculinidade se desenvolvem e se manifestam, velada e declaradamente, é falar sobre nossa sobrevivência civilizatória.
Três maneiras de ser homem no Brasil
Associar o filme de Letícia Simões à alta taxa de feminicídios e estupros no Brasil é relevante porque, das variadas formas de masculinidade possíveis em nosso país, a diretora escolhe três delas marcadas fortemente pela violência. A não aleatoriedade dessa escolha tem outro elemento: os três homens focalizados fizeram parte da infância da diretora. Eles chegam em ordem cronológica. O avô Arnaud (Guga Patriota), o pai Fernando (Giordano Castro) e Sebastião (Murilo Sampaio), que viveram em épocas diferentes, relatam suas histórias pessoais mescladas de forma definitiva com a história política social do Brasil.
A ouvi-los, Nash Laila ocupa o espaço afetivo e intelectual de Letícia, muito embora ambas em alguns momentos dividam as telas. Nessas horas, Nash Laila também ocupa o lugar de levantamento de questões sobre as motivações do filme, que se confundem com as perguntas de Letícia sobre sua própria vida.

Ao fim e ao cabo, se constata que a misoginia estrutural que não apenas destrói a vida de nós mulheres, mas também dos homens. Eles acabam por se destruir a si mesmos e uns aos outros em nome de sua necessidade de apagarem da alma qualquer traço de afeto de amor que, em princípio, diminuiria sua virilidade.
Diferentes épocas, mas uma mesma violência
Mesmo tendo vivido em épocas diferentes, os três homens têm em comum, além de ter convivido com Letícia Simões, o fato de terem tido de fato vidas secretas. E essas três vidas terem sido violentas, cada uma de um jeito. Arnaud foi o nome que o líder do cangaço Lampião em pessoa deu ao avô de Letícia, durante o tempo em que viveu sob a rigorosa e perigosíssima disciplina entre os cangaceiros. Mas conseguiu escapar antes que a polícia os capturasse e executasse. Sua história é contada de maneira delicada por Guga Patriota, que empresta ao personagem uma doçura pessoal. Com isso, oferece a leitura de que a vida na violência era algo insuportável ao avô de Letícia.
Por sua vez, Fernando, o pai de Letícia, está na história porque sua vida secreta parece mais ser uma escolha pessoal do que imposição da vida, como se faz entender nas vidas dos outros dois homens. Sua filha desconfia fortemente que ele compôs o quadro de delatores do antigo SNI durante a ditadura civil-militar. Essa vida secreta em pactuação com as forças violentas da repressão é mais um elemento a provocar dor por parte de um homem cuja alma não se deixava entrever. É nesse segmento que Nash Naila, alter ego de Letícia, se encontra mais presente, a cobrar a ausência do pai. A cabeça de pássaro que Giordano Castro enverga em parte do depoimento de seu personagem manifesta essa incapacidade de se abrir emocionalmente para quem ama.

O terceiro homem é o padrinho de Letícia, Sebastião, baiano interpretado com grande sensibilidade por Murilo Sampaio, num monólogo que é o ponto alto do filme. A vida secreta de Sebastião foi uma imposição da homofobia generalizada que, ainda gigantesca hoje, era pior ainda em tempos passados. O alto preço que Sebastião paga por desejar pessoas do mesmo sexo
A história que nos envergonha numa perspectiva intimista
Essas narrativas se organizam por meio da cerimônia das religiões de matriz africana. Cada personagem é introduzido por meio de uma dança em que os três atores partilham juntos o mesmo espaço, os corpos em movimento. Essa dança é a que os médiuns, os “cavalos”, realizam para convidar os orixás a se incorporarem neles. Essa dança-convite chama os fantasmas dos três homens. Mas, ao assumirem corpos vivos, eles abrem a leitura de que o mundo em que viveram não desapareceu, não morreu.

O filme de Letícia é um curto, porém potente chamamento a que nós também, no Brasil, chamemos nossos fantasmas a falar sobre si mesmos, revelar suas verdades. O cinema tem realizado esse trabalho com imensos brilho, haja vista o sucesso nacional e internacional de filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Trazendo a história escondida do Brasil, este brasil que nos envergonha, a uma dimensão intimista, particular, Letícia abre mais uma dimensão da dor histórica com que temos de lidar enquanto não tivermos coragem para olhar para ela de frente.
Ficha Técnica

Direção: Letícia Simões
Roteiro: Letícia Simões
Edição: Quentin Delaroche, Eduardo Chatagnier
Fotografia: Ivo Lopes
Trilha Sonora: O Grivo
Elenco: Nash Laila, Guga Patriota, Giordano Castro, Murilo Sampaio
