Dois procuradores
Em seu livro intitulado “Ignorância”, em que pretende rastrear todas as formas possíveis de ausência (voluntária ou não) de conhecimento, o historiador inglês Peter Burke afirma que, no âmbito do Estado, os governantes estão numa posição muito acima da burocracia ordinária. Por isso, eles desconhecem completamente sistemas, problemas e tramas urdidas nos segmentos mais rasos da hierarquia do serviço público. “Dois Procuradores”, do diretor ucraniano Sergei Loznitsa, pretende mostrar que não é bem assim. A reboque, o filme mostra muitas outras coisas bacanas. Isso tudo o transformou nas (quase) duas horas da minha vida mais bem aproveitadas numa sala de Cinema nos últimos meses.

A bem da verdade, nenhum dos dois está completamente errado. O fato é que os governantes, talvez independentemente de serem mais ou menos tiranos, manipulam ignorância e conhecimento de acordo com o que pretendem em diferentes circunstâncias, momentos e lugares. Igualmente, essa manipulação se presta não a proteger ou cuidar das pessoas. Afinal, o povo só existe para servir. Esse fato está no plano inicial do filme. Homens macérrimos e maltrapilhos se mesclam quase invisíveis entre os andaimes de um prédio. A metáfora dessa primeira imagem mostra o que são as pessoas em “Dois Procuradores”: apenas andaimes de que os tiranos se servem para alcançar e se perpetuar no poder.
Em “Dois Procuradores”, ignorância e conhecimento trabalham juntos
Em “Dois Procuradores”, ambas as condições se apresentam. A suposta ignorância de Josef Stálin em relação ao comportamento das forças policiais na União Soviética da década de trinta do século passado é a própria razão de ser do filme. O filme relata a extensa jornada de idas e vindas do jovem e íntegro promotor Alexander Kornyev (Alexander Kuznetsov, dono no nariz mais interessante da temporada) para denunciar às instâncias superiores da Justiça Soviética a corrupção policial e investigativa, a qual objetivava eliminar os bolcheviques não alinhados aos esquemas ilegais que contaminaram o estamento jurídico soviético.
Mas a mensagem de que nada escapa ao conhecimento do supremo líder soviético também está lá. Principalmente, está em seus bustos que se encontram distribuídos nas repartições públicas. Note o leitor que isso também faz parte do culto à própria imagem, que caracteriza a atitude de ditadores e candidatos a ditadores. Outra evidência disso é a capilaridade do sistema de comunicação. Em “Dois Procuradores”, ela começa por exemplo no soldado raso que observa a cela do prisioneiro pelo buraco da fechadura, e passa por seu chefe, que informa aos superiores sobre o que está acontecendo.

Mas ambos, ignorância e conhecimento, trabalham juntos e contra o promotor Korniev, porque – ele não sabe disso – não cabe a ele dizer o que deve ou não ser conhecido. Essa tarefa cabe aos agentes da polícia e da Justiça que compreendem, bem mais que ele, como o sistema funciona. O conjunto desses agentes está personificado na figura do segundo promotor do filme, a saber, Andrey Vyshinsky (Anatoliy Beliy). Ele é a pessoa equidistante e elo entre as instâncias inferiores do sistemas policial/judiciário e o poder central. É ele, portanto, que definirá qual conhecimento circulará ou não, dependendo de sua vontade e conveniências.
A Arte é também para incomodar
A existência do promotor Vyshinsky transforma “Dois Procuradores” em uma obra bipartite, marcada não apenas pela construção de dois mundos, um da verdade, e outro do sistema. A estrutura do filme o organiza em dois blocos em constante comunicação e confronto. Assim, o roteiro se constitui do que gira em torno dos dois encontros do promotor Korniev. Primeiro, com o prisioneiro I. S. Stepniak (Alexandr Filippenko), que denuncia torturas e eliminação de membros fiéis e contemporâneos da Revolução por agentes de segurança soviéticos. Segundo, com o Procurador Geral Andrey Vyshinsky.
Esses dois encontros assumem características cinematograficamente opostas. De certa forma, pode-se dizer que Alexander Korniev realiza o que Dante Alighieri empreende na Divina Comédia: primeiro, uma descida aos infernos dos porões do presídio onde Stepniak se encontra, e de onde nunca mais sairá. Depois, uma subida (literal, até) ao paraíso da burocracia estatal ao tentar uma reunião com o Procurador Geral no último andar do edifício da Procuradoria.

Esses dois movimentos, o de subida e descida, são realizados numa temporalidade esculpida com apuro por Sergei Loznitsa. Não há a menor intenção de deixar o espectador confortável, nem de emular o atual estado do Cinema comercial, com cortes milimétricos de menos de um segundo. Por exemplo, Korniev finalmente se encontra com Stepniak apenas ao fim da primeira meia hora de projeção. O que vem antes é um percorrer infinito de corredores e escadas, portas que se abrem e ato contínuo são trancadas por diferentes guardas, e algumas horas de espera pela boa vontade do diretor do presídio. O mesmo acontece quando Korniev se dirige ao escritório do Promotor Geral. O Promotor vence andares e mais andares para no fim esperar por mais algumas horas para ser a derradeira entrevista do dia.
Sem fronteiras entre ficção e “realidade”
Porém, acho pouco provável que o espectador se entedie com um filme que dedica seu tempo muito mais à preparação do que vai acontecer do que ao que acontece. Isso ocorre porque a própria preparação é parte constitutiva da trama do filme. Ela guia a leitura que Loznitsa deseja que seu espectador tenha dele. Por exemplo, à porta do presídio, Korniev se defronta com algumas mulheres. A imagem delas é de grande impacto, aliás, graças à fotografia impressionante de Oleg Mutu, aos figurinos de Dorota Roqueplo e à maquiagem de Marly Van De Wardt, que recuperam a impressão visual que temos da época e do lugar. A imagem daquelas mulheres diz tanto sobre aquele lugar quanto o que há do lado de dentro.

Porém, o melhor exemplo de como os percursos de Korniev são reforçadores argumentativos da trama é a história contada pelo velho combatente na terceira classe do trem para Moscow. Exausto a ponto de não conseguir prestar mais atenção a nada, o jovem promotor, que cochila enquanto o velho conta sua história, perde a chance de conhecer uma realidade que provavelmente o pouparia de muitos dissabores.
Nossa sorte é que Sergei Loznitsa está mais interessado no conhecimento do que na ignorância. Por isso, é uma felicidade que “Dois Procuradores” seja lançado no Brasil para abrir reflexões sobre, entre outras ideias, o conceito de ditadura, que, ao senso comum, sempre acaba pendendo para o lado oposto ao das ideologias de cada pessoa. É saudável um cotejo entre a ditadura instaurada do filme e as ditaduras em franca formação em países onde quase ninguém no mundo pensaria que um dia surgiriam. De fato, porém, pelos acontecimentos do filme e da vida “real”, já dá para a gente ver que, quando acaba a democracia, ser de direita ou ser de esquerda já não faz a menor diferença.

Direção: Sergei Loznitsa
Roteiro: Sergei Loznitsa, Georgy Demidov
Edição: Danielius Kokanauskis
Fotografia: Oleg Mutu
Trilha Sonora: Christiaan Verbeek
Elenco: Aleksandr Kuznetsov, Alexander Filippenko, Anatoli Beliy, Andris Keišs, Vytautas Kaniušonis
