Filhos
Depois do destaque que conquistou com “O culpado”, Gustav Möller volta, com “Filhos”, a apostar em um thriller minimalista, mantendo o suspense como a chave de suas narrativas. Contudo, desta vez, o diretor troca a sustentação dada pela voz e expressão de um personagem ao telefone pela opressão de um ambiente fechado, quer estejamos falando da prisão onde a obra se localiza, quer da mente da protagonista. Nesse sentido, a escolha é pertinente, já que, no diálogo entre as duas obras, vemos que ambas são igualmente opressoras e pouco informativas, o que opera muito bem dentro do gênero do suspense.
Em “Filhos”, a culpa como motor da narrativa
Na trama, em meio a uma prisão masculina, uma mãe busca lidar com o luto (ou, talvez, alimentar sua vingança). Eva (Sidse Babett Knudsen) é uma agente penitenciária competente, respeitada e, aparentemente, equilibrada. Mas logo percebemos que ela tem algumas marcas de que algo a consome. A dúvida dos expectadores dura muito pouco, mas cresce como uma ferida silenciosa que, desde o primeiro ato, contamina cada decisão da personagem. A situação se intensifica quando Mikkel Iversen (Sebastian Bull Sarning), o homem que assassinou um outro jovem na prisão, é transferido para a prisão onde Eva trabalha. Em vez de se afastar, ela voluntariamente se aproxima. Muda de ala, assume funções novas e se coloca diante do rapaz. Nos perguntamos, por algum tempo qual a relação das duas histórias. O que ela quer? Justiça? Redenção? Castigo?

Apesar do título “Filhos”, o filme tem como seu coração narrativo a relação que fazemos entre duas mães: de um lado, Eva, e, de outro, a mãe de Mikkel, interpretada com delicadeza por Marina Bouras. Nesse sentido, o filme é bastante eficaz em demonstrar que ambas pensam que falharam com seus filhos, e, por isso, carregam frustrações e arrependimentos. Mas, enquanto uma busca formas de reparar o passado, a outra é privada até mesmo de consolar seu filho morto. Esse embate silencioso entre duas mulheres destruídas pela violência masculina é uma das camadas mais ricas do longa. Não há confrontos explícitos entre elas, mas seus gestos, olhares e escolhas carregam mais dor do que qualquer grito.
O ciclo da violência como questão central
Rodado na desativada prisão de Vridsløselille, em Copenhague, “Filhos” ganha uma atmosfera claustrofóbica e crua graças à câmera quase documental de Jasper J. Spanning. A movimentação sutil da câmera, acompanhando Eva em suas rotinas e crescentes transgressões, cria uma intimidade que só pode ser descrita como desconfortável. Em toda a projeção, a sensação que temos é de uma câmera indiscreta, através da qual vemos mais do que deveríamos.
O roteiro, assim como em O Culpado, aposta na ambiguidade. Não há trilha emocional empurrando o espectador para um julgamento fácil. Quando Eva manipula provas, planta drogas ou sabota Mikkel de forma passivo-agressiva, o filme não a glorifica, mas também não a condena abertamente. O público é deixado no papel de observador impotente, convidado a refletir: até onde vai a dor de uma mãe, e até onde deve ir?
Muita força nas atuações
Conhecida pelo equilíbrio e força de seus papéis em dramas políticos, Knudsen entrega aqui uma atuação surpreendentemente crua. Eva oscila entre controle e descontrole, entre a profissional exemplar e a mulher em colapso. Seus silêncios dizem tanto quanto seus acessos de raiva, e seu olhar endurecido guarda um poço de emoções mal resolvidas. Sarning, por sua vez, entrega uma fisicalidade em seu personagem que nos provoca impaciência e inquietação. Quando ambos dividem a tela, é como se a qualquer momento um deles pudesse explodir em fúria. E é daí que vem o grande suspense da obra: esperamos sempre por algo que parece nunca chegar, e que não queremos também que chegue.

Desse modo, ao fim, “Filhos” não se resolve em um clímax explosivo. Sua maior provocação fica mesmo na pergunta não respondida: onde termina o ciclo da dor e da violência? Eva busca justiça ou perpetua a lógica punitiva que tirou seu filho dela? Em tempos de narrativas sobre vingança justificada, o filme de Möller é um sopro de complexidade moral. E, desse modo, Gustav Möller nos lembra que os muros de uma prisão também guardam fantasmas, traumas e decisões difíceis.
Ficha Técnica

Direção: Gustav Möller
Roteiro: Gustav Möller, Emil Nygaard Albertsen
Edição: Rasmus Stensgaard Madsen
Fotografia: Jasper J. Spanning
Design de Produção:
Trilha Sonora: John Ekstrand
Elenco: Sidse Babett Knudsen, Sebastian Bull Sarning, Dar Salim
