Jovens Mães

Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne já inscreveram seus nomes na cronologia do cinema premiado. E o fizeram pelo menos três vezes, com “Rosetta” (1999), pelo qual receberam a Palma de Ouro em Cannes, “O Filho” (2002), que premiou o protagonista Olivier Gourmet, e “A Criança” (2005), este lhes dando a segunda Palma de Ouro. Essa lembrança uma forma de ainda guardar alguma reverência por “Jovens Mães”, o novo longa dos irmãos, que infelizmente não recupera nada do que os imortalizou.

Havia nos três grandes filmes dos Dardenne que eu citei acima uma mensagem quase antecipatória sobre como o capitalismo iria se configurar no século 21. Em outras palavras: ao descrever a pobreza e desalento dos jovens belgas sem nenhuma perspectiva de vida além da sobrevivência e da marginalidade, os Dardenne anunciavam algo que hoje vemos na Europa com uma agressiva concretude: o centro do mundo capitalista se transformando em periferia. E, ironicamente, essa periferia se substanciando justamente no centro nervoso da União Europeia.

jovens mães reunião

Mas isso era feito sem que em momento algum se deixasse sem atenção a perspectiva absolutamente individual, singular, dos personagens. Nos três filmes, sem exceção, os protagonistas são maltratados por dilemas morais impostos pela miséria, ou, por que não dizer, apesar dela. A miséria pode ser dada como motivo e isenção para ações criminosas? Até onde a necessidade de sobrevivência nos permitirá suspender aquilo que a humanidade acumulou como sendo o melhor dos seres humanos: a ética, a solidariedade, a compaixão? As escolhas e os paradoxos de cada personagem diante de sua realidade, paradoxos que são da humanidade, os tornaram emblemáticos e os definiu como marcos na História do Cinema como Arte política.

Os Dardenne se notabilizaram por uma gramática imagética poderosa

Em seus três filmes poderosos, os irmãos narram o desespero de uma juventude pobre e sem perspectivas no centro do sistema capitalista, assumindo uma linguagem cinematográfica que transforma esse desespero em imagem, som e movimento.

Essa definição acompanhava uma perspectiva de câmera em planos sequência que imediatamente caracterizou a obra dos Dardenne. Os diretores perseguem seus personagens com a lente fixa em sua nuca. Em princípio, isso não seria tão notável se os próprios personagens também não estivessem perseguindo alguma coisa, sempre numa hiperatividade de tirar o fôlego. Ao não nos dar trégua na impressão do que significa perseguir alguém, os Dardenne nos obrigam a pensar no que significa se sentir perseguido. Em seus filmes, perseguido pela miséria, pela dor, pelo desespero e pela raiva. Esse recurso pode ser o responsável por não conseguimos nutrir qualquer raiva dos adolescentes infratores que mais de uma vez foram o objeto de interesse dos Dardenne.

gravidez

É interessante notar que, nos três filmes que citei, reitera-se uma gramática que logo se caracterizou como marca registrada dos irmãos. Mas essa reiteração não era sentida como autoplágio ou falta de inovação. Ali se via o cultivo de uma perspectiva específica de observação daqueles a quem, no futuro, o mundo confiará seu destino, ainda mais na Europa desenvolvida, onde se constrói conhecimento e tecnologia. Junto a isso, o convite a que também façamos o mesmo. Entretanto, sem nunca deixar de lado que é de pessoas que se trata, com conflitos particulares e visões únicas de reconhecimento e resolução dos próprios problemas.

Perseguir uma questão não é problema

Além disso, como os Dardenne não estavam interessados em finalizar nada – pelo contrário, desejavam era abrir questões -, há um quê de documental, de estudo de personagem, nos três filmes. Isso garante às obras um frescor que lhes permite serem apreciadas como se  fossem contemporâneas, já que fica constantemente aberto o diálogo com o espectador sobre temas que tão cedo não deixarão de ser relevantes, já que dizem respeito a legado, a futuro.

Jovens Mães casal

Bom, eu digo tudo isso para afirmar o que faltou a “Jovens Mães”, no meu entender. Os Dardenne abordam novamente a temática da juventude belga pobre e sem perspectiva na periferia em que o centro do capitalismo está se transformando. Mas isso não é problema. Há intelectuais cineastas que perseguem uma questão ao longo de seus filmes. Essa questão vai se enriquecendo tanto que ao fim acaba se transformando em outra. Ou não, mas isso também não é problema.

“Jovens Mães” retrocede na abordagem ficcional de um tema

A partir do tema gravidez e maternidade na adolescência, Os irmãos Dardenne definem quatro figuras que têm em comum, além do fato se serem jovens mães, a permanência numa instituição de apoio a meninas que por diversas razões estão desamparadas em sua gravidez.

Porém, quem assiste ao filme vê alguma coisa que não difere muito daqueles documentários de meia hora que a BBC produz e exibe no Youtube. Os dramas de Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Ariane (Janaina Halloy) e Julie (Elsa Houben) são também os de muitas e muitas jovens na mesma situação. Jessica foi abandonada pela mãe e corre o risco de fazer o mesmo com a filha bebê. Perla manteve a gravidez na esperança de formar pela primeira vez uma verdadeira família, mas descobre que o namorado não tem os mesmos planos. Ariane é uma adolescente em meio à dor de ter de entregar a filha para adoção e a tristeza de não poder confiar nos apelos da própria mãe para que criem a bebê juntas. Julie, junto com a filhinha e o namorado, luta para superar a dependência química e construir uma vida fora das ruas.

Jovens Mães Jessica

Assim, ao longo da projeção, as quatro histórias de desenrolam de tal sorte que a gente se sente assistindo a um documentário. Confesso que mais de uma vez esperei ouvir a voz de algum locutor complementando com mais informações as cenas em tela. Ao fim de cada breve história, uma leve esperança de que o destino das moças fosse diferente do que o início do filme anunciava. Assim, elas teriam um futuro um pouco melhor do que o de milhões de jovens mulheres no mundo todo.

“Jovens mães” pouco justifica sua existência

E é nesse sentido que “Jovens Mães” funciona mais como uma descrição de problemas ocasionados pela gravidez na adolescência. Assim como as quatro moças, milhões de outras garotas passam pelas mesmas situações. Não se mostra nada de especial ou singular que explique por que essas histórias específicas, e não outras, estão sendo contadas. Disso decorre que o que testemunhamos é algo semelhante a quatro exemplos dentro do universo de situações possíveis dentro do tema que os cineastas abordam.

familia

Portanto, temos um filme que não justifica sua existência, porque não há de fato dentro do tema uma questão particular sendo explorada, desenvolvida. Não há perguntas sendo feitas. Não há um final que nos deixe em suspenso, obrigados a refletir sobre o que aconteceria com as moças. Nesse sentido, o final esperançoso do filme resulta escapista e fora da realidade. É como se os irmãos Dardenne de repente tivessem desistido de acreditar que seus expectadores são capazes de pensar, de questionar o mundo. Este, talvez, seja o paradoxo que “Jovens Mães” traz. Só que agora o paradoxo é dos cineastas, e não da humanidade.


Ficha Técnica
Jeunes Mères (2025) – Feança, Bélgica
Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Edição: Marie Hélène Dozo
Fotografia: Benôit Dervaux
Design de Produção: Igor Gabriel
Elenco: Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaina Halloy, Lucie Laruelle, Jef Jacobs, Günter Duret, Christelle Cornil, India Hair

 

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