Kokuho – O preço da Perfeição
Já quase ao fim do maravilhoso “Kokuho – O Preço da Perfeição”, de Lee Sang-Il, os dois personagens principais, sentados no chão do palco de um imenso teatro vazio, conversam. Um olha pra cima e diz ao outro: “alguém sempre nos observa lá do alto”. O outro pergunta: “Quem será?”
Penso que esse breve diálogo sintetiza à perfeição as quase três horas de um espetáculo cuja duração praticamente não sentimos. Lee Sang-Il consegue o feito de nos hipnotizar com a beleza e a profunda relevância da trama de “Kokuho – O Preço da Perfeição”. Muito justificadamente, o filme conquistou o primeiro lugar entre os mais assistidos de todos os tempos no Japão. Provocou até um renascimento do interesse no Teatro Kabuki em todo o país.

A secular tradição do Teatro Kabuki foi, ao longo dos anos, adquirindo configurações e modos específicos que o identificam com algumas estruturas rígidas da sociedade japonesa. Inicialmente exercido por mulheres, a alegação de que as atrizes eram não raro prostitutas fez com que elas fossem retiradas dos palcos em favor de uma exclusividade masculina. Assim, personagens femininos e masculinos são assumidos igualmente por atores homens. Os atores que exercem papéis femininos são chamados Onnagata. Porém, isso não significou uma masculinização das figuras femininas. O preparo rigoroso dos atores do Kabuki inclui um gigantesco esforço para que haja a certeza absoluta de que a plateia testemunha uma mulher extremamente feminina no palco.
O talento convive com a ambiguidade
Assistindo a Kokuho – O Preço da Perfeição, me perguntei se a tradição do Kabuki ser estritamente familiar decorre da necessidade de exercer um controle absoluto desse feminino que o treinamento técnico desperta nos atores. Dentro dos clãs, seria possível, em princípio, além de manter o conhecimento restrito a privilegiados, não permitir que a feminilidade necessária à perfeição artística “manche” a virilidade dos artistas. O desenvolvimento da arte sem qualquer controle social poderia acarretar desconfianças sobre a sexualidade dos atores.

Não é por acaso que, no palco, Kikuo Tachibana (Ryô Yoshizawa), o forasteiro filho da Yakuza que desafia a tradição familiar, confunde os homens. Muitos acreditam que de fato há uma mulher delicadíssima sob a pesada roupa e maquiagem. Também não é por acaso que Shunzuke Ogaki (Ryûsei Yokohama), seu rival de palco numa relação de amor e ódio por décadas, é criticado justamente por não conseguir destravar seu feminino, o que o tornava um ator medíocre na comparação com o arrebatador Kikuo.
Gênero e desejo são coisas diferentes
E também não é por acaso que, já ao fim do filme, o Tesouro Nacional do Kabuki (o nome do filme é a tradução japonesa dessa honraria), já muito idoso, é mencionado jocosamente por outros personagens com o pronome feminino. Evidentemente, a licença de liberação do feminino de que as famílias do Kabuki usufruíam não diz respeito ao desejo. Mas, é claro, não há controle familiar e social que o contenha.
Acho extremamente interessante que, em “Kokuho – O Preço da Perfeição”, o fundamento do talento diferenciado de Kikuo seja sua capacidade de exercer seu feminino sem reservas. Com isso, ele transporta a plateia para experiências estéticas e de desejo intensas e profundas. Também muito interessante é a ambiguidade moral que o personagem mantém ao longo do filme. Isso contrasta com sua absoluta entrega à arte do Kabuki, mesmo que a tradição teatral não esteja em seu sobrenome.

Além disso, “Kokuho – O Preço da Perfeição” mantém nossa atenção por quase três horas também por uma questão que nos toca no mais fundo de nossa natureza humana. Onde está de fato nossa essência? na genética? no meio social? ou ela seria algo absolutamente imponderável? Ou, mais ainda, não haveria essência nenhuma?
A perfeição custa muito caro
O confronto constante entre Kikuo e Shunzuke navega nas águas dessa questão. Kikuo vem de uma família de criminosos, mas desde tenra idade está capturado pelo Kabuki. O rigoroso e não raro violento treinamento dos atores para ele não deixa também de ser uma diversão, que ele adora. Kikuo assimila rapidamente as lições dadas pelo patriarca Hanjiro Hanai (Ken Watanabe) sobre o espírito feminino da emoção do Kabuki. Mesmo Kikuo sendo um elemento de fora, Hanai sabe que, nas horas críticas, seu desempenho é garantia de sucesso, diferentemente do que seu filho Shunzuke entrega.
O filme se divide no revezamento entre Kikuo e Shunzuke, filho de Hanai, na ocupação do lugar principal na hierarquia do clã. Por algum tempo, eles conseguem conviver no palco com relativa harmonia, mas qualquer pequena rachadura pode acabar com isso. Nenhum dos dois é completo. Um tem o que o outro quer. Ao fim e ao cabo, ambos sem perdendo alguma coisa.

Nesse sentido, a complexidade dos personagens enfraquece nossa capacidade de torcer por eles. Contudo, de certa maneira, temos compaixão por eles. Afinal, sabemos que ambos estão armadilhados numa trava social emperrada há séculos. Ao mesmo tempo, o desejo de serem bem sucedidos naquele mundo não lhes permite reunir elementos conceituais que os conduzam a uma vida voltada à arte mas desvencilhada das amarras de sua tradição familiar. Em outras palavras: sabemos que nunca serão felizes, mesmo se um dia o povo japonês lhes outorgar o título de Kokuho.
Essa piedade se acentua com aquilo que vemos durante as magníficas apresentações do Kabuki. Salta aos olhos o máximo capricho da direção de arte, maquiagem (indicadíssima ao Oscar) figurinos e toda a parte técnica. Esse trabalho torna os momentos em que os personagens estão no palco verdadeiramente ansiados pelos expectadores.
Um filme visual e tematicamente belíssimo
E aí o trabalho de edição e enquadre realizado por Lee Sang-Il é um espetáculo à parte. Torna-se secundário se a plateia no teatro está afetada emocionalmente pelo que vê no palco. Sang-Il está interessado no espetáculo que corre no palco, sempre relacionando-o à importância essencial da atuação na vida dos personagens. Nesse sentido, os planos super fechados imperam, mostrando não apenas detalhes da maquiagem pesada, mas o fato de nem ela consegue mascarar as emoções de personagens que se mesclam de uma maneira inevitável àqueles que estão interpretando.
Assim, nas importantes sequências do Kabuki, há duas mesclagens de universos correndo paralelamente: o universo do cinema e do teatro se fundem; da mesma maneira, a vida pessoal dos personagens se funde ao que estão interpretando no palco. O ambiente gigantesco do teatro é coadjuvante do trabalho cinematográfico por excelência, bem como para o andamento da história e desenvolvimento da trama que interessa a Lee Sang-Il.
Mas há outro tratamento caprichado destinado às cenas do Kabuki. Os trechos do filme que relatam a preparação técnica e visual dos atores revelam o artesanato e o esforço da prática do Kabuki. Por sua vez, o trabalho de edição nos concede o tempo de observar com calma não apenas o que se opera antes dos espetáculos, mas a dinâmica de palco e as trocas de figurino durante as apresentações. “Kokuho – O Preço da Perfeição” é para ser visto na tela grande. Dessa maneira, a experiência de estar no teatro se aproximará daquela que se pode ter no cinema.
“Kokuho – o preço da perfeição” respeita a inteligência do espectador e a história que conta
Preciso dizer que essas mesclagens revelam o profundo respeito que Lee Sang-Il manifesta pelos espectadores. Ao mesclar universos, o diretor conta com a inteligência do espectador para lidar com eles sem prejuízo da condução da narrativa, e de fato esse prejuízo nunca acontece. Mas esse respeito se manifesta igualmente na trilha sonora, que nos poupa de redundâncias e conta com nosso entendimento do que está na tela. Uma ou outra cena me encantou em particular por se dar no mais absoluto silêncio. Diretores que optam por essa composição sempre me dão a impressão de acreditar tanto na capacidade do espectador de compreender o que ocorre sem dados a mais, quanto na capacidade de sua própria história de afetar e mover a plateia de alguma forma.

Porém, acima de tudo, “Kokuho – O Preço da Perfeição” é um verdadeiro detox artístico que nos lembra o que é e para o que é o Cinema. É o conjunto de escolhas visuais e sonoras perfeitas para contar uma história relevante. Essa história, como diz um dos personagens, pode levar o público ao céu, mas também ao inferno. O importante é tirá-lo do lugar, e arrebatá-lo por um tempo que dure para além do fechar das cortinas, ou melhor, do apagar das luzes. É exatamente o que “Kokuho – O Preço da Perfeição” faz.
Ficha Técnica

Direção: Lee Sang-Il
Roteiro: Satoko Okudera, Shûichi Yoshida
Edição: Lee Sang-Il
Fotografia: Sofian El Fani
Design de Produção: Yôhei Taneda
Trilha Sonora: Marihiko Hara
Elenco: Ryô Yoshizawa, Ryûsei Yokohama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Soya Kurokawa,
