Novembro
Muitos de nós temos a perspectiva de fatos históricos através do Cinema. Junto com os livros de História, nossas fontes sobre o passado do mundo também vêm com os filmes. Isso não é uma coisa ruim. Tanto é que, em escolas e universidades, os professores lançam mão de sessões de cinema como parte do programa de muitos cursos. Sem dúvida, Novembro, de Tomás Corredor, não demorará a ser exibido nas escolas colombianas como parte do currículo sobre a história recente do país.
Sabemos, no geral, que a segunda metade do século 20 não foi muito generosa para a Colômbia. Crises econômicas e políticas, batalhas internas entre governos de ocasião e grupos de extrema-esquerda revolucionários, intervenção estadunidense sob o pretexto de combate ao narcotráfico, governos de esquerda, governos de direita… Muita corrupção e sofrimento do povo num país belíssimo, pujante, de cultura, culinária e arte para lá de especiais.

Especial também é a forma que Tomás Corredor escolheu para contar um pouco da história de seu país. Os fatos não estão ali recriados em plano amplo, aberto. Não há grandes cenários além das imagens das invasões, explosões e incêndios que o Palácio da Justiça sofreu nos dias 6 e 7 de novembro de 1985. Interessa ao diretor a memória dos sentimentos, do desespero e do terror que o passar das horas intensificava nas mentes e nos corações dos ativistas armados e seus 300 reféns.
Novembro faz a opção pelo intimismo
Tanto é assim, que Tomás Corredor nem se preocupa muito em expor o macrocontexto que explicaria a entrada violenta dos membros do grupo de extrema esquerda M-19 no Palácio da Justiça a fim de sequestrar membros da Suprema Corte colombiana e forçar um julgamento do presidente Belisario Betancur. Observe-se, interessantemente, que não se ouve o nome do presidente nenhuma vez no filme. O foco é nas pessoas envolvidas nos fatos que se desenrolam em um dos banheiros masculinos do prédio, para onde entram e de onde saem ora membros do M-19, ora reféns.
Corredor leva às últimas consequências a opção pelo intimismo e pela ênfase nos afetos e reações dos personagens. Os planos abertos no filme se restringem às imagens da TV da época. No banheiro do Palácio, os enquadres são tão fechados que, por exemplo, os feridos nunca chegam a aparecer de corpo inteiro. Nem se dá muita atenção a seus ferimentos. Um dos membros do M-19, muito ferido, é levantado por companheiros e reféns a um balcão, mas seu corpo nunca é mostrado por completo. Os demais personagens também são exibidos em planos fechados, e a câmera passa de um a outro às vezes em movimentos frenéticos.

É claro que isso acaba construindo para Novembro uma atmosfera claustrofóbica, sufocante. Essa sensação se intensifica ainda mais quando o exército lança bombas de gás lacrimogêneo para forçar o grupo a sair dali e libertar os reféns. Em conjunto, essas escolhas contribuem para inspirar o espectador a pensar não apenas nos fatos, suas causas e efeitos, mas em como os acontecimentos caíram sobre as cabeças das pessoas e ameaçaram suas vidas de uma maneira aterrorizante.
O Cinema construindo novas memórias
Logo no início da projeção, lê-se que o tempo turva, apaga a memória dos fatos. Essa afirmação é interessante na medida em que Novembro não pretende recuperar fatos propriamente, mas sim fazer algo oposto: construir na mente do espectador outra memória: a memória de que ali se tratava de pessoas numa situação extrema, em que suas vidas estavam por um fio.
No caso dos membros do grupo armado M-19, a ameaça vinha do lado de fora do banheiro, dos soldados que invadiram o Palácio sem grandes dificuldades e poderiam tomar o bunker improvisado a qualquer momento. Porém, no caso dos reféns, a ameaça era dupla: tanto do M-19 quanto dos soldados, que certamente entrariam já atirando, independente de haver ali gente inocente ou não.

Além disso, Tomás Corredor constrói em Novembro uma outra memória. No caso, é a ideia de que ali havia reféns comuns, mas também havia magistrados que podiam interferir no processo positivamente, trabalhando para libertar os reféns antes que o banho de sangue fosse inevitável. Particularmente em relação a isso, há uma ênfase em detalhes que justificariam a ação do M-19 sobre o Palácio da Justiça. Trata-se do fato de que, antes, como hoje, não havia muita preocupação das pessoas importantes ali em relação aos cidadãos comuns presos junto com eles. Prova disso é o momento em que o Magistrado Manuel Gaona Crus (Santiago Alarcón) preferir limpar as mãos com seu lenço em vez de usá-lo para amarrar um torniquete em torno da perna de um guerrilheiro ferido.
A humanização faz os paradoxos aparecerem
O resultado é uma humanização geral dos personagens, independente dos seus lugares de algoz e vítima que inicialmente se instalaram. Essa humanização, evidentemente, acontece para o bem e para o mal. Ocorre com as autoridades ali, que se apressam em dar seus nomes numa lista de reféns para o exército, sem sequer se lembrar dos funcionários do prédio. Ocorre com os membros do M-19, que sentem o terror do fracasso de sua operação e as seguidas perdas dos amigos e amores que entraram naquela empreitada malograda junto com eles.
Se todos, como humanos, já eram iguais no início do filme, ao seu término eles se tornaram iguais de fato. Muita gente morreu nas 24 horas de terror que Bogotá enfrentou. Quase metade dos 25 juízes morreu. Dos 35 membros do M-19, apenas Clara Helena “Mona” (Natalia Reyes), não caiu morta.

Aliás, essa humanização serve também para os tempos de agora, tempos brutos em que vivemos. Tempos em que se pensam soluções armadas para problemas de um país. Ao fim e ao cabo, o Exército colombiano promoveu um verdadeiro massacre nas dependências do palácio, não poupando nem os reféns. Mas o grupo M-19 certamente divide a responsabilidade desse massacre, suicidando-se junto com os reféns. Com toda a certeza, uma das maiores qualidades de Novembro é não tratar de forma maniqueísta os agentes dessa página trágica da história da Colômbia.
Ficha Técnica

Direção: Tomás Corredor
Roteiro: Tomás Corredor
Edição: Felipe Guerrero, Bruno Carboni, Diana Bustamante
Fotografia: Carlos F. Rossini
Trilha Sonora: Mariá Portugal
Elenco: Natalia Reyes, Santiago Alarcón, Juan Prada, Johanna Robledo
