O Agente Secreto
O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho, faz algo genuinamente original dentro do cinema brasileiro. E isso não tem nada a ver com os lugares comuns que se podem atribuir aos grandes filmes que saem da bolha e começam a despontar como possíveis referências do cinema nacional. Em um primeiro olhar, o que ele faz é o que vários filmes já fizeram antes. Demonstra a maturidade de um realizador que se sente cada vez mais confortável em abordar em sua arte os temas que lhe são caros.
Além disso, explora mesclar o cinema de gênero, tão consolidado na indústria internacional, com as cores locais do cinema brasileiro. Também evoca brasilidade e latinidade. De maneira muito sofisticada, leva isso para o mercado mundial sem tremer por um segundo diante de grandes players desse mercado. Decerto, tudo isso já vimos antes. Mas não me recordo de uma vez sequer em que tudo isso tenha acontecido de uma só vez. Pelo menos não desde a retomada.
O filme de um espião mambembe
Em dado momento da história, a personagem de Maria Fernanda Cândido explica que eles precisam criar uma nova identidade para o protagonista. Porém, é um tanto cômico quando ela explica que será meio como o serviço secreto dos EUA costuma fazer com testemunhas, mas que a maneira de fazer isso no Brasil seria um tanto mambembe. E isso é o que é. E é assim que O Agente Secreto se apresenta: como um thriller político que revisita a ditadura militar para discutir apagamentos — de pessoas, memórias e lugares — que ainda moldam o Brasil.

Não temos aqui astros de cinema, mas sim pessoas que assistem aos astros. Pessoas comuns, perseguidas quase por acaso. E com isso, misturando o cinema de espionagem à sensibilidade autoral que marcou Bacurau e Retratos Fantasmas, o diretor transforma o ato de desaparecer em uma metáfora: um gesto sobre o esquecimento histórico e o silêncio imposto por regimes de poder.
O protagonista, Marcelo (Wagner Moura), surge em 1977 como um homem em fuga, tentando reconstruir sua identidade em um Recife sufocado pela corrupção e pela violência institucional. A cena inicial, com um posto de gasolina e um cadáver ignorado pela polícia, já sintetiza o país que o filme retrata. É um lugar em que a vida humana vale pouco e o sistema opera apenas em favor de si mesmo. A partir dessa percepção, começamos a entender que a jornada de Marcelo, muito além de esconder-se e buscar rastros do próprio passado, é percorrer uma cidade que respira, mas que respira como uma espécie de cidade fantasma, ao menos para aqueles que estão refugiados nela.
Mais que nostalgia, reverência
O filme alterna o passado e o presente, quando uma jovem pesquisadora descobre fitas antigas e reabre a história de Marcelo. Dessa maneira, o gesto dela aponta para algo maior: a persistência dos traumas da ditadura nas estruturas sociais e políticas de hoje. Kleber, mais uma vez, amplia o foco. Vai além da repressão militar e expõe as engrenagens empresariais e as redes de corrupção que sustentaram — e ainda sustentam — o poder no país. Chega a doer quando descobrimos por que a pesquisa é encerrada, em idos do fim do filme.
Visualmente, o longa impressiona. A reconstrução do Recife dos anos 1970 é de uma precisão hipnótica: prédios históricos, letreiros, cinemas, fachadas corroídas pelo tempo. Mas há mais do que a nostalgia barata tão comum no cinema atual. Não é arriscar muito dizer que qualquer pessoa que se abra sensivelmente ao filme se emocionou com os planos das ruas de Recife, seja num grande plano geral, seja numa tomada aérea do carnaval. Este texto disse antes que a cidade era um fantasma, mas isso faz parte da estética da obra, pois, por não saber disso, ela segue viva. Faz parte do drama de Marcelo. Ajuda que a fotografia granulada remeta ao cinema da época, enquanto a trilha sonora costura tensão e melancolia.

Há, também, o humor suave de figuras como Dona Sebastiana (Tânia Maria), que surge como uma espécie de respiro dentro do caos, nos únicos momentos em que nos sentimos, de alguma forma, em casa. O roteiro combina realismo e alegoria, e, em meio a conspirações e segredos, surge até o folclore. Imagino os gringos vendo essa cena.
Uma atuação para ser premiada
Wagner Moura entrega uma atuação contida, dolorosa, de um homem que carrega o peso do invisível. Mas não só. Consigo dizer exatamente o momento em que todos entendem que esse filme pode realmente lhe dar uma indicação ao Oscar. Ele guia o espectador por essa inusitada “trama de espionagem” sem jamais permitir que o mistério se sobreponha ao humano. O epílogo talvez soe menos impactante. Mas, quanto mais pensamos no conjunto, mais ele parece coeso e poderoso.

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi de pessoas comuns, instadas por opiniões rasas em redes sociais, que o Brasil só faz filmes de miséria e ditadura, sem se darem conta de que se trata, de muitas formas, temas semelhantes. Ouvi mesmo dizer que este filme seria repetitivo depois do prêmio de Ainda Estou Aqui. Bem, podemos concluir que são filmes totalmente diferentes, mas que se encontram num ponto em específico. Ambos são o retrato de um país que tenta voltar a um lar que já não existe e à lembrança de uma nação que esforçou-se para apagar a si mesma.
Mas também retratam um povo que insiste em ser lembrado, como instrumentos de resistência, revelando o que o Brasil ainda tenta esconder enquanto seguimos, obstinadamente, tentando compreender o que varremos para debaixo do tapete.
Ficha Técnica

Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Edição: Matheus Farias, Eduardo Serrano
Fotografia: Evgenia Alexandrova
Design de Produção: Thales Junqueira
Trilha Sonora: Mateus Alves, Tomaz Alves Souza
Elenco: Wagner Moura, Tânia Maria, Carlos Francisco, Hermila Guedes, Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido
