O Agente Secreto
Este texto contém spoilers sobre o filme O Agente Secreto (2025).
Diferentemente de como procedo na maioria das resenhas que elaboro, li muitas críticas a O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, antes de escrever meu próprio texto sobre o filme. Decidi fazer isso porque eu sabia que seria demorado o trabalho de organizar as ideias para um texto minimamente fidedigno a esta que já nasce uma das obras mais importantes da história do Cinema Brasileiro. E, de fato, foi. Mas sai agora.
É sempre interessante a leitura de vários materiais escritos sobre uma mesma obra. A cada leitura, testemunhamos novamente a riqueza de perspectivas de julgamento. Para um mesmo aspecto da obra do diretor pernambucano, há avaliações positivas e negativas. Por exemplo, o fato de o filme se estruturar narrativamente como um quebra-cabeças foi bem e mal recebido na mesma medida. No segundo caso, foi criticado por gente que se impacientou por não encontrar uma convencionalidade estrutural, ou seja, uma completude integrativa de informações no enredo. Ora, como organizar sua história é prerrogativa absoluta do realizador. É ele quem decupa, ordena e edita os fatos da forma que achar coerente com seus propósitos. Aliás, filmes que não mostram tudo também são filmes que respeitam e apostam na inteligência do espectador para recuperar as pontas soltas com seu conhecimento do espaço e tempo mais amplos em que o filme se insere.

Outros se chatearam com o próprio enredo do filme. Em sua opinião, O Agente Secreto não entregou uma história de acordo com suas expectativas. Houve até quem dissesse que o filme termina sem algo que possa ser chamado de “fim”. Sobre isso, me chama atenção como muitos espectadores totalizam um filme no seu enredo. Eles desconsideram os outros elementos que estão ali participando de maneira ainda mais importante, a meu ver, do que a própria história. Esse privilégio dado ao enredo me espanta entre pessoas que cultivam o hábito de buscar resenhas sobre um filme imediatamente de assistir a ele. A articulação entre as ações de assistir a um filme e ler/ver vídeos sobre ele enriquece e estende nossas experiências estéticas e nos proporciona letramento cinematográfico.
Sempre há mais a dizer
O Cinema é uma linguagem poderosa, popular e sofisticada ao mesmo tempo. Vale a pena desvelar essa sofisticação numa arte que encanta tanta gente. Tudo o que se aprende se transforma numa potência que se espraia para todos os lados. Por isso, ler e compreender sobre Cinema abre caminhos para expandirmos nossa compreensão sobre tudo.
Depois que passei a escrever sobre Cinema, e até, acho, por conta de meu ofício como professora, fui ao longo do tempo me dedicando a expandir significados e conclusões sobre os filmes. Percebo que essa é a intenção de muitos articulistas, cada um no seu lugar de fala. Há quem descreva o entorno comercial do filme: os agentes comerciais envolvidos, os detalhes e problemas da produção, custos, dificuldades, chances para prêmios etc. Essas informações são fundamentais para a gente entender o Cinema por dentro. Isso nos ajuda a compreender a importância da indústria cultural como elemento central da economia de um país, ao contrário da desimportância da cultura que os fascistas apregoam.

De minha parte, me apraz reiterar e buscar argumentar pertinentemente minha tese de que o enredo de um filme é o que menos interessa. Um mesmo enredo pode repetir-se em vários filmes, o que de fato acontece. O que interessa mesmo é como ele é apresentado. A crítica de cinema nos ajuda bastante a reconhecer isso.
Um círculo que se abre e se fecha numa rima inesquecível
Assim, de novo venho aqui falar que, em O Agente Secreto, como em todos os grandes filmes, o enredo é o que menos interessa. Mesmo assim, Kleber Mendonça é generoso o suficiente para adiantar na primeira cena sobre o que é seu filme. O Agente Secreto é um filme sobre memória, e, numa contrapartida absolutamente lógica, é sobre esquecimento. Em todos os sentidos e dimensões possíveis.
De fato, na primeira cena, o protagonista Marcelo (Wagner Moura soberbo, profundamente verdadeiro e humano numa atuação composta de um afeto preciso e constante) para num posto de gasolina para abastecer seu fusca e já dá de cara com um cadáver largado há alguns dias a poucos metros da bomba. Ninguém foi reclamar o corpo, a polícia levou dias para aparecer. O defunto ficou ali, simplesmente. Esquecido. Como se nunca tivesse existido.

O restante de O Agente Secreto demonstra as formas e procedimentos empregados para destruir uma memória, apagando das histórias individuais e coletivas as pessoas e os acontecimentos. Contudo, ao mesmo tempo, nos faz expandir nossa memória sobre nosso passado político, nos ajudando a ver quão capilarizado um regime fascista pode ser, a partir da história de alguém capturado por essa capilaridade. Todas essas ações servem para que, ao fim do filme, entendamos que o fascismo é uma estrutura de mundo.
A inequívoca integridade de O Agente Secreto é como um círculo que se abre e se fecha com corpos mortos: uma visão inicial de um cadáver desconhecido puxa um fio que se amarra, lá no fim, com outro corpo que em breve também se tornará desconhecido, inclusive para seus descendentes. É assim que se apaga uma história de uma vida para dar lugar à construção de outra. E, analogamente, é assim que se apaga a História de um país para se construir outra.
O tema da memória e do esquecimento já foi abordado várias vezes no Cinema
No lindíssimo Coco: a Vida é uma Festa, de Lee Unkrich (2027), aprendemos uma forma de considerar que podemos viver para sempre. A imortalidade não nos seria possível pela vitória sobre as doenças ou o envelhecimento, mas sim por nossa capacidade de sermos ancestrais, pela memória que possamos deixar em nossos descendentes, sejam biológicos, sejam por afetividade. No filme, sermos esquecidos acarreta desaparecermos para sempre, também como individualidades. Seria a morte do espírito, para além da morte do corpo.
Igualmente, no também maravilhoso Isto Não é um Enterro, é uma Ressurreição, de Lemohang Jeremiah Mosese (2022), a viúva octogenária Mantoa (a magnífica Mary Twala, em seu derradeiro trabalho), tendo perdido o único filho e vendo-se sem descendentes, sozinha no mundo, busca incansavelmente alguém que a enterre. Note-se que ela não busca alguém que a mate, porque, sem ninguém a quem legar suas experiências, ela já está morta mesmo. Não existe mais.

Posso enumerar mais alguns outros belos filmes, todos eles vinculando a ideia de existir à condição de existir na mente de alguém. Há muitas formas em que isso é possível: nos ensinamentos transmitidos, nas histórias contadas, na lembrança dos sentimentos e partilhas. Os dois filmes acima me vieram à mente em uma das lindas cenas em que Marcelo está com seu filho Fernando (Enzo Nunes). No fusca de Marcelo, eles conversam sobre a mãe do menino, já falecida. Sem fazer rodeios sobre o que é a morte, Marcelo lhe diz: “a mamãe vai viver na nossa memória”.
É uma tragédia que, anos mais tarde, Fernando não consiga sequer recuperar uma lembrança do pai.
A temporalidade do passado estrutura o filme
Contudo, O Agente Secreto é um filme que também recupera memórias. Há um Recife (e um Brasil) que, de um lado, não volta, mas, de outro, está sempre à espreita e pode sempre retornar, porque aqueles que o querem de volta trabalham dia e noite para que os anos setenta não sejam esquecidos. Interessantemente, Kleber Mendonça Filho também deseja que os anos setenta não se apaguem de nossa memória. Mas, obviamente, esse tempo que o diretor deseja e recupera poeticamente não é o tempo do poder absoluto de gente que sustentava a ditadura. É um tempo de criatividade intelectual e artística, de Cinema e carnaval.
Além disso, Mendonça Filho opera também uma recuperação de memória extremamente sofisticada, e constitutiva da temporalidade que marca o ritmo de seu filme. Essa recuperação se situa no plano cognitivo, ao nos lembrar de uma época em que as coisas se moviam e aconteciam, e nós também nos movíamos junto com elas, sem o imediatismo ansioso e hiperativo da contemporaneidade. A temporalidade de O Agente Secreto é a dos encontros presenciais, dos cinemas de rua, de um Recife de bondes e de menos automóveis. Essa lembrança de como antes concebíamos o tempo das coisas compõe a estrutura de O Agente Secreto, inclusive na cena clímax do filme. Essa estrutura recupera para nós uma forma de viver que antecede o novo mundo inaugurado pela internet e pelos smartphones. Praticamente a Pré-História, portanto.
A solidariedade como antídoto ao fascismo
Porém, a par de uma forma de viver e pensar que não nos pertence mais, Mendonça Filho nos lembra do que ainda hoje se mantém igual, mesmo em tempos (aparentemente) democráticos. Já eram daquela época, assim como hoje, a corrupção nas instituições, o impedimento sobre as ações de desenvolvimento e melhoria da sociedade, a descontinuidade dos projetos de construção de conhecimento, o medo e a violência.
Para nos consolar e nos animar a seguir em frente, diante de uma macropolítica demolidora, tanto então quanto agora, ainda podemos contar com as relações de amizade e solidariedade que insistem em sobreviver. Assim, os demônios não as vencerão no espírito. Dona Sebastiana (Tânia Maria, que demanda um filme só dela) é a agregadora de almas e guardadora das memórias, impedindo que elas desapareçam, mantendo-as vivas pelo menos em seu coração.
Ao lidar paralelamente com memória e esquecimento, O Agente Secreto nos propõe a perguntar continuamente o que precisa ser lembrado sempre, para não ser repetido, e o que precisa ser esquecido para que sigamos como sociedade capaz de formar laços de solidariedade entre os de mesma pátria. Pátria por nascimento ou por escolha, tanto faz.
Ficha Técnica

Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Edição: Matheus Farias, Eduardo Serrano
Fotografia: Evgenia Alexandrova
Design de Produção: Thales Junqueira
Trilha Sonora: Mateus Alves, Tomaz Alves Souza
Elenco: Wagner Moura, Tânia Maria, Carlos Francisco, Hermila Guedes, Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido


