O Caso dos Estrangeiros
O termo “necropolítica” foi cunhado pelo filósofo Achille Mbembe para designar o conjunto de políticas estatais que regulam a manutenção da vida e a determinação/permissão da morte das pessoas. Em melhores palavras: regula quem pode seguir vivendo e quem pode morrer. Observe o leitor que eu escrevi “pode”, e não “deve”. A necropolítica se concretiza a partir da definição de parâmetros e categorias, majoritariamente sociais, que fortalecem a escolha de quem numa dada sociedade terá fortes garantias de que não morrerá ou será morto em virtude das desigualdades e injustiças dessa mesma sociedade. Mas a necropolítica também define quem não poderá contar com essas garantias. “O caso dos “estrangeiros” (2024), roteirizado e dirigido pelo estadunidense Brandt Andersen, focaliza a necropolítica do ponto de vista daqueles que são seus objetos e objetivos: as pessoas que podem morrer.
Nesse sentido, preciso fazer duas ressalvas. A primeira é a de que não se deve opor diretamente necropolítica a biopolítica, este último um conceito proposto por Michel Foucault. A bem da verdade, Achille Mbembe desenvolveu o conceito de necropolítica para ressaltar o fato de que Foucault focalizou as políticas públicas de regulação da vida em sua faceta biológica. Não há ênfase no fato de que agregado a isso existe também uma regulação de quem também ficaria excluído da rede dos sistemas de manutenção da vida, como indústrias alimentícias e farmacêuticas, bem como empresas de tecnologia agrícola e pecuária, entre outras.

A segunda ressalva diz respeito ao enquadre de “O caso dos “estrangeiros”, que relata o drama desesperador dos milhões de refugiados da Guerra da Síria, que começou com a manifestação popular por reformas democráticas, e enveredou em uma disputa de poder entre o ditador Bashar Al-Assad e grupos radicais com motivação étnica e religiosa. Porém, a travessia do Mar Egeu num bote com gente além de sua capacidade máxima, a maioria sem colete salva-vidas, é uma realidade para milhões de refugiados da guerra e da fome. Todos eles, pessoas que podem morrer.
O mosaico escolhido para salientar equivalências e singularidades
A narrativa em mosaico oferecida por Andersen para contar sua história nos amplia a percepção de quem pode morrer na organização necropolítica mundial. Da ideia inicial de que os refugiados seriam os únicos encaixados nessa categoria, passamos também a reconhecer que o entorno logístico do processo de fuga arriscada para outros países também se compõe de gente cuja vida não vale nada para os donos do poder.
Além disso, os próprios algozes diretos das vítimas civis das guerras, que são os combatentes do chão de batalha, também são absolutamente descartáveis. Analogamente falando, transpondo o universo da necropolítica para o Brasil, são como os policiais que morrem tanto quanto os pretos pobres que junto com eles compõem a crescente lista de mortes pelo alegado combate ao tráfico de drogas em nossas grandes cidades. Em “O Caso dos Estrangeiros”, esses lugares estão ocupados respectivamente pelo agenciador Marwan (Omar Sy) e pelo soldado Mustafa (Yahya Mahaymi).

As breves descrições desses dois personagens são conduzidas de maneira paralela. Marwan é bruto e implacável com os refugiados a quem vende, digamos, “tíquetes” em botes sem qualquer segurança e garantia de sobrevivência. Ao mesmo tempo, sabemos que esse comportamento de Marwan não se manifesta na sua presença extremamente amorosa junto ao filho pequeno e doente.
Por sua vez, Mustafa começa o filme como o soldado cegamente obediente às ordens superiores. Seu vocabulário repete ipsis litteris o discurso de seu comandante. Porém, atingido pela violência extrema e sem sentido, busca o pai para se reorientar.
Assim, ambos os personagens contam com vínculos de sanidade e generosidade que encontram com pessoas amadas. E isso os humaniza.
“O Caso dos Estrangeiros” é de Omar Sy
E isso nos traz à extraordinária atuação de Omar Sy e a forma emocionante com que singulariza seu personagem. A quantidade de filmes comerciais, policiais e comédias românticas de que o ator tem participado nos últimos anos nos fez quase esquecer de suas atuações emocionantes em, por exemplo, “Intocáveis”, de Olivier Nakache (2011), que apresentou o ator ao mundo, e “Chocolate”, de Roschdy Zem (2016). Sua presença carismática o torna o centro do filme, e isso reforça a proposta de Andersen de igualar os componentes do processo de fuga dos refugiados, independente de suas intenções serem humanitárias ou não. Em lugares destruídos e esquecidos pelos donos do poder, os desempoderados são todos iguais.

E a eles se junta, como elemento também esquecido, o capitão grego Stravos (Constantine Markoulakis), outro que lida diretamente com os refugiados arriscando sua vida para salvá-los das águas do Mar Egeu. Entendendo que Stravos também é uma figura descartável, Andersen faz questão de mostrar como sua ação é incompreendida pelos que lhe são próximos, o que é um sintoma da necropolítica: o fato de que não apenas os muito poderosos não se importam com a vida de gente desumanizada. É preciso que esse pensamento seja partilhado por pessoas comuns, cuja não reprovação aos genocídios favorece a sua perpetuação. Porém, sabemos que maneira como a ação do capitão Stravos é recebida pelos gregos não representa nenhuma garantia de que eles mesmos em algum momento não estejam em mesma situação. Eles apenas têm de estar no raio de interesse de quem lhes deseja usurpar as riquezas.
Problema não compromete a narrativa
A qualidade de “O Caso dos Estrangeiros” está também em reconhecer que o espectador é capaz de se emocionar e empatizar com aquelas pessoas que agem por necessidade. Se elas são capazes de lutar entre si por um colete salva-vidas, também podem se ajudar mutuamente mesmo estando na mesma trágica situação.
Suas ações são potentes e significativas o suficiente para que a história contada por Andersen impacte as pessoas. Por isso, a trilha sonora exagerada do fim do filme é absolutamente dispensável. O que vemos na tela é forte o suficiente para nos emocionar e pensar sobre o “O Caso dos Estrangeiros” bem depois de termos assistido a ele.

Mas esse problema não compromete a qualidade de uma obra que pode ajudar a despertar nas pessoas a reflexão sobre a causa última e principal das guerras e da destruição mútua de pessoas que ao fim e ao cabo são apenas peões no jogo do poder disputado por quem jamais se importará com sua existência.

Direção: Brandt Andersen
Roteiro: Brandt Andersen
Edição: Jeff Seibenick
Fotografia: Jonathan Sela
Design de Produção: Julie Berghoff
Trilha Sonora: Nick Chuba
Elenco: Omar Sy, Yasmine Al Massri, Yahya Mahayni, Ziad Bakri, Constantine Markoulakis, Massa Daoud, Ward Helou
