
Onda Nova
No mesmo dia em que assisti a “Onda Nova” (1983), de José Antônio Garcia e Ícaro Martins, me chegou um vídeo mostrando muitos estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais num culto evangélico sob uma tenda gigante. A legenda do vídeo diz: “Decisões por Cristo, batismo com o Espírito Santo, curas…”. E mais: “Estudantes clamam a Deus na UFMG: ‘é tempo de avivamento nas universidades'”. Cenas assim são cada vez mais frequentes num país que em breve terá uma população majoritariamente evangélica. O culto lotado de estudantes espanta por ocorrer num lugar institucional que deveria ser eminentemente laico: a Universidade Pública brasileira.
A presença evangélica num espaço em que em princípio não deveria estar é mais um sintoma de um processo, muito provavelmente irreversível, de teocracização de nossa vida social. Acompanhado, claro, de uma retração das esferas morais. Isso implica menos liberdade de ação afetivo-sexual, maior controle e repressão pública dos comportamentos, e um quase total esquecimento/apagamento das conquistas dos movimentos feministas e LGBTQIA+ nas últimas décadas.
Assistirmos a “Onda Nova” nos faz reconhecer que nosso presente se caracteriza pela ameaça crescente à possibilidade de as pessoas se moverem sexualmente guiadas por sua vontade e libido, e não por padrões imaginários e expectativas de performance sócio-moral. Ao fim do filme, resta nos perguntarmos o que ganhamos, se é que ganhamos algo, por ter entregado a opressores fascistas nosso desejo, algo tão precioso e constitutivo de nós mesmos, na expectativa de receber alguma coisa melhor que ele.
“Onda Nova” é um filme insurgente em forma e conteúdo
“Onda Nova” é uma produção da Boca do Lixo, região do centro de São Paulo bastante famosa pela produção de obras cinematográficas independentes desde a década de vinte do século passado.
Não havia nenhum comprometimento com financiamentos oficiais. Portanto, era possível aos cineastas dar asas à imaginação e pensar todas as formas de mundo social que confrontassem o status quo de sua época. No caso de “Onda Nova”, isso dizia respeito à ditadura militar, que incluía no pacote a definição de comportamentos sexuais conforme a cartilha da TFP (Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), grande parceira dos militares para o golpe de Estado de 1964.
Por isso, não é de espantar que “Onda Nova” tenha sido integralmente censurado pelos órgãos de controle do audiovisual. Porém, nas últimas décadas, tornou-se conhecido graças a sua exibição em canais pagos. Agora, é finalmente lançado nos cinemas, em cópia restaurada em 4K.
“Onda Nova” representa muito para a história do cinema brasileiro, e para o (auto)conhecimento da nossa sociedade num tempo em que a AIDS ainda não havia criado um terror que refreou liberdades sexuais duramente conquistadas. Por isso, posso considerar que o filme é um verdadeiro documento histórico, que nos ajuda a não perder a memória de um tempo em que a religião não ditava sistematicamente nosso comportamento público.
“Onda Nova” carrega um DNA subversivo
Algo que ninguém pode dizer é que “Onda Nova” nega o DNA de suas origens subversivas. Na primeira cena, o espectador já tem um aperitivo do que virá nos proximos cem minutos. Num jogo de futebol, aliás absolutamente pertinente ao enredo que narra as aventuras de um pioneiro time de futebol feminino, mulheres e homens trocam de figurino por pura diversão e experimentação.
Ali mesmo, os diretores Garcia e Martins já dão o seu recado. Ele vem na figura do jogador Carlos Casagrande correndo atrás da bola feliz da vida, de vestido colante cor de rosa. Logo adiante no filme, Casagrande retorna para mais subversão, em cena completamente impensável para a família tradicional brasileira.
Contudo, a troca de comportamentos de gênero em “Onda Nova” não se limitou ao jogo de futebol. Uma participação adorável no filme é a de Patrício Bisso, que faz a mãe da goleira Lili (Cristina Mutarelli). É um detalhe divertidíssimo que uma personagem careta e cheia de preceitos tradicionais esteja na pele de um ator que tinha por marca registrada a exploração de variadas performances de gênero.
Ao longo do filme, acontece o que Ícaro Martins define: “É um filme onde o desejo assume o protagonismo”. As práticas sexuais dos personagens escapam dos padrões burgueses heteronormativos. Seu comportamento sexual respeita o consentimento do parceiro, mas não reconhece compromissos de relacionamento que possam impedir qualquer um de viver seu desejo com liberdade.
“Onda Nova” é um filme político num sentido amplo
O título “Onda Nova”, inspirado no movimento New Wave, que à época ganhava força nas artes em geral, é significativo em termos não apenas sociais, mas também políticos. Ícaro Martins segue definindo seu filme feito em parceria com José Antônio Garcia: “Mesmo não tratando diretamente de política, ele se tornou um alvo da censura porque celebrava o desejo como potência de vida e identidade – algo que, por si só, já era um ato de resistência”. Essa resistência consiste, basicamente, em desvincular o sexo de qualquer relação de poder.
Essa resistência já não era tão perigosa como a que houve nos anos setenta do século passado. Em 1983, a ditadura militar estava em seus estertores. Portanto, os ares democráticos já se pronunciavam. Os caminhos abertos para um novo Brasil materializam-se em um filme solar, numa São Paulo cheia de luz, e com personagens exibindo o figurino coloridíssimo de Cristina Mutarelli.
O fato que naqueles tempos as pessoas não sabiam é que logo a AIDS ceifaria suas possibilidades de viver em plenitude um desejo potente. Os fatores antagônicos específicos do início dos anos oitenta – liberdade democrática com controle sexual – tornam “Onda Nova” uma mensagem sobre como o Cinema brasileiro resistiu aos tempos sombrios, sempre tendo a mente no futuro, imaginando outros mundos. Porque, logo depois, pensar em viver a sexualidade como seus personagens viveram foi algo que até a Arte desanimou de pensar.
Os fascistas detestam a Arte porque ela convida a novas formas de viver
Porém, preciso também reconhecer um dado negativo em “Onda Nova”. O filme materializa o avanço das possibilidades de pensar gênero e sexualidade. Entretanto, em termos de discurso racial mais avançado, o filme nada tem a nos dizer. Pelo contrário… Não havia elementos conceituais suficientemente popularizados para isso. Os estudos em raça e sua influência para o comportamento discursivo social alcançaram um largo espaço no Brasil apenas no século 21.
De fato, em 1983 não era possível tratar a questão racial como se tratava o gênero. Contudo, podemos afirmar que “Onda Nova” projeta suas premissas para o futuro. Esse é um fator que eleva exponencialmente sua importância como obra de arte. Evidentemente, trabalhos assim correm o frequente risco de não serem compreendidos nem acolhidos em seu tempo.
Além disso, na terceira década do século 21, aprendemos que novas ondas, ideias e conquistas podem submergir. Os direitos podem ser perdidos, o desejo pode ser criminalizado. Justamente porque tudo isso, como disse Ícaro Martins, são inerentemente atos de resistência a uma ordem estabelecida.
Por isso é que a Arte que projeta o futuro precisa ser (re)conhecida pelas pessoas. Todos nós precisamos saber que existem outras formas de viver, algumas muito distintas e muito melhores do que aquelas impostas pelo fascismo.
Ficha Técnica

Direção: José Antônio Garcia, Ícaro Martins
Roteiro: José Antônio Garcia, Ícaro Martins
Edição: Eder Mazini
Fotografia: Antônio Meliande
Elenco: Carla Camuratti, Cristina Mutarelli, Tânia Alves, Regina Casé, Cida Moreyra, Vera Zimmerman, Patrício Bisso, Ênio Gonçalves