Pluribus
Esta resenha contém spoilers de “Pluribus”.
“Pluribus”, disponível na plataforma Apple TV, é uma série de terror lançada pelo showrunner Vince Gilligan, autor das obras-primas “Breaking Bad” e “Better Call Saul”.
Explico o terror. Já nos primeiros minutos do primeiro episódio, um vírus alienígena invade os corpos dos seres humanos, matando quase todos exceto doze pessoas. Estão todos mortos, mas a maioria permaneceu como zumbis. Contudo, em vez de parecerem uns seres estropiados como na grande maioria das narrativas de zumbi, eles passam o tempo todos sorridentes e bem humorados, pensando e fazendo todo o tipo de coisas em conjunto. Reforçando a ideia de que são zumbis, está lá seu canibalismo e sua incapacidade de pensar individualmente.

Através do vírus inoculado nas pessoas, alienígenas roubaram todo o planeta para si. Um estado de aparente paz e alegria encobre o horror absoluto que assolou a Terra. Um dos sobreviventes, o paraguaio Manousos Oviedo (Carlos Manuel-Vesga), é o único que realmente parece compreender o que aconteceu na sua devida extensão. Digo isso porque a realidade da situação que os sobreviventes enfrentam, até pelo menos pouco antes do fim da primeira temporada, não parece estar na mente da própria protagonista, a escritora Carol Sturkas (a espetacular Rhea Seehorn). De fato, em algum momento, Carol até passa a presumir que é possível haver algum tipo de negociação com os invasores (de corpos, a propósito).
Em “Pluribus”, a marca do gênio de Vince Gilligan
Na serie, essas duas percepções tão diferentes acerca do que acontece são parte da imensa ousadia temática e estética proposta por Vince Gilligan em “Pluribus”. O fato de que apenas Manousos compreende o horror absoluto à sua volta também é desafiador para os espectadores. Há inclusive uma espécie de indução feita pela divulgação da série. O material de propaganda trata Carol como uma mal-humorada tendo de viver num mundo onde agora todo mundo é feliz e não há mais razão para alguém se sentir triste ou com alguma demanda particular. Nada, porém, pode estar mais longe da verdade.
O diálogo pleno com uma obra como Pluribus exige que afastemos sua carapaça estética para ampliarmos nossa percepção das possibilidades de leitura que a série propõe. Porém, esse exercício não é nada diferente do que as próprias realidades com que temos de conviver nos convidam a fazer. O horror disfarçado com carapaças estéticas sempre existiu, e sempre foi prestidigitador, sempre nos enganou.

Não é por outro motivo que, por exemplo, a sociedade brasileira (o resto do mundo também, é preciso dizer) está testemunhando a emergência de regimes autoritários e práticas nazistas se realizando cada vez mais explicitamente. As pessoas progressivamente naturalizam tais práticas porque há muito deixaram de ver como excrescências tanto as ações quanto as pessoas que as executam. Algumas delas chegam até a ser eleitas e por isso se sentir licenciadas a repeti-las em espaços institucionais decisórios e governamentais, no Brasil e em muitos outros países. Elas ainda não terem sido cassadas é uma evidência de que o que no passado já foi definido como horror tem gradualmente se diluído, gradualmente sido mais e mais aceito.
Indo além das aparências
Apontei, ao resenhar o documentário “Relato Final“, disponível na Netflix, a preocupação do realizador Luke Holland em mostrar como muitos alemães aderiram ao projeto genocida de Hitler atraídos pela beleza dos jovens cantando canções agradáveis e vestindo uniformes elegantes. De fato, a dimensão estética nunca esteve apartada de nenhum projeto de fascista. Por isso, projetos desse tipo muitas vezes se vendem e se compram como se fossem apenas isso mesmo: aparência, perfumaria.
Há muito eu desconfio de tudo aquilo que me aparece por demais arrumado, asseado e bonito. Como bem disse o personagem de Jorge Amado, a merda sempre existe, por isso sempre precisa ir para algum lugar. Gilles Deleuze já afirmara: não dá pra confiar em quem nunca erra.

Da mesma maneira, também é um engano e uma armadilha a ideia de coletividade que os zumbis infectados parecem cultivar em “Pluribus”. Aliás, o título em latim significa “de muitos”, ou “entre muitos”. Nesse sentido, importa pensarmos o que é de fato o coletivo. Em “Pluribus”, os infectados pensam como um, porque são uma só mente. Não há um pensar individual, portanto não há uma ideia, ou nada sendo criado. Note o leitor, por exemplo, o grande interesse deles em que Carol escreva mais um livro. Isso seria criar algo novo, coisa de que eles são completamente incapazes.
O que é de fato “todos”
Contudo, se imaginarmos o verdadeiro coletivo como uma dialética entre o individual e o social, entre os infectados não há algo que se possa denominar coletivo. Para haver coletivo é preciso haver algum sentido em estar juntos, algum desejo que tenha lugar na pessoa e ao mesmo tempo a conecte a outras. Entre os infectados, porém, também não há desejo. Deve ser por isso que se empenham tanto em fazer com que os sobreviventes se juntem a eles. O desejo é sempre algo muito perigoso, não importa o planeta de onde se venha.

A primeira temporada de “Pluribus” dedica-se a narrar o percurso da gradual tomada de consciência de Carol Sturkas na direção daquilo que Manousos Oviedo já traz em sua mente. Esse apropriar-se de si mesma necessário a Carol se mostrou fundamental para que ela pudesse enxergar com mais clareza o que são de fato aqueles corpos servis que ora se aproximam, ora se afastam. Entretanto, ao fim da temporada, Carol, diferentemente de Manousos, não demonstrou ter de fato capturado a dimensão política do que se tornou o mundo depois da contaminação generalizada dos corpos humanos.
Em “Pluribus”, a transformação dos personagens tomará tempo
Me pergunto se de alguma forma a existência do latino-americano Manousos funciona como um contraponto do Sul Global. Essa parte do mundo está mais consciente dos processos de opressão imperialista. Ao norte – sobretudo os Estados Unidos -, as pessoas em geral não se dão conta do progressivo aumento das injustiças e desigualdades que a intensificação neoliberal-fascista destravou. Apesar disso, a literatura de entretenimento produzida por Carol a frustra imensamente. Isso pode ser um indicativo de que a personagem é capaz de enxergar para muito além da epiderme.

Analogamente, a Manousos também pode estar reservado um arco de compreensão progressiva que o conduza a um olhar para além da visão massificada que ele cultiva acerca dos infectados. Nesse sentido, ele também precisa observar mais além da superfície, se ele realmente quiser, como disse, “salvar o mundo”. Isso provavelmente se relaciona a ele se perguntar para quem o mundo de “Pluribus” deve ser salvo. Essa pergunta é fundamental para que ele consiga reconhecer que, sob a aparência que ele consegue detectar, sob os corpos dominados por um vírus que lhes matou a vontade e as contradições, ainda deve haver pessoas.
A transformação desses dois personagens é condição para que o planeta não se exploda. Vale acompanhar as próximas temporadas para saber qual dessas duas coisas acontecerá.

Criação: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan, Ariel Levine, Johnny Gomez
Edição: Skip Macdonald, Chris McCaleb
Fotografia: Marshall Adams, Paul Donachie
Design de Produção: DenisePizzini
Trilha Sonora: Dave Porter
Elenco: Rhea Seehorn, Carlos Manuel-Vesga, Carolina Wydra, Samba Schutte
