Superman
Antes de falar do novo filme, proponho voltarmos no tempo. Quando a campanha de “Superman” (1978), dirigido por Richard Donner e estrelado por Christopher Reeve, foi lançada, a frase “Você vai acreditar que um homem pode voar” evocava magia e fantasia, deixando claro o quanto aquele filme poderia inspirar seu público. Em 2025, a campanha do novo “Superman”, dirigido por James Gunn e estrelado por David Corenswet, buscou resgatar o espírito do original. A escolha da frase nos pôsteres foi “Olhe para cima”. Além de remeter à clássica “Look, up in the sky! It’s a bird, it’s a plane…”, ela carrega um significado extra filme poderoso.
Vivemos anos de modorrento engessamento da fantasia no cinema, em grande parte dominado por super-heróis com estética soturna, realista e pretensões de profundidade raramente alcançadas. O próprio Superman, nas mãos de Zack Snyder, tornou-se uma figura sombria e trágica, inspirando mais temor que esperança. Mas quando o novo filme diz “Olhe para cima”, nos convida a lembrar que, mesmo nos tempos mais sombrios, havia um herói de capa vermelha e collant azul esperando a chance de nos guiar de volta a um caminho mais lúdico e criativo. James Gunn ouviu esse chamado e nos levou junto com ele.

Uma nova era de esperança
A experiência de sair da sessão deste filme é constatar que “Superman” não é apenas mais um filme de super-herói: é uma carta de amor à história de um personagem, de um gênero e do principal símbolo de uma arte inteira. Um presente aos fãs de quadrinhos, não só pelo conteúdo, mas também pela forma: um filme que abraça a fantasia sem medo de parecer ridículo. Se não tenta reinventar a roda, é por saber que não precisa. Sua maior força é entender seu gênero e ser capaz de resgatar a fantasia pura, vibrante e envolvente que só os clássicos sabem oferecer.
Tudo aqui funciona com uma harmonia rara: o roteiro é bem construído, os personagens são fiéis às suas essências e a direção sabe exatamente onde está o centro de sua história. Um excelente exemplo é a grande subversão que o filme faz da origem do protagonista, que muda drasticamente um elemento chave de sua mitologia, apenas para deixá-lo ainda mais fiel a si mesmo. Isso não é coisa fácil de se fazer. O equilíbrio entre o épico e o ingênuo, entre o simbólico e o lúdico, resulta em um filme leve sem ser superficial, divertido sem ser raso.
E nem a direção, nem o roteiro fazem isso sozinhos. Todos sabem que qualquer ator que assuma o papel de Superman precisa ter uma postura que revela o herói por trás de seus olhos. Reeve tinha isso em abundância; Cavill, apenas na aparência. E David Corenswet está no melhor dos caminhos. Sua leveza e carisma entregam um herói maduro, mas ainda em formação que irradia – e discursa – o valor da humanidade.
Mais uma vez, isso não é fácil e fica ainda mais difícil com um personagem invencível. Talvez por isso, o filme começa com ele machucado, sangrando, isolado na Fortaleza da Solidão após perder uma luta pela primeira vez.

Um herói renovado para uma nova geração
E essa não será a única batalha perdida. Transformar a jornada do homem mais poderoso da Terra em uma história de superação é um desafio, mas aqui isso é feito com maestria. Superman apanha de todos os lados, fisicamente de seus adversários, moralmente de seu maior inimigo e até mesmo duvida de si, quando é colocado sobre pressão até por aqueles que ama. Um dos grandes acertos do filme é Lois Lane (Rachel Brosnahan), a repórter do Planeta Diário e parceira amorosa de Clark Kent. Quando Lois entrevista o Superman, o confronta com questões éticas sobre seus poderes, a química entre Brosnahan e Corenswet é envolvente, honestamente nos fazendo acreditar nos conflitos e no amor daquela relação.
Gunn encara o mito do Superman com reverência e confiança. Em vez de longas explicações, a origem de Kal-El é resumida num breve texto inicial. Mais de duas décadas após os primeiros “X-Men” e “Homem-Aranha” de Sam Raimi, e tantos anos após os clássicos da DC nos anos 80, finalmente chegamos no ponto em que um diretor entende que seu público está preparado para um mundo onde deuses, monstros e até um supercão são realidades.
O diferencial do filme está na forma apaixonada como Gunn se apoia nas HQs clássicas. O resultado é o Superman mais colorido e cósmico que o cinema já viu, com ousadia visual e narrativa que o destaca de qualquer encarnação anterior. Lex Luthor, vivido por Nicholas Hoult, tem papel importante na trama. Seu bilionário instável mistura genialidade e frustração, oscilando entre momentos patéticos e ameaçadores. Hoult acerta o tom com precisão, entregando um vilão que diverte e intriga,criando também uma das versões mais memoráveis do personagem.
Enfim, “Superman” é, sem exagero, na modesta opinião deste crítico, um forte candidato à melhor adaptação do gênero em todos os tempos até aqui e certamente o filme de super-herói mais interessante desde Guardiões da Galáxia Vol. 3. E isso deve significar alguma coisa.
