Uma Batalha Após a Outra

Quando você se torna um crítico e começa a estudar mais sobre cinema, assistir a um filme se torna algo quase científico. No decorrer da exibição, você fica a dissecá-lo, pensando em enquadramentos, roteiro, atuações, fazendo pequenas anotações mentais de como aquilo está funcionando, ou não. Com isso, mesmo sem querer, aquela coisa de ver algo despretensiosamente acaba dando lugar a esse modo analítico. Visto isso, um dos indícios de que tudo está indo bem é quando você está tão envolvido que até se esquece de todo esse processo, do mundo lá fora e do tempo em que você está sentado ali. Foi justamente isso que aconteceu quando assisti a Uma Batalha Após a Outra (2025), de Paul Thomas Anderson.

Uma mulher com um barrigão de grávida atirando com uma metralhadora, foi um dos planos que mais me pegou em Uma Batalha Após a Outra.
Uma mulher com um barrigão de grávida atirando com uma metralhador, foi um dos planos que mais me pegaram em Uma Batalha Após a Outra.

Quanto menos você souber, melhor

O longa é do tipo que quanto menos se souber sobre ele, melhor. Inclusive, em tempos em que a história toda é revelada nos trailers, os de Uma Batalha Após a Outra foram muito bem realizados. Eles dão um gostinho do que é a história, mas sem revelar quase nada. Para fins de contextualização desse texto, direi o mínimo. A trama gira em torno do ex-revolucionário Bob (Leonardo DiCaprio), que precisa de ajuda de seu antigo grupo para proteger sua filha Willa (Chase Infiniti) de um antigo inimigo, o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn).

O nosso bom envolvimento com os personagens vem de um primeiro ato muito bem construído. Somos apresentados de forma eficiente aos personagens principais, suas motivações, fraquezas e problemáticas. Aqui, todas as técnicas de que falei inicialmente estão tão bem estruturadas. Elas fazem com que fique difícil pensar em cada um dos elementos separadamente, pelo menos à primeira vista. É como estar diante de uma pintura gigante, cheia de detalhes, em que fica difícil você destacar apenas um ponto, quando tudo funciona tão bem em conjunto. Ainda ajudou eu ter assistido ao filme em uma tela gigante de IMAX, como Paul Thomas Anderson gravou e pensou em exibir sua obra. Mas acredito que em telas comuns ele não perderá o brilho. Esse é mais um indício de qualidade de uma produção. Ela tem que funcionar em diferentes suportes.

Bob (Leonardo DiCaprio) e Sensei Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro) em Uma Batalha Após a Outra.
Bob (Leonardo DiCaprio) e Sensei Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro) em Uma Batalha Após a Outra.

Uma Batalha Após a Outra e seu elenco de destaque

Outra coisa crucial para que as coisas funcionem é a atuação. Protagonistas, coadjuvantes e antagonistas estão muito bem escalados. Leonardo DiCaprio  interpreta um personagem que quer a revolução, mas não é muito bem capacitado, chegando a ser até idiota. Torcemos pelo seu sucesso, mesmo sabendo que dificilmente ele será bem sucedido na sua missão. Assim, as coisas são resolvidas muito mais pela sua rede de apoio do que pelo próprio protagonista. E DiCaprio faz muito bem esse papel de herói imperfeito que tem uma causa nobre, mas pouca competência para tal.

Além disso, o antagonismo de Sean Penn também vale o destaque. Lockjaw é um vilão complexo, detestável, do tipo que amamos odiar. Ele é tão dedicado a sua missão quanto Bob, porém tem razões e objetivos muito longe de serem nobres. A atuação de Regina Hall faz a gente esquecer completamente que ela já foi a Brenda da franquia Todo Mundo em Pânico. Eu achei que ela ficaria afetada por isso, mas rapidamente me esqueci dessa informação. Foi algo parecido com quando fui assistir a Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, achando que seria difícil descolar Fernanda Torres de seus papéis cômicos do passado. Ainda bem que eu estava bastante enganado.

Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), rendido pela revolucionária Perfidia (Teyana Taylor) em Uma Batalha Após a Outra.
Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), rendido pela revolucionária Perfidia (Teyana Taylor) em Uma Batalha Após a Outra.

Dando uma nova vida a uma cena tradicional

Quero destacar uma cena de Uma Batalha Após a Outra. Em um determinado momento, existe uma perseguição de carros velozes. Nesse sentido, uma cena típica de filmes de ação e da franquia Velozes e Furiosos. A diferença é que, aqui, nós tivemos um trabalho competente. Ela se passa em uma estrada no meio do deserto, típica dos cenários hollywoodianos. Conforme já afirmei, tudo acontece desde o começo para ficarmos estreitamente envolvidos com os personagens. Teoricamente, isso é algo óbvio, mas muitas produções pecam justamente nisso. Aqui estamos bastante envolvidos com a trama, com a correria, estamos com medo do que pode acontecer com os personagens.

O que eu quero destacar é que Paul Thomas Anderson conseguiu causar aquela sensação de quando estamos numa estrada e, de repente, a estrada tem um declive que nos causa frio na barriga. Eu não pensava que fosse possível reproduzir essa sensação – horrível por sinal – através do audiovisual, mas ele foi lá e fez. Esse é mais um sinal de uma produção eficiente: quando ela é capaz de provocar reações físicas. Entretanto, aqui, temos um trabalho mais elaborado do que um jumpscare, por exemplo. Por exemplo: de repente, algo pula, cai ou grita, e tomamos um susto.

Leonardo DiCaprio em uma surpreendente cena de perseguição com carros em Uma Batalha Após a Outra.
Leonardo DiCaprio em uma surpreendente cena de perseguição com carros em Uma Batalha Após a Outra.

Alguém disse “Oscar” para Uma Batalha Após a Outra ?

Desde que começaram as primeiras exibições de Uma Batalha Após a Outra, tenho visto muitos comentários a respeito da sua excelência. Apesar de ser muito fã do diretor, principalmente por causa de Magnólia (1999) e Sangue Negro (2007), achei o seu último trabalho Licorice Pizza (2021) tinha deixado a desejar. Contudo, aqui PTA voltou com tudo. Ouso dizer que é um dos meus filmes favoritos desse ano, ao lado de Pecadores (2025), de Ryan Coogler. A propósito, o diretor Steven Spielberg disse que já assistiu ao filme três vezes, e eu fiquei com a mesma vontade de reassistir a ele assim que saí da sessão. Queria entender como Paul Thomas Anderson conseguiu fazer meu cérebro sair do modo analítico, e ainda me fez ficar com frio na barriga em uma cena de perseguição de carros.


Ficha Técnica
One Battle After Another (2025) – Estados Unidos
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson, Thomas Pynchon
Edição: Andy Jurgensen
Fotografia: Michael Bauman
Design de Produção: Florencia Martin
Trilha Sonora: Jonny Greenwood
Elenco: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Benício Del Toro, Regina Hall, Teana Taylor, Chase Infinity

 

Publicado Por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *