O Último Azul
Infelizmente, uma boa parte da população considera que o cinema nacional é uma arte menor e de baixa qualidade. Nesse sentido, a justificativa é que as produções estão voltadas a mostrar pobreza e palavrões. Entretanto, existe uma grande leva de bons filmes que acabam se limitando a circuitos de festivais e têm pouco espaço nas salas de shoppings. Quando conseguem alguma vaga, competem com grandes produções norte-americanas que ocupam majoritariamente as salas com o mesmo filme. A produção O Último Azul (2025), de Gabriel Mascaro, é uma das produções que conseguiram vencer essas barreiras. De fato, o filme é uma tentativa criativa de desvio dessa péssima visão que nós brasileiros temos da nossa própria arte.

“O Último Azul” e um futuro não muito distante
Aqui vemos um Brasil futurista, em que um governo autoritário impõe que os idosos sejam enviados para uma colônia após atingirem uma certa idade. Isso mesmo estando em plenas condições de saúde física e mental. Entretanto, Tereza (Denise Weinberg) se recusa a aceitar seu destino. Ela busca formas de realizar seus sonhos antes de ser exilada. Assim, numa dessas buscas, ela descobre uma espécie rara de caramujo cuja baba de cor azul, segundo dizem, pode fazer com que as pessoas enxerguem o próprio futuro.
A primeira surpresa em O Último Azul foi ver a sala de cinema cheia para um filme nacional. Uma parte das pessoas ostentava cabelos brancos e, ao final da sessão, parecia ter se identificado com os temas levantados. O longa traz questões sobre as relações entre pais e filhos quando os papéis se invertem. Quem era filho precisava cuidar dos seus pais e definir os limites do que eles podem fazer ou não. O filme também aborda o abuso de pessoas vulneráveis. Alem disso, questiona como uma pessoa ainda em condições de tomar suas próprias decisões é tida como incapaz a ponto de ser mandada ao exílio.

Cinema nacional em alta
A premissa é muito chamativa e criativa, fugindo dos estereótipos de palavrões e pobreza, ainda que esta última exista em boa parte do nosso país e também se represente aqui. O filme também escapa da safra de produções baseadas em produtos do Multishow. A noção futurista se apresenta nas bíblias em formato de tablet com bateria eterna, e pilhas de pneus descartadas em uma beira de rio por não serem mais necessárias. O conjunto remete à visão de futuro próximo como a vista em, por exemplo Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho. O ato de usar uma substância como forma de ver o futuro remete bastante ao universo dos livros de Duna, de Frank Herbert, que recentemente recebeu novas adaptações para o cinema. No caso dos livros/filmes, as visões têm um uso político, intergalático. Em O último azul, elas são mais localizadas no próprio universo de Tereza.
Desde que tinha visto Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, e Homem com H (2025), de Esmir Filho, minhas exigências com o cinema nacional atual subiram bastante. A ideia, contrariando o pensamento comum que explanei anteriormente, é que é possível sim fazer um cinema de qualidade em nosso país. Entretanto, apesar de fotografia, e toda a questão técnica muito bem executadas, O Último Azul não conseguiu me pegar da mesma forma. Parecia faltar alguma coisa.

O Último Azul é uma boa tentativa
O Último Azul carece de algo a mais. Não nos dá razões suficientes para que possamos torcer pela personagem principal. Ainda que suas ações sejam dignas, e se construa uma ideia de injustiça pelo autoritarismo do Estado ao fazer imposições aos idosos, o que nos faz torcer por aquela personagem especificamente? Os dois longas brasileiros que citei anteriormente fazem isso muito bem. Entre outras coisas, nos fazem ficar bastante envolvidos com os personagens principais. Qualquer coisa que aconteça com Ney Matogrosso (Jesuíta Barbosa) e Eunice Paiva (Fernanda Torres), pelo bem ou pelo mal, nos afeta até fisicamente. Experimentei momentos de risos e lágrimas nos dois filmes.
Por fim, O Último Azul é um filme cuja ideia é melhor do que a própria execução. O roteiro é cheio de elementos das mais diferentes origens. É um universo rico e muito bonito de se ver na tela grande. A trilha sonora também me chamou bastante atenção. Mas falta esse algo a mais. A personagem principal, apesar do impulso de mudança, parece meio apática. Não nos dá muito motivo pra torcer por ela. Com isso, minha torcida, de fato, vai para o cinema nacional. Ainda que não tenha cumprido minhas expectativas O Último Azul é uma boa tentativa de fazer algo novo. Inspira novas possibilidades para um país que carece de novas histórias, novas formas de ver o mundo e questioná-lo. A ideia que emerge disso é a da ética na crítica, para trazer ponderações, e não diminuir as possibilidades do nosso cinema.

Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro, Tibério Azul, Murilo Hauser
Edição: Omar Guzmán, Sebastián Sepúlveda
Fotografia: Guillermo Gaza
Trilha Sonora: Memo Guerra
Elenco: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarras, Rosa Malagueta
