Copan

Me permitindo abrir a crítica de “Copan” (2025) com uma digressão acadêmica, relembro que Bill Nichols, um dos maiores teóricos do cinema, categorizou o documentário em seis modos de representação. Cada um deles possui abordagens visuais e narrativas distintas para transmitir informações e perspectivas da realidade.

O filme de Carine Wallauer, no entanto, não parece querer — ou mesmo se importar — em entrar em uma ou outra dessas caixinhas, o que talvez explique tanto seu sucesso crítico (a obra foi vencedora do Festival É Tudo Verdade) quanto o estranhamento de parte do público, inclusive o especializado.

O Edifício Copan é um dos mais importantes e emblemáticos prédios da cidade de São Paulo. Localizado no número 200 da Avenida Ipiranga, no centro da capital paulista, foi inaugurado em 1966 e tornou-se um símbolo da arquitetura moderna brasileira. Oscar Niemeyer concebeu o prédio com projeto estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo.

Um colosso de memória e potencial narrativo

Desde sua construção, o Copan tem sido alvo de admiração, críticas e estudos acadêmicos. É um projeto que provoca reflexões sobre densidade populacional, convivência coletiva, manutenção de espaços públicos e a própria evolução da arquitetura brasileira. Com mais de mil apartamentos, dezenas de estabelecimentos comerciais e milhares de histórias cotidianas, o edifício tornou-se um microcosmo urbano que pulsa junto com São Paulo.

Diante disso, Wallauer faz, em sua estreia, uma proposta documental experimental, mesclando diferentes modelos de documentário em um gesto que parece refletir a diversidade do próprio prédio. Em uma primeira camada, o importante parece ser acompanhar o cotidiano e as conversas corriqueiras de quem vive ali. É como se nenhuma equipe de filmagem estivesse por perto. Como se a câmera não existisse nem quisesse interferir naquilo que registra.

Portanto, não há aqui longas entrevistas guiadas com moradores. A câmera atua como uma “mosca na parede”, apenas observando os acontecimentos em tempo real, exatamente como Nichols define o modo observativo do documentário. A cineasta evita interferências diretas, dando ao espectador a sensação de vivenciar aquelas situações em estado bruto. Indo mais fundo, “Copan” ainda prioriza a experiência estética, o ritmo e as sensações visuais em vez de uma narrativa linear ou argumentativa. Fragmentos daquele enorme edifício são organizados de forma subjetiva e artística, focando mais nas emoções do que na lógica. Planos longos, cada um respeitando seu próprio tempo, e uma contemplação quase desmedida — mesmo quando um morador grita a plenos pulmões o nome de Bolsonaro — carregam um lirismo visual que contrasta diretamente com o discurso que vemos.

É aí que surge uma terceira camada: a da montagem e do contexto. Porque Wallauer não se exime, apesar das “normas” associadas aos modos poético ou observativo, de fazer comentários profundos que alteram completamente a perspectiva do que vemos.

Um filme sobre o Copan que se torna um filme sobre o Brasil

Filmado no contexto das eleições de 2022, “Copan” ganha uma carga política gigantesca, metaforizada aqui através de outra disputa eleitoral. Acompanhamso aqui a eleição interna para síndico do prédio, cargo ocupado pelo mesmo gestor há 30 anos.

Abrem-se então as cortinas das primeiras camadas da obra — por si só já brilhantemente realizadas — e percebemos que o longa funciona como um retrato íntimo e um microcosmo do Brasil contemporâneo.

Assim como no país, há um material humano vasto e contraditório circulando pelos corredores, elevadores e assembleias do edifício. Pessoas captadas e posteriormente ressignificadas pelas tensões sociais e pela polarização, esta artificialmente alimentada enquanto seguimos obrigados a conviver em nosso enorme condomínio de mais de 200 milhões de habitantes.

As reuniões registradas pelo Zoom, as conversas dispersas e os pequenos conflitos cotidianos surgem de maneira fragmentada, sem a necessidade de maior desenvolvimento. Justamente por fazerem parte do espetáculo repetitivo da vida: o vai e vem diário que, necessariamente, não precisa de desfechos.

Desse modo, é um documentário que por vezes se disfarça de ficção, quase como uma coletânea de fragmentos sonoros. São belas capturas de conversas fiadas, reclamações cotidianas e disputas banais para construir sua própria narrativa. Sofisticado, e uma baita estréia.

Ficha Técnica

COPAN – 2025 – Brasil
Direção: Carine Wallauer
Roteiro: Carine Wallauer
Edição: Eva Randolph
Fotografia: Carine Wallauer
Gerente de Produção: André da Silva Moreira
Designer de Som: Waldir Xavier

 Wu

 

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