Xica da Silva

Cinquenta anos após seu lançamento no Brasil, Xica da Silva, filme de Cacá Diegues estrelado por Zezé Motta a partir da novela Memórias do Distrito de Diamantina, de José Felício dos Santos, ganha uma cópia restaurada em 4K para o Cinema. É o retorno em grande estilo de uma obra que causou imenso e inesquecível impacto na cultura brasileira. Tanto é que, em 1996, portanto 20 anos depois do lançamento do filme, a personagem histórica, agora encarnada em Thaís Araújo, e seu contexto ganham duração de novela na extinta TV Manchete. Novamente, grande e inesquecível sucesso.

Esses trabalhos fazem parte do imaginário histórico brasileiro e ajudam na compreensão sobre a vida e as relações sociais e políticas durante o período da escravização de pessoas no Brasil. Além disso, eles nos permitem também fazer um cotejo entre, de um lado, como a historiografia enxergava essas relações, e, de outro lado, o senso comum na época em que Cacá Diegues realizou seu filme. Sobre isso, é interessante já adiantar que muitas percepções não mudaram para milhões de brasileiros, embora muitos dos sentidos para as ações dos personagens tenham sido ressignificados.

A imagem mais icônica da personagem

De todo modo, só tenho a louvar que filmes históricos brasileiros, em particular uma superprodução como Xica da Silva, sejam acessados pelo grande público e suscitem debates entre as pessoas. E que esses debates resultem na conclusão, por parte de todos, de que o passado não é nem imóvel nem imutável. A cada expansão na forma de enxergar as coisas, cada vez que novos agentes assumem lugar no grande debate sobre o mundo, esse passado pode ser mudado.

Um filme que se constrói sobre estereótipos

A constatação dessa mudança está presente em muitas resenhas recentes sobre Xica da Silva. Tais resenhas abordam basicamente duas ideias que perpassam o filme e a visão crítica que temos delas hoje. A primeira ideia diz respeito à percepção de que a escravização de pessoas no Brasil não foi violenta, mas sim se compôs de relações amenas entre senhores e escravizados. De fato, em Xica da Silva se vê apenas uma cena em que uma pessoa escravizada é torturada a chibatadas.

Com efeito, houve, ao longo das décadas que se seguiram ao filme, um aumento de estudos em História do Brasil realizados por descendentes de escravizados. Isso fez com que suas vozes fossem ouvidas, e a história de profunda violência, estupros, tortura, assassinatos, trabalho extenuante e tratamento cruel fosse finalmente contada. O fato de ter havido pessoas como Francisca da Silva, que nasceu escravizada mas obteve alforria e amealhou riqueza ao longo da vida, não isenta a História do país de sua gigantesca dívida com os que vieram à força da África bem como seus descendentes, isso sem levarmos em conta os povos originários do Brasil, de partida genocidados pelos europeus.

Chica da Silva e João Fernandes em imagens de sua época

A segunda ideia trata especificamente da personagem ficcional Xica da Silva, recortada por Cacá Diegues segundo o estereótipo das mulheres pretas que remonta ao tempo da escravização. Hipersexualizada e dependente de seu amante, o contratador de diamantes português João Fernandes (Walmor Chagas), Xica vai alcançando seus intentos por meio de favores sexuais. Nesse sentido, a ascensão da protagonista de Diegues é metaforizada na distinção espacial entre os lugares onde ela fazia sexo com seus parceiros: do porão, no tempo em que era escrava de José (Stepan Nercessian, com um rosto de personagem de Caravaggio), passando pela, digamos, suíte master de João Fernandes, até obter seu próprio palácio. Tudo às expensas do contratador.

No Cinema, ainda aparecemos como os homens nos veem

Dessa forma, então, o agenciamento de Xica no filme se direciona a obter aquilo que, segundo o pensamento misógino, as mulheres conseguem por meio do sexo: roupas, joias, mimos, algumas propriedades. A Xica de Cacá Diegues chega também a ter muitos escravizados, que administra com grande permissividade. Seu poder se limita não apenas ao que pode conseguir pelo sexo. Limita-se à vontade de seu amante, que lhe concede presentes em retribuição a seus favores na cama. Ele faltando, faltará a ela também tudo. Tanto é que o filme termina com a partida do contratador, e é como se ele não tivesse feito nenhuma diferença na vida de Xica, porque a história termina exatamente como começou: Xica, sem nada de seu, fazendo sexo com a mesma pessoa.

Quanto a isso, aqui também há duas ressalvas a fazer. A primeira é que quem assiste apenas ao filme para formar uma ideia sobre a Chica da Silva histórica sai dele imaginando que, completamente dependente financeiramente de João Fernandes, ela passará o resto da vida na miséria depois do retorno do contratador de diamantes a Portugal.

Casa de Chica da Silva em Diamantina

Mas não foi isso o que aconteceu de fato. A historiografia relata que a Chica da Silva histórica tinha muitas propriedades (a foto acima é de sua casa em Diamantina) que administrava competentemente, e que deixou seus inúmeros filhos em condição financeira bastante favorável. Mas a potência da personagem em ela mesma construir seu pequeno império não foi objeto de interesse de Diegues. De forma que o filme oferece um final que não se confronta com os estereótipos sobre pessoas pretas, em particular as escravizadas.

A quem pertence nosso destino?

A segunda ressalva diz respeito a outra crítica que já à época Cacá Diegues recebeu sobre seu filme: a excessiva e muitas vezes injustificada exibição do corpo de Zezé Motta, e também a construção da imagem da personagem como praticamente uma ninfomaníaca, pronta para o sexo não importa quando ou com quem. Respondendo às críticas, Diegues cunhou a expressão “patrulha ideológica”, hoje em desuso, provavelmente em função do termo “politicamente correto” adotado inclusive pela extrema direita, aliás de forma pejorativa, já que os fascistas advogam pela ofensa sem limites às pessoas como “liberdade de expressão”.

Então observe o leitor que, no filme, a imagem de viciada em sexo para Xica se acompanha da ideia de que ela, embora inteligente e consciente da força de sua sensualidade, não era capaz de agenciar a própria vida e os próprios empreendimentos. Nesse sentido, sua existência era completamente dependente dos favores de João Fernandes, o que soa contraditório. Portanto, o que se afirmou sobre os problemas de construção da protagonista de Xica da Silva não dizem respeito a qualquer ideia moralista, mas sim à inconsistência interna da narrativa no que diz respeito às ações da personagem ao longo do filme.

Elenco all-star: Walmor Chagas e José Wilker

Entretanto, a questão da exibição do corpo de Xica me parece ter tomado um encaminhamento diferente ao longo dos anos. A evolução do pensamento feminista nesse pormenor produziu novas leituras que agregam uma potência e um grande agenciamento das mulheres em relação a como elas usam seu corpo publicamente. Nesse sentido, as mulheres se tornam tão apropriadas de seus corpos que podem até exibi-los e sensualizá-los em público, porque estão completamente conscientes do que eles provocam e conseguem administrar os efeitos de sua exposição.

Como constranger os homens com classe

Por exemplo, essa foi a polêmica recente que envolveu a cantora Anitta, criticada por atuar de forma erótica no palco. Sua resposta foi justamente a de explicitar seu controle e conhecimento sobre suas ações públicas, derivadas do fato de que a ninguém mais pertence seu corpo além de ela mesma.

A propósito, remeto à minha resenha sobre o filme As Golpistas, em que Jennifer Lopez brilhantemente incorpora sua imagem de latina sensual como parte constitutiva da credibilidade da personagem. Essa ideia de controle e uso consciente da força erótica de Xica como parte de sua potência fica bastante evidente também no trabalho realizado por Zezé Motta.

Zezé Motta e Thaís Araújo juntas na novela da Manchete

Porém, preciso ressaltar que não é de hoje que as mulheres já sabem como enfrentar a visão misógina sobre seu corpo como instrumento artístico. É o que se vê na resposta de Helen Mirren nesta entrevista de 1975, que desconcerta o jornalista na medida certa. Convenhamos: ela teve muita classe. O entrevistador merecia constrangimento bem maior.


Ficha Técnica
Xica da Silva (1976) – Brasil
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Antônio Callado, Cacá Diegues, João Felício dos Santos
Edição: Mair Tavares
Fotografia: José Medeiros
Trilha Sonora: Jorge Ben Jor, Roberto Menescal
Elenco: Zezé Motta, Walmor Chagas, Stepan Nercessian, José Wilker, Elke Maravilha, Altair Lima

 

 

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