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Fuori

Antes de adentrar na crítica em si de Fuori, proponho traçarmos aqui a biografia de uma mulher. A mulher que acompanhamos no filme.

Nascida na Sicília em uma família de jornalistas, ativistas socialistas e anarquistas, sua história atravessa alguns dos episódios mais turbulentos da Itália do século XX. Mortes na Primeira Guerra Mundial, a redação da Constituição italiana, ligações com Antonio Gramsci e perseguições durante o regime fascista de Benito Mussolini. Imagine agora que, aos 14 anos, essa jovem tenha sido retirada da escola pelos próprios pais temerodos com a doutrinação do partido fascista. Pouco depois, ela é enviada a Roma para estudar teatro e, após o armistício de 1943, junta-se aos partisanos. Descubra sua colaborando com uma ação que libertou presos políticos italianos das mãos da ocupação nazista.

Imagine ainda que essa mesma mulher tenha seguido carreira no teatro e no cinema, circulando por ambientes intelectuais onde conviveu com Alberto Moravia, Elsa Morante, Bernardo Bertolucci e Pier Paolo Pasolini. Ainda assim, seus livros continuaram sendo recusados pelas editoras. Mais tarde, tornou-se cada vez mais solitária após a morte da mãe e duas tentativas de suicídio.

Essa é Goliarda Sapienza.

Trata-se de uma história forte. Mas o filme faz uma escolha ousada. Escolhe contar sua história a partir de um episódio aparentemente menor: cinco dias passados na prisão após furtar as joias de uma amiga. Diante de tudo o que foi relatado até aqui, a escolha pode soar curiosa. Não é. Ao deixar a prisão, Sapienza afirmou ter encontrado entre as detentas mais acolhimento, compreensão e pertencimento do que nos círculos intelectuais italianos que passou décadas tentando integrar.

O movimento que o aclamado diretor Mario Martone realiza aqui parece inverter a lógica de seu Nostalgia (2022). Se naquele filme uma trama relativamente simples ganhava contornos de thriller, aqui o cineasta parte de um impulso grandioso: abre o longa com uma revista íntima angustiante, digna dos dramas sobre perseguição política e repressão estatal, apenas para desacelerar gradualmente em direção a uma investigação mais íntima e poética de sua protagonista. O problema é que, ao perseguir uma abordagem impressionista e expansiva, Martone acaba produzindo um filme emocionalmente disperso e frequentemente confuso.

Martone, a corroteirista Ippolita di Majo e o montador Jacopo Quadri parecem empenhados em cultivar um mistério em torno da trajetória de Sapienza, retendo informações essenciais sobre seu passado até momentos bastante arbitrários da narrativa. É tarde na filme quando descobrimos, enfim, o que levou Goliarda à prisão. A essa altura, porém, o longa já estabeleceu o vínculo que ela desenvolve com Roberta (Matilda De Angelis), uma jovem rebelde que se torna seu hiperfoco, bem como sua aproximação com Barbara (Elodie), amiga de Roberta. É justamente nessa aliança feminina, formada entre mulheres de origens e experiências tão distintas, que reside o principal interesse dramático do filme. Mas também aqui residem suas maiores falhas, ao meu ver.

Um filme aquém de seu desejo

É que o resultado parece uma produção que persegue sombras e que jamais faz jus à mulher (ou mulheres) que pretende retratar. É como se nem sua trajetória extraordinária nem sua obra maior — A Arte da Alegria, publicada postumamente — fossem suficientes para dar conta da complexidade de quem foi Goliarda Sapienza. Talvez isso seja verdade. Mas o mesmo pode ser dito do filme de Martone, que parece incapaz de transformar essa impossibilidade em força dramática.

Goliarda surge como um enigma durante quase toda a projeção. Não porque preserve seus mistérios ou oculte deliberadamente seus segredos, mas porque o roteiro raramente lhe confere uma interioridade concreta. A personagem permanece vaga, esboçada, dependente da presença magnética de Valeria Golino para adquirir contornos minimamente definidos.

Se a obra literária produzida após o encarceramento nasceu justamente de um olhar íntimo e desmistificador sobre a vida na prisão e sobre as mulheres que a habitavam, a representação construída por Martone soa contraditória. O filme recorre repetidamente a arquétipos familiares do cinema carcerário: a detenta agressiva codificada por traços de masculinização, a figura quase maternal da veterana que exerce autoridade informal sobre as demais presas e outros tipos reconhecíveis.

Parece apenas mal gosto.

A verdade é que embora o roteiro se inspire livremente em diferentes escritos de Sapienza, sua voz autoral raramente emerge. O que resta é uma obra de atmosfera difusa e estrutura episódica, envolta na permanente névoa dourada de fim de tarde concebida pelo diretor de fotografia Paolo Carnera. O filme toca em temas potencialmente ricos — diferenças de classe, solidariedade feminina e transformações geracionais na condição da mulher italiana —, mas nunca permanece tempo suficiente em nenhum deles para lhes conferir a necessária densidade dramática.

Em determinado momento, uma Sapienza artisticamente revitalizada define a si mesma como “uma ladra de histórias”. A ironia é que Fuori também se apropria de histórias: das memórias da escritora, de sua obra e de sua experiência prisional. Mas, infelizmente, no percurso entre empréstimo e interpretação, parte significativa de seu sentido acaba ficando para trás.

 

 


Ficha Técnica
Fuori (2025) – Itália
Direção: Mario Martone
Roteiro: Ippolita Di Majo
Edição: Jacopo Quadri
Fotografia: Paolo Carnera
Design de Produção: Carmine Guarino
Trilha Sonora: Valerio Vigliar
Elenco: Valeria Golino, Matilda De Angelis, Elodie

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