Dormir de olhos abertos
Dormir de Olhos Abertos, da alemã Nele Wohlatz, é o mais recente exemplar da cena cinematográfica pernambucana. De fato, a região tem se firmado cada vez mais como um centro de difusão cultural. Mas faz mais do que apenas construir uma imagem forte do estado na mente de cinéfilos, críticos e festivais pelo mundo. Há nos filmes, por exemplo, uma iniciativa de cosmopolitizar Pernambuco, Recife em particular.
Por consequência, a metrópole acaba sendo palco de questões universais da contemporaneidade, bem como suas consequências e mazelas. Acho muito bem-vindo esse descolamento da tradicional regionalização do Nordeste e da linha que divulga seu folclore ou denuncia suas desigualdades econômicas e sociais.

Esse movimento foi consolidado ainda mais este ano com o lançamento importante de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, agraciado com os prêmios de direção e atuação masculina (para o baiano Wagner Moura). Aliás, Mendonça é um dos responsáveis pela expansão temática e estética do cinema pernambucano. É sua, junto com Winston Araújo, a produtora CinemaScópio.
Dormir de Olhos Abertos é o mais novo lançamento da produtora. Como tal, segue a tendência cosmopolita de inserir Recife na estrutura capitalista mundial e seus efeitos nas vidas humanas.
Em Dormir de Olhos Abertos, Pernambuco não está no centro da narrativa
É bastante positiva a sofisticação narrativa com que Nele Wohlatz, junto com Pío Longo, constroem o roteiro de Dormir de Olhos Abertos. O filme aborda o contexto da diáspora chinesa recortada no microcosmo de Recife. Entretanto, devo acrescentar a isso o fato de que não faria a menor diferença se a história contada pelos roteiristas se passasse em qualquer metrópole do mundo. As particularidades de Recife não são parte constitutiva da narrativa. Por exemplo, o contraste entre os prédios altos e luxuosos e os cômodos escuros e sufocantes onde moram os imigrantes que compõem o entorno precário que sustenta a abastança pode ser constatado em todos os continentes. É assim em todo lugar.
Mesmo assim, a Praia de Boa Viagem surge como metáfora perfeita do que é o mundo estrangeiro para o imigrante pobre: está lá o oceano rico e gigantesco, em que não se pode entrar por causa dos tubarões que constantemente passam por ali. Só dá para ficar vendo da praia, mesmo.
Dormir de olhos Abertos é sobre as diásporas contemporâneas
Nessa situação se encontram os chineses que se ocuparam, ao longo das últimas décadas, do comércio de miudezas nas ruas das grandes e médias cidades do mundo todo. Isso ocorre a par da paulatina transferência de fabricação de itens de tecnologia e consumo de todo tipo, grandes e pequenos, inicialmente para a China, e depois para muitos países da Ásia. Além disso, a crescente precarização dos trabalhadores nesta região se repetiu nos outros países para onde asiáticos mais pobres migraram para vender os itens de consumo que seus compatriotas fabricam em seus países de origem.

É sobre isso o que o chinês Leo (Nahuel Pérez Biscayart) diz acerca de sua namorada, ao observar um corta-vento de cor berrante: ela pode, na Ásia, ter costurado aquela vestimenta que agora ele, no Brasil, tem em mãos para vender.
Percorremos com interesse a rede narrativa que Wohlatz e Longo tecem, e ao mesmo tempo desdobram, em torno dessas pessoas. Contudo, essa rede narrativa apenas se mostra inteira ao fim da projeção, já que durante o filme há mudanças de foco que, a rigor, não podem ser chamados de plot twists, porque não dizem respeito propriamente ao enredo, mas sim aos personagens.
Dormir de olhos abertos é a história de alguém contada por outras pessoas
A partir de uma desilusão amorosa, no momento de viajar para, talvez, a Argentina, a taiwanesa Kai (Liao Kai Ro), analogamente ao que imagina Sabrina Fairchild, conclui que as Américas podem ser uma boa ideia. Assim, chega ao Recife para, provavelmente, uns dias de visita.
Um defeito no ar condicionado de seu quarto a leva à loja do chinês Fu Ang (Wang Shin Hong). Quando retorna, não o encontra lá, mas sim a loja sendo fechada. Num canto da antiga loja, Kai encontra por acaso uns postais velhos e já preenchidos. Eles a levam a conhecer Xiao Xin (Chen Xiao Xin), que, um tempo atrás, se habituou a escrever neles como se fossem cartas a Leo, o primeiro do grupo a partir. A leitura de Kai do que Xiao Xin deixou sobre suas experiências e impressões as aproxima e preenche a lacuna temporal entre elas.
Sobre isso, Wohlatz é muito bem-sucedida em nos situar nas mudanças temporais. Ao mesmo tempo, paulatinamente constrói o que ao longo do filme se revela como o seu grande protagonista: Fu Ang, que é o elo entre elas todo o tempo, e é o tema da escrita de Xiao Xin.

Kai busca ir aos lugares em que Xiao Xin esteve para compreender os sentimentos de sua interlocutora involuntária. Tal compreensão se entremeia às cenas em que a própria Xiao Xin percebe a melancolia e solidão de Fu Ang. Tais ações se prestam, em última instância, a narrar ao espectador o processo de exaustão física e emocional de Fu Ang. Assim, cada uma, por sua vez, conta a história de Fu Ang por ele.
E, quando o espectador percebe essa mudança de protagonismo, Fu Ang se torna efetivamente o elemento central da narrativa. Passamos a torcer por ele e nos preocuparmos com seu destino. Para isso, evidentemente, concorre a simpatia cativante de Wang Shin Hong.
A vez e o valor das pessoas subalternizadas
A sofisticação narrativa de Dormir de Olhos Abertos se acompanha da complexidade de sua produção. De certa forma, ela é uma miniaturização da complexidade de um mundo globalizado. Assim, temos uma diretora alemã dirigindo um roteiro escrito por ela e um argentino. Os atores são asiáticos, e há três línguas sendo faladas. Os brasileiros entram como produtores, e em frente às câmeras aparecemos apenas perifericamente, e de forma nada favorável: estão lá nossos velhos estereótipos de classe e raça.

É uma beleza de ver o aprofundamento da indústria cultural brasileira em temas importantes da contemporaneidade. Nesse sentido, Dormir de Olhos Abertos cumpre com delicadeza e inventividade a tarefa de materializar nas relações pessoais a geopolítica contemporânea. Cumpre também outra tarefa essencial para os tempos de agora: iluminar a vida das pessoas subalternizadas. Elas estão nos últimos elos da cadeia capitalista. São justamente aquelas que sustentam toda a riqueza do mundo, sem contudo poder usufruir de quase nada dela. Dormir de Olhos abertos mostra luxuosamente nelas também há riqueza e valor.
Ficha Técnica

Direção: Nele Wohlatz
Roteiro: Nele Wohlatz, Pío Longo
Edição: Tsai Yann-Shan, Ana Godoy
Fotografia: Roman Kasseroller
Trilha Sonora: Carlos Montenegro
Elenco: Chen Xiao-Xin, Liao Kai-Ro, Wang Shin-Rong, Nahuel Pérez Biscayart
