Suçuarana imagem destacada

Suçuarana

Muitos materiais de divulgação do lindo Suçuarana, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, o classificam como um road movie. Filmes assim são aqueles que narram um movimento de um personagem de um ponto a outro do espaço físico, como metáfora e materialização de movimentos existenciais e emocionais por que esse personagem passa. Pode ser. De fato, a protagonista Dora, vivida pela excelente Sinara Teles, passa o filme transitando a esmo. Faz isso de várias maneiras: a pé, em ônibus, em caronas.

Porém, o que Suçuarana traz em particular é o alegado destino de Dora. Trata-se do Vale de Suçuarana, lugar onde sua mãe lhe disse ter um pedaço de terra, mas que talvez não exista. Provavelmente, Dora sabe disso. Porém, a busca por esse lugar imaginário, de que ninguém nunca ouviu falar, é uma justificativa para ela se manter em movimento. Para Dora, o movimento é que é o objetivo.

Suçuarana Dora só

De todo modo, para que Suçuarana mantenha sua consistência e robustez temática e narrativa, também não faz diferença se o tal Vale existe ou não. O enredo se interessa mesmo é pelos movimentos internos de Dora, e as mudanças emocionais que os encontros que vai tendo no caminho operam em seu espírito.

Suçuarana, como todo road movie, trata de movimentos interiores  

Entretanto, porque é de Cinema que estamos falando, no filme esses movimentos se acompanham de alterações de perspectiva e cenário. Por isso, Suçuarana se inicia com uma imagem que também ao longo dos anos foi mudando em nosso imaginário brasileiro: uma gigantesca minha de ferro no coração das Minas Gerais.

No século vinte, a exploração mineral materializava a ideia de desenvolvimento e riqueza. Mas, agora, a bocarra colossal e cinzenta dessas minas é símbolo de atraso e desequilíbrio ecológico. É, também, uma ameaça constante aos moradores das cidades em seu entorno. Além disso, evidencia a permanência do Brasil na posição periférica de fornecedor de commodities na cadeia de consumo mundial. Subdesenvolvimento e pobreza, portanto.

Dora e encrenca

Entretanto, ao longo do filme, e à medida que Dora vai se abrindo para os encontros que vão deixando de ser meros esbarrões na estrada para prenunciar amizade e confiança, o cenário também muda para uma Minas Gerais mais próxima da imagem calorosa e aconchegante que nós brasileiros temos desse estado: a mata fresca, o fogão a lenha, as conversas ao redor do fogo, a comida partilhada, os festins folclóricos.

Nesse sentido, o filme em si não termina com uma esperança de que algo mude no macrocenário do Brasil para que a vida das pessoas melhore. Mas um pequeno lance de otimismo fica em nossa memória com a possibilidade de que as pessoas, simplesmente por exaustão de tantas relações truculentas, se abram para um convívio amoroso com seus semelhantes.

Um filme que traz à mente vários outros

Dora me trouxe a lembrança de pelo menos duas outras personagens importantes do cinema. A primeira é Mona, a andarilha de Os Renegados (também conhecido como Sem Teto, Nem Lei), de Agnès Varda (1985). Nesse filme, Mona (Sandrine Bonnaire) também manifesta a coragem de viver sozinha que encontramos em Dora, mas encarna uma figura bem mais insurgente do que a protagonista de Suçuarana. Mona recusa qualquer possibilidade de encaixe na sociedade, nem em sua periferia, e isso dá a Varda condição suficiente para tecer uma crítica do mundo capitalista em dimensão ampla.

A intenção mais geral de Campolina e Borges parece ser a de evidenciar a realidade brasileira em tempos de capitalismo tardio. Estão em Suçuarana o esgotamento dos recursos naturais, o abandono causado pelo irreversível fim do estado de bem-estar social, e a consequente precarização do trabalho causada pela financeirização progressiva da economia. Em seu constante transitar, Dora vai encontrando pessoas já com idade suficiente para usufruírem de sua aposentadoria. No entanto, estão elas ali sucateando uma metalúrgica abandonada como uma forma imediata de sobrevivência, sem qualquer condição de planejar o futuro próximo depois do trabalho terminado, quanto mais o futuro mais distante.

Suçuarana Ernesto

Assim como Dora, aquelas pessoas também são andarilhas, nômades, como a estadunidense branca Fern (Frances McDormand), no maravilhoso Nomadland, de Chloé Zhao (2020). Fern também é uma espécie de andarilha. Tem um pequeno motor home como casa e, quando se encerra o trabalho de empacotadora da Amazon em algum lugar, sai dali e se dirige até qualquer outro centro logístico onde houver vagas. Nomadland também manifesta o fracasso humano do capitalismo tardio justamente no centro do mundo capitalista. Justamente no país do Destino Manifesto, segundo o qual se prometeu terra próspera aos brancos descendentes dos que desembarcaram no Mayflower.

O Cinema apontando caminhos para o comum

Como Mona e Fern, Dora também é um sujeito construído parte como resultado, parte como resistência a um modelo de mundo em esgotamento. Mas traz de si algumas características que sinalizam encaminhamentos para novos mundos. Esses sinais aparecem tímidos em brechas e fricções, pequenos refúgios em que o melhor do humano se impõe sobre o esvaziamento das relações.

Festa

Dora aos poucos aceita a impossibilidade de seguir sozinha em busca de seu vale imaginário. Isso acontece primeiro com o cão Encrenca (o cativante Tony Stark, nome, aliás, que lembra uma das bases econômicas de Minas Gerais). Depois, vem o encontro com Ernesto, vivido com delicadeza inesquecível por Carlos Francisco. Ernesto não apenas sinaliza para Dora a possibilidade de relações humanas mais duradouras. Igualmente, o personagem representa um encaminhamento estrutural e temático do filme para um indício daquilo que Pierre Dardot e Christian Laval denominam Comum, porém ainda não com vínculos de trabalho e convivência mais perenes, como mostrado por exemplo em The Last of Us.

Suçuarana emocionará quem acredita em um mundo diferente

Outro filme que me veio à mente quando estava assistindo a Suçuarana foi Arábia, de João Domans e Affonso Uchoa (2017). Mas este não me agradou muito. Talvez a falta de um reencaminhamento e a ausência de perspectivas de comum é que me fez estranhar Arábia. Também situado em Minas, o filme, embora bastante elogiado pela crítica especializada, me causou incômodo por uma perspectiva datada de discussão social. Sem foco nas subjetividades e sem abertura para possibilidades de um comum, Arábia não oferece saídas no tempo presente, em que impera o esgotamento de compreensões dos problemas sociais do Brasil. Um tempo em que se anseia por caminhos de vivência, para além da falta de sentido de vidas precárias, em que apenas se sobrevive.

Suçuarana Dora Ernesto e Encrenca

Contudo, ao ser levado para alguma saída, que se coroa num clímax profundamente emocionante para quem se envolveu com as vidas de Dora, Ernesto, Encrenca e aquele grupo amoroso de trabalhadores cansados, desesperançados, o espectador conclui que está diante de um dos melhores e mais belos filmes brasileiros do ano. O sentimento agridoce, paradoxal que Suçuarana deixa em nossa mente em seu final permanecerá por muito tempo em quem acredita no Brasil, no Cinema brasileiro e na construção de um mundo diferente, menos injusto e menos desigual.


Ficha Técnica
Suçuarana (2025) – Brasil
Direção: Clarissa Campolina, Sérgio Borges
Roteiro: Clarissa Campolina, Rodrigo Vieira
Edição: Luiz Pretti
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Design de Produção: Luna Gomidez
Trilha Sonora: Ajítena Marco Scarassati, Djalma Corrêa
Elenco: Sinara Teles, Carlos Francisco, Tony Stark, Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia de Ouro Preto, Hélio Ricardo, Andréia Quaresma, Elba Rocha, Rafael Botero, Docy Moreira, Kelly Crifer, Amora Ferreira Giorni, Lenine Martins

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