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O homem mais feliz do mundo

Muitos filmes funcionam como verdadeiras aulas de História. Digo isso apesar do fato de que cada filme é uma história contada do ponto de vista de seu realizador. Contudo, os tratados de História também são escritos do ponto de vista de seus autores. Quando eu era criança, lá pelos anos da ditadura militar, aprendi pelas aulas de História uma narrativa sobre o desenvolvimento do Brasil completamente diferente desta que os alunos jovens aprendem hoje. E isso é muito bom. Porque uma história nunca cessará de ser contada, e terão tantos autores quantos aqueles que participaram ou se interessaram por ela. Essa é uma das premissas de O Homem mais Feliz do Mundo, da Macedônia Teona Strugar Mitevska.

Asja dançando

Há algo que as narrativas históricas contemporâneas trouxeram de novo, que é a possibilidade de dar conta dos contextos macropolíticos através das micropolíticas, das relações de afeto e sentimento. O feminismo negro, por exemplo, trouxe para a discussão teórico-conceitual ideias como a dor, a solidão, o desalento e a revolta de quem é oprimido. Contudo, e com efeito, a construção de mundo da perspectiva de quem está no cotidiano dos regimes de exceção e em tempos de guerra é algo que sempre esteve na linha de frente dos grandes filmes históricos. Neles, traz-se para a dimensão individual o sofrimento de quem está numa situação de violência causada por gananciosos nos salões de luxo mexendo os pauzinhos e os bilhões da geopolítica.

Em O Homem Mais Feliz do Mundo, um tribunal montado num salão de hotel

O Homem Mais Feliz do Mundo traz como marca maior essa minimização. Assim, o que me parece ser sua ideia principal é o fato de que as marcas profundas da guerra na psique e (especialmente) no corpo não se apagam pelas décadas futuras que quem as sofre poderá viver. Aliás, podemos até fazer generalizações sobre isso. Quantos depoimentos de sobreviventes de campos de concentração trazem para nós com vividez o horror que essas pessoas passaram. Quantos filmes sobre a Guerra do Vietnã já vimos, todos nos provocando o mesmo horror. A quantos documentários sobre a tortura sofrida pelos opositores da ditadura militar já assistimos, cada um deles renovando em nós o mesmo sentimento de Nunca Mais.

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Semelhantemente, as minimizações de O Homem Mais Feliz do Mundo não param nas relações micropolíticas que manifestam os confrontos que mataram milhares de pessoas na Guerra dos Bálcãs, em que seguidas limpezas étnicas promovidas pelos sérvios mancharam de sangue a Europa na década de noventa. A uma certa altura do filme, Asja (Jelena Kordic Kuret) promove um minitribunal num salão de hotel em plena Sarajevo da terceira década do século 21, para julgar Zoran (Adnan Omerovic), um dos soldados sérvios que a feriu e matou um dos seus amigos num covarde ataque a seu bairro. Ele, aliás, apenas um ano mais velho do que ela. Portanto, pouco mais que uma criança com uma metralhadora na mão, como acontece em todas as guerras.

O Homem mais Feliz do Mundo é um convite a ler um pouco sobre a Guerra dos Bálcãs

Contudo, O Homem Mais Feliz do Mundo não traz elementos novos na abordagem cinematográfica sobre as guerras humanas. Por exemplo, não há nele traços ou atuações inesquecíveis semelhantes às vistas em obras magistrais como Apocalipse Now (1979), Zona de Interesse (2023) e Ainda Estou Aqui (2024), só para exemplificar. Mesmo assim, vale ser visto por duas razões que considero interessantes.

Zoran e Asja

A primeira razão é o pouco conhecimento que o cidadão brasileiro comum tem da Guerra dos Bálcãs. Não que o filme nos forneça mais informações além do fato, já do senso comum, de que o que se seguiu após o desmembramento da antiga Iugoslávia foi a sangrenta contenda que incluiu os horrores da limpeza étnica genocida perpetrada pelos sérvios Slobodan Misolevic, Radovan Karadzic e Ratko Miladik.

Igualmente, a segunda razão é a construção narrativa interessante que meio que disfarça o grande protagonista da trama, que é de fato Zoran. Mitevska, que assina o roteiro junto com Elma Tataragic, conta com os conhecimentos contemporâneos do espectador para não incluir ideias redundantes no filme. Por exemplo, a projeção já começa com Asja chegando a uma espécie de encontro arranjado coletivo, tipo um Tinder em grupo. Fica evidente que aqueles casais já tinham conhecimento um do outro. Dessa maneira, levando-se isso em conta, Zoran é que foi o grande planejador e artífice do encontro com Asja, que evidentemente não o interessava romanticamente.

A desgraça inscrita no corpo

Nesse sentido, Mitevska não acerta ao sugerir uma suposta atração física entre eles, como numa espécie de Síndrome de Estocolmo. Tratou-se de uma tentativa malograda de elevar o grau de tensão no filme, bem como outras tentativas que também não deram muito certo quando estavam focadas em Asja.

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Melhor se pode dizer quando o centro da produção de tensão e emoção se voltava para Zoran, incorporado pelo excelente Adnan Omerovic. É belíssimo o trabalho de corpo que o ator realiza. Por meio de reações físicas, ele afeta o espectador fazendo-o atentar para o fato de que a desgraça da guerra não destrói apenas as vítimas. Todos os que dividem o espaço de batalha se consomem pela ganância de quem fica longe dando ordens de seus salões luxuosos (um brilhante exemplo disso é o excepcional Nada de Novo no Front (2022), de Edward Berger, disponível na Netflix).

A tarefa de fazer com que o espectador se solidarize com quem seria supostamente o algoz numa guerra é brilhantemente cumprida por Omerovic. O ator consegue deixar evidente como, ao longo das décadas, o sofrimento de ser apenas um peão a causar dor e morte a outros seres humanos o tornou tão desgraçado quanto aqueles em quem disparou seu fuzil. Também morre quem atira, diz a canção. Zoran, o homem mais infeliz do mundo, é um exemplo disso.


Ficha Técnica
Najsrekjniot chovek na svetot (2022)- Macedônia
Direção: Teonia Strugar Mitevska
Roteiro: Teonia Strugar Mitevska, Elma Tataragic
Edição: Per K. Kirkegaard
Fotografia: Virginie Saint-Martin
Design de Produção: Vuk Mitevsky
Elenco: Jelena Kordic Kuret, Adnan Omerovic, Labina Mitevska, Kisenija Marinkovic, Irma Alimanovic

 

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