vizinha perfeita destacada

A vizinha perfeita

Sempre converso com amigos e colegas articulistas de cinema sobre minha quase nenhuma paciência com produções estadunidenses. Até as que não se propõem a seguir o modelo hollywoodiano acabam caindo no mesmo esquema narrativo. A saber, aquele que sempre conduz o espectador  ao conforto de estar vendo pela enésima vez ao mesmo filme, com final feliz e esperançoso. Obras que se vendem como tematicamente ousadas igualmente esbarram no problema de nunca recusar o  Destino Manifesto, mito fundador dos Estados Unidos. Essa declaração, eu também já a fiz aqui no Longa História algumas vezes. Mas felizmente não farei o mesmo em relação a A Vizinha Perfeita, de Geeta Gangbhir.

Melhor ainda fica a notícia quando filmes realmente insurgentes como A Vizinha Perfeita são lançados em plataformas populares como a Netflix. Grande vencedor no Festival de Sundance deste ano, o longa, que por ora está entre os Top Ten da plataforma, traz um sopro de ar fresco numa indústria envelhecida, fossilizada artisticamente. O cinema estadunidense respira por aparelhos. Mas A Vizinha Perfeita mostra que, pelo menos, ainda respira.

Neste texto, tentarei isolar alguns dos elementos que juntos, e em sofisticada harmonia, concorrem para que o documentário de Geeta Gandbhir tenha a chance de ficar na mente das pessoas e enriquecer a discussão  histórica e social sobre um país que no presente se coloca à beira da guerra civil: polarizado, violento, com suas leis e ideologias se voltando contra seu povo.

A Vizinha Perfeita é o mais puro suco de Estados Unidos

De certa forma, vejo algumas características semelhantes entre A Vizinha Perfeita e Projeto Flórida (2018), de Sean Baker, que também resenhei aqui no Longa História. Analogamente, vejo também semelhanças entre a heroína e mãe devotada Halley (Bria Vinaite) e Susan Lorincz, autora de um crime hediondo, de ódio. Ambas foram enganadas pela história de seu país. A ambas foi prometido que, sendo elas brancas, aquela terra gigantesca estava sendo preparada para elas, e para mais ninguém. Portanto, elas poderiam dispor daquela terra do jeito que lhes aprouvesse, porque era tudo sua propriedade e dos demais iguais a elas em raça e ancestralidade.

Entretanto, como bem sabemos, isso não aconteceu. À medida que o capitalismo foi se firmando como configuração  civilizatória hegemônica, o direito à ocupação e propriedade dos espaços de vivência (que, aqui, se opõem a espaços de sobrevivência, destinados aos não brancos) foi sendo cada vez mais restringido, a ponto de até gente branca perder o acesso a ele. Aos poucos, muitos brancos foram se tornando tão precarizados quanto os não brancos. Filmes relevantes como Nomadland (2020), de Chloé Zhao, descrevem isso com impacto inesquecível.

Evidentemente, a precarização das pessoas atinge todos os seus lugares de existência. Os subúrbios, um dos quais cenário dos acontecimentos de A Vizinha Perfeita, foram criados para os brancos que não suportavam de jeito nenhum compartilhar o espaço urbano com os pretos. Mas, com o tempo, famílias de pessoas pretas também começaram a morar nos subúrbios, e isso tem sido objeto em trabalhos que discutem a desigualdade racial estadunidense.

Em A Vizinha Perfeita, o problema da existência do outro

Nesta entrevista, JP Julien, do McKinsey Institute for Black Economic Mobility, relata a existência ainda de grande desigualdade econômica entre famílias estadunidenses brancas e pretas. Há muito menos ganhos do que persistências na desigualdade. Atualmente, apenas 12 por cento das famílias pretas moram nos subúrbios. Ou seja: esses espaços sagrados da branquitude estadunidense ainda resistem. Em A Vizinha Perfeita, algumas das famílias pagam aluguel, inclusive a mãe solo Ajike Owens. Nesse sentido, me chamaram a atenção, no filme, as seguidas menções a esse fato.

É fato que, materialmente falando, os subúrbios estadunidenses mudaram bastante ao longo das décadas por força da própria transformação racial daquela sociedade. Vale aqui pensar em como a vinda de famílias não brancas para o santuário branco que os subúrbios  representam deve incomodar os moradores mais antigos. Ora, se muitas casas estão alugadas, me pergunto por que as famílias brancas originais saíram dali.

É possível, em relação a isso, especular se as famílias brancas saem de suas casas nos subúrbios e as alugam porque empobreceram, ou porque não desejam dividir um mesmo espaço com quem não é de sua raça. A própria Susan Lorincz, segundo os vizinhos, havia afirmado várias vezes que sairia dali. Isso no Condado de Marion, na Flórida, cuja população de pessoas pretas corresponde a 12 por cento da população total, junto com hispânicos, que somam pouco menos de 15 por cento, mas, em conjunto, em sua quase totalidade eles são cidadãos estadunidenses. Portanto, pouca gente, mas, provavelmente, o suficiente para incomodar muitos dos 68,8 por cento de brancos que moram em Marion.

A propriedade é a invenção fundadora da civilização

Contudo, pelas imagens das câmeras da polícia, temos mais um dado. Os moradores que aparecem nas imagens parecem ser de classe média, sem luxo. A própria Susan Lorincz, por suas roupas e aparência, não parece se diferenciar das vizinhas. Mas, segundo as testemunhas, sua compreensão sobre sua própria propriedade no bairro onde mora se estende para além dos seus muros.

Por isso, a aproximação de qualquer pessoa preta lhe causava horror, mesmo sendo elas minoria na vizinhança. É como uma vez disse a poeta e feminista negra estadunidense Audre Lorde: “para o racista, pessoas negras são tão poderosas que a presença de uma pode contaminar toda uma linhagem”. É nesse sentido que Susan Lorincz repete parcialmente o papel da devotada Halley em Projeto Flórida: ambas são cidadãs que as promessas do destino manifesto excluíram. E, com o avançar do capitalismo, ele atenderá a cada vez menos gente. Por sua vez, Halley não parece se revoltar contra isso nem culpar os outros por sua exclusão do paraíso. Mas Susan Lorincz sim.

A verdade está nas câmeras

Preciso falar da genialidade da escolha de Geeta Gandbhir por construir seu filme quase exclusivamente com imagens da polícia – câmeras dos uniformes dos guardas, câmeras das delegacias. Nesse sentido, essa escolha efetivamente eleva A Vizinha Perfeita ao estatuto de obra de arte. A meu ver, é extremamente representativo que Gandbhir tenha optado por contar sua história não a partir do ponto de vista de quem praticou ou sofreu o crime que a primeira cena do filme já anuncia. Mas as câmeras oficiais e o que elas filmam também estão longe de qualquer suposta imparcialidade na exposição dos acontecimentos.

O fato de a diretora ter escolhido imagens  da polícia da Flórida denuncia que até as instituições criadas para manter o estado de coisas confeccionado a partir do destino manifesto, e as leis criadas para garantir a propriedade mais imediata dos brancos, que é sua própria casa, já não dão conta do horror que os Estados Unidos produziram com suas leis segregadoras, fascistas, já na sua origem e intenções.

Criadas de fato para salvaguardar os brancos violentos, e conceder a eles a prerrogativa da legítima defesa, as câmeras os desmascaram e expõem como eles realmente são: pessoas cheias de raiva e ressentimento, excluídas das riquezas prometidas pela “terra da liberdade”, mas incapazes de repensar a si mesmas e repensar o modelo de mundo que está afundando e fazendo-as afundar junto com ele.


Ficha Técnica
The Perfect Neighbor (2025) – Estados Unidos
Direção: Geeta Gandbhir
Edição: Viridiana Lieberman
Trilha Sonora: Laura Heinzinger
Elenco: Susan Lorincz, Ajike Owens, Pamela Dias 

 

 

 

Publicado Por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *