A Odisseia
Histórias como Frankenstein, Romeu e Julieta e Branca de Neve ganham constantemente novas interpretações no cinema. Entre elas está o universo do Cavalo de Troia, narrado na Ilíada, de Homero — origem tanto da expressão “presente de grego”, quanto do temido vírus que assolou usuários de internet nos anos 2000. Uma das versões mais conhecidas dessa interpretação nas telas é Troia (2004), de Wolfgang Petersen. Agora, o diretor Christopher Nolan adapta a segunda parte dessa jornada com A Odisseia (2026).
Depois de vencer a guerra de Troia, utilizando a estratégia de presentear o inimigo com um cavalo cheio de soldados, Odisseu (Matt Damon) tenta retornar à sua casa, em Ítaca. Entretanto, o percurso torna-se desafiador e ele enfrenta seres místicos, como ciclopes e sereias, além da revolta dos deuses. Enquanto isso, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) aguarda o marido em um castelo repleto de pretendentes que sugam seus suprimentos. Seu filho, Telêmaco (Tom Holland), tenta proteger a mãe e seu reino, enquanto aguarda o retorno do pai em um mundo regido pelas leis divinas.

Traumas de guerra e o peso de ser herói
O que esta nova interpretação traz em seu âmago, são os efeitos da guerra no ser humano. Apesar de Odisseu não ser responsável pelo início da guerra, ele se sente culpado pelo sangue em suas mãos devido à manobra desenvolvida por ele para pôr fim ao conflito. Tanto dos seus oponentes quanto dos seus próprios homens. Temos um herói humanizado, que reflete sobre os seus atos; os monstros e desafios que surgem no caminho parecem simbolizar este peso em suas costas.
Em A Odisseia, Nolan usa o recurso da não linearidade de forma criativa. Os eventos do passado são lembrados pelo personagem no presente e vistos em flashbacks. Relatos contados, na maioria das vezes, pelo próprio Odisseu. Outro ponto interessante que o filme traz é o detalhamento do tal “presente de grego”: Nolan explora a operação mostrando, por exemplo, como foi viver dentro do cavalo de madeira.
Em contrapartida, temos seu filho Telêmaco, que sequer se lembra do pai — visto que a guerra durou anos — mas vive sob a sua sombra. Ele não sabe se o patriarca está vivo ou se voltará um dia. O que o faz sentir-se impotente para defender o reino que, segundo as leis, ainda não pode ser seu. Com isso, Telêmaco vive com um intenso desejo de honrar a imagem de bravura que o pai criou, mas sem ter as ferramentas necessárias para tanto. Junto dele está a mãe, Penélope, que faz de tudo para manter o reino de pé, cercada por homens e leis opressoras que exigem que ela se case e não deixe o trono “vazio”.

Relações humanas em meio aos monstros
As discussões sobre relações humanas presente em A Odisseia, tem como um dos elementos cruciais para seu sucesso o elenco. Enquanto assistia, pensava que isso justificava a quantidade de estrelas no tapete vermelho. Um olhar intenso de Charlize Theron como Calipso ou um sorriso malicioso de Robert Pattinson como Antinoo, são essenciais para o envolvimento do público — estratégia também utilizada em Troia. Um dos que mais chamou a atenção com pouco tempo de tela foi Agamêmnon, interpretado por Benny Safdie. Nolan cria um personagem imponente apenas pela presença e pela grossa armadura negra; as cenas são construídas para deixá-lo grandioso e conseguimos sentir isso visualmente.
Apesar do universo mágico, Nolan opta por manter seu estilo realista. O ciclope aparece como um personagem tátil, em que o rosto — com um único olho — parece mais uma deformação do que um ser fantástico. Da mesma forma, a presença de Zeus não é representada por um homem de barba branca e raio na mão, típico de filmes da Marvel; o som de trovões marca sua presença, indicada pelos personagens que sempre seguem suas leis.

A Odisseia: um filme longo, mas envolvente
Uma das coisas que mais me surpreenderam ao fim de A Odisseia, foi que as quase três horas de duração se passaram sem que eu percebesse. Um texto tão antigo — que remonta a séculos antes de Cristo — com tantos eventos, à primeira vista parece ser oneroso e demorado. Entretanto, Nolan provou o contrário: o filme é dinâmico e, a cada momento, um acontecimento novo toma nossa atenção.
Por fim, A Odisseia, a partir de todo o misticismo mitológico, é um filme que fala sobre trauma e o peso das decisões de guerra. Uma guerra causada por homens gananciosos que tinham apenas interesses próprios, atingindo diversas outras pessoas que sofrem as consequências. Nolan conta isso com esmero e precisão em um longa envolvente, muito mais interessante do que produções cansativas com apenas 90 minutos de duração. A obra certamente entrará para o hall dos filmes que utilizam o “cinemão” para refletir sobre a condição humana. Veja na melhor sala que encontrar; valerá a pena.
