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Amores Materialistas

Quando comecei a assistir a “Amores Materialistas”, novo longa de Celine Song após o excelente “Vidas Passadas” (2023), apenas imagens luxuosas e iluminadas me vieram à mente. Algumas se assemelhavam aos cenários e pessoas que aparecem no início do filme, evidenciando os ambientes onde a protagonista Lucy costuma circular. Tais imagens, é claro, foram motivadas pela expectativa de que Song entregaria outra obra com o nível de complexidade e impacto que “Vidas Passadas” causou. Ledo engano: ao longo da projeção, o filme foi se tornando cada vez mais sem imaginação, mais preto-e-branco.

De fato, a exposição de personagens e discursos que abrem “Amores Materialistas” dá a impressão de que estaríamos diante de uma obra que inverteria as relações sociais entre os sexos ao expor que empregamos máscaras para disfarçar o fato de que muitas vezes usamos as pessoas para satisfazermos nossa vaidade e egoísmo. Mulheres falando de homens como se fossem objetos de consumo, alguns pretendidos apenas como maridos-troféu, me pareceu de início algo interessante de acompanhar, mesmo “Amores Materialistas” estando longe, de imediato, de um trabalho estruturalmente insurgente no nível do que Kelly Reichardt operou em “First Cow” (2019), por exemplo.

Amores materialistas casamento

Porém, o desenrolar do filme deve ter feito muita gente sair do cinema no meio da projeção, pela pura constatação de que o que estava na tela já havia sido assistido inúmeras vezes. Mas muitos, não posso descartar, devem ter permanecido apenas pelo prazer de contemplar em tela grande o elenco soberbamente belo.

“Amores Materialistas” e a verdade que falta

Sem dúvida, o triângulo composto por Lucy (Dakota Johnson, mediana como sempre, mas nunca exigida de fato), Harry (o carismático Pedro Pascal) e John (Chris Evans) é outro grande chamariz do filme. Trata-se de três atores que estão em forte evidência atualmente, fato que se junta ao interesse que um novo trabalho de Celine Song naturalmente despertou nos cinéfilos. Contudo, a beleza do elenco também contribui para afastar qualquer possibilidade de empatia dos espectadores para seus conflitos.

Em outras palavras: ninguém ali parece real. Em consequência, não temos nenhuma vontade de torcer por algum daqueles personagens. Ao fim e ao cabo, não nos importamos em descobrir com quem Lucy vai ficar no fim da história, e que destino os três terão. Para nossa indiferença, contribui fortemente o prolongamento da coda do filme e da demora dos créditos finais em subir, a ponto de quase perdermos a paciência.

A verdade que falta a “Amores Materialistas” transparece tornando sem sentido o cinismo da protagonista Lucy, que se declara uma solteira à espera de um marido rico, embora afirme acreditar no amor ao buscar encontros amorosos para seus clientes – estes também mais interessados na aparência, idade, renda e status social dos candidatos a match.

reunião

“Amores Materialistas” também decepciona pela total imersão num padrão de filmes cujo enredo já vimos inúmeras vezes. É assim: a moça (mas também pode ser um rapaz) cética para relacionamentos por experiências decepcionantes com os pais, que luta contra o par verdadeiro até ter uma epifania e resolver se entregar ao esquema “um amor e uma cabana (caverna, no caso)”. Nesse meio tempo, surge um candidato a marido-troféu que quase a seduz, mas este está na história só para dar ao espectador a certeza de que as escolhas da moça ao fim do filme perdurarão para depois dele.

Nenhuma comédia e nenhum romance

Entretanto, de início, ficamos um pouco iludidos e chegamos até a buscar camadas no filme. Ele poderia ser alguma discussão de gênero na contemporaneidade, e/ou as relações amorosas se dissolvendo e incorporando as práticas e imposições mercantilistas do capitalismo. O léxico empregado pelos personagens deixa isso bem evidente nas primeiras cenas. Mas essas ideias são rapidamente abandonadas. Rapidamente, nossas ilusões se desfazem diante de um enredo que cai no lugar comum da comédia romântica, mas sem nenhuma comédia e nenhum romance.

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Infelizmente, também não posso afirmar que em “Amores Materialistas” há bons elementos que, combinados, não resultaram em uma energia química que em outros casos criaria um filme memorável. Esses bons elementos não estão lá. Analogamente, também não tenho problemas com histórias repetidas, já que a singularidade no cinema também pode estar na maneira de contar uma história. Isso aconteceu em “Vidas Passadas”, com grande sucesso, mas “Amores Materialistas” sofre de preguiça narrativa.

Porém, para além de ser uma sequência de clichês, ou talvez por isso, o filme é incapaz de nos fazer acreditar que o que está sendo contado ali é para despertar alguma reflexão. Em algum momento, terminamos por constatar: se você é rico o suficiente, nem precisa ser bonito: uma cirurgia às vezes resolve seu problema. Porém, no caso de filmes decepcionantes, o mesmo não se pode dizer.


Ficha Técnica
Materialists (2025) – Estados Unidos
Direção: Celine Song
Roteiro: Celine Song
Edição: Keith Fraase
Fotografia: Shabier Kirchner
Design de Produção: Anthony Gasparro
Trilha Sonora: Daniel Pemberton
Elenco: Dakota Johnson, Chris Evans, Padro Pascal

 

 

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