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Apocalipse nos Trópicos

Assisti a Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, no mesmo dia em que a plataforma Netflix o lançou no Brasil. Tenho grande interesse pelos trabalhos de construção de conhecimento que buscam capturar a dinâmica histórica contemporânea, e os há de todo tipo. Por exemplo, resenhei os ensaios de Luiz Eduardo Soares e Marcos Nobre sobre os anos em que Jair Bolsonaro ocupou o cargo de Presidente do Brasil. Cada um tem sua perspectiva e lugar de fala. Mas ambos são corajosos para aprofundar ao máximo a busca por causas e prováveis efeitos de um processo que por décadas tem edificado o que Soares denomina “fascismo à brasileira”. Movimento, aliás, que passou despercebido para a grande maioria de nós.

Essa coragem também guia Petra Costa em Apocalipse nos Trópicos e também em seu filme anterior, Democracia em Vertigem (2019). Assim como muitos articulistas, também identifiquei problemas neste último documentário. Mas não deixei de pontuar que Democracia em Vertigem registrou para o futuro nosso sentimento de crescente desânimo e desesperança em relação ao golpe institucional que apeou Dilma Roussef do cargo de Presidente do Brasil e abriu caminho para que um fascista o ocupasse.

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No momento em que assisti a Apocalipse nos Trópicos, gostei muito. Porém, no mesmo dia, amigos e colegas articulistas já estavam nas redes deplorando o filme. A principal crítica é quando ao fato de que nele Petra Costa demonstrou desconhecimento do caleidoscópico mundo evangélico brasileiro. Esse desconhecimento se torna mais notável pela excessiva, praticamente exclusiva, exploração da participação de Silas Malafaia nas campanhas de Jair Bolsonaro à eleição e à reeleição como Presidente. Foi como se o pastor tivesse sido o maior responsável pela ascensão do neopentecostalismo à condição de ator político relevante no Brasil.

Uma busca por entendimento que não foi bem-sucedida

O argumento dos articulistas procede. Edir Macedo, com sua Igreja Universal do Reino de Deus, já estava pavimentando havia muito o caminho dos neopentecostais ao Planalto, tomando a sopa pelas bordas por décadas. Seu livro “Plano de Poder: Deus, os Cristãos e a Política”, publicado em 2008, apresenta a tese de que a Bíblia relata a existência de um projeto teocrático para o mundo. Naquele livro, materializa-se o que se denomina Teologia do Domínio. Trata-se de um projeto de poder que é o objetivo final das iniciativas de acúmulo de fiéis e riquezas das igrejas neopentecostais.

Evidentemente, nosso conhecimento da história da IURD nos permite pensar que, muito antes da publicação de “Plano de Poder”, Edir Macedo já alinhavava seus planos junto ao estamento político brasileiro. Porém, interessantemente, em algum momento de Apocalipse nos Trópicos, Silas Malafaia atribui a si a intensificação da presença neopentecostal nos Três Poderes. Não descarto a hipótese de que Petra Costa acreditou nele.

Apocalipse malafaia

O argumento dos críticos de que Costa errou feio ao elevar Silas Malafaia à condição de protagonista no projeto teocrático brasileiro na verdade se inclui em um outro, mais amplo. No início do filme, a diretora relata sua perplexidade diante do tempo presente da política brasileira, que paulatinamente está trocando a fé na democracia pela fé em algo “igualmente abstrato”: Deus. Isso evidencia uma crescente presença dos evangélicos nas instâncias macrodecisórias da política brasileira. Assim, na tentativa de entender o presente, Costa afirma pretender mapear como religião e política se imiscuíram no Brasil. E também refletir sobre por que o Estado laico definido na Constituição brasileira tem sido cada vez menos reconhecido na prática. É muita coisa.

O problema não é de recorte

Entretanto, no programa Calma Urgente do dia 14 de julho de 2025, a produtora e co-roteirista do filme Alessandra Orofino rebate os críticos afirmando que o que eles mencionam como problema é na verdade o recorte do tema. Segundo Orofino, especificamente, Costa resume no discurso e nas ações de Silas Malafaia o pensamento e a ascensão da Teologia do Domínio.

Contudo, infelizmente, a fragilidade de Apocalipse nos Trópicos me parece bem maior que isso. Ela é de ordem estrutural. E já a testemunhei em outros lugares, com outros tipos de trabalho. É assim, em termos básicos: uma pessoa escreve um texto com um tema, mas o título não tem relação semântica com o conteúdo desenvolvido embaixo. Um pesquisador pretende realizar um trabalho, chega a elaborar uma introdução, mas o que vem depois acaba por ser outra pesquisa, chegando a conclusões que não se relacionam ao que foi pretendido no início.

malafaia e bolsonaro

Assim é Apocalipse nos Trópicos. A intenção era a de compreender o cenário geral da ascensão do neopentecostalismo e sua presença massiva nas instâncias decisórias da política brasileira. A narração de Costa ao início do filme reitera isso. Mas o que há depois é outro filme, e eu poderia intitulá-lo assim: Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e a Presidência do Brasil. Acredito que, se Petra Costa tivesse aberto mão de tentar resumir em menos de duas horas um projeto histórico gigantesco, que abarca grupos religiosos, midiáticos, jurídicos, pseudointelectuais etc., e focado apenas na relação entre aquelas duas figuras, o que de fato seu filme acaba fazendo, as críticas teriam sido bem menores.

Um Evangelho para (pelo menos) dois Jesus

Reconheço que o resultado nas telas evidencia o desconhecimento de Petra Costa sobre o cenário que se dedicou a perscrutar. Ainda assim, reconheço virtudes em seu trabalho que me inspiram a escrever sobre ele. Por isso, partilho neste texto questões mais amplas que observo no filme, de certa forma disfarçadas, e provavelmente muito ancoradas em minha leitura. Mas me sinto livre para isso, porque toda obra humana, assim que realizada, é entregue ao mundo e pertence a todos quantos se dedicam a compreendê-la. Isso também vale para o que estou escrevendo aqui.

A busca por compreensão de Costa, em minha leitura, acabou desembocando na proposição de uma tese que, mais do que apresentar uma oposição entre Estado laico e Estado religioso, apresenta dois projetos de Estado baseados na oposição entre duas visões para um só cristianismo. Mais especificamente, duas leituras para um mesmo livro, duas percepções de um mesmo Jesus. Uma, que permeia os quatro evangelhos, é a de um Jesus benevolente, amoroso e justo. Outra, presente no episódio da expulsão dos vendilhões do templo, é a de um Jesus irritado, violento e rancoroso.

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Isso tudo para, ao fim e ao cabo, se deixar a ideia de que, esteja o Estado brasileiro pretendendo ser laico ou não, ele estará sempre ideológica e eticamente fundado nos preceitos do cristianismo. Ser um ou outro Jesus a dominar o Estado é que fará a diferença nas leis e práticas institucionais e sociais.

O Jesus do Estado teocrático

O Jesus do Estado teocrático evangélico já está mais do que delineado em todos os discursos de políticos representantes da Teologia do Domínio. É um Jesus atrelado ao Velho Testamento, que é um campo em que se valora socialmente o comportamento social público das pessoas – pode-se dizer que se está no campo da moral. Não à toa, a sexualidade humana é o terreno principal dos embates dos neopentecostais, tornando-se o lugar da virtude ou do vício.

Ao longo de Apocalipse nos Trópicos, as disposições morais neopentecostais são delineadas, mas já sabemos disso também por experiência. Uma moça entrevistada por Costa afirma não votar em Lula porque ouviu dizer que ele vai impor nas escolas o banheiro unissex. Mais de uma vez no filme, Bolsonaro e Malafaia dispõem os valores da política teocrática: a família tradicional patriarcal, a proibição do aborto e das drogas, a descriminalização da homofobia. Não se fala em projetos sociais de combate à pobreza ou maior acesso à educação.

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Nada disso nos espantará se nos lembrarmos de que, na Bíblia, Deus acabou com o mundo duas vezes porque as pessoas estavam transando fora do modelo patriarcal. Portanto, o sexo fora do modelo definido pelos crentes é crime de lesa-humanidade. É claro que, inclusive por causa disso, o controle do sexo é algo poderoso o suficiente pra eleger presidentes, e os interessados em ter poder sabem disso.

Sobre esse tema, recomendo demais a entrevista da socióloga Walquíria Leão Rego para o podcast Ilustrísisma Conversa. Rego, junto com o filósofo Alesandro Pinzani, escreveu “Vidas Roubadas”, livro que relata inúmeras entrevistas com brasileiros de classes C e D, buscando, entre outros objetivos, delinear seu pensamento político em termos que incluem também a religião.

O Jesus do Estado democrático

Em contrapartida, O Jesus do Estado democrático definido como laico, por conta do espaço em que se insere, se presencia como campo filosófico. Isso acontece porque aqui se trata de um Jesus atrelado ao Novo Testamento, campo em que se permite que os fatos elencados sejam até menos importantes do que as ideias propostas.

Diferentemente do plano público e moral que diz respeito ao Velho Testamento, o Jesus laico se situa no plano da ética, ou, em outras palavras, da definição do que motiva e orienta os comportamentos das pessoas. Diz mais respeito à consciência e à pertinência ao todo da humanidade, e não a um determinado grupo social. Assim, pensa-se em como nossas ações reverberam na manutenção, na melhoria e na piora das condições humanas no planeta.

Lula

As ideias de Jesus, ou do que hoje se pode resumir como sendo uma figura específica que nos acostumamos a chamar de Jesus, são poderosas o suficiente para sustentar projetos de poder, governo e Estado. Elas estão presentes e atuantes na Constituição Brasileira, porque, entre outras razões, podemos imaginá-las como sendo de alcance universal. No Estado democrático, abstrai-se a conotação religiosa de Jesus para que apenas suas ideias prevaleçam na consciência das pessoas e guiem as decisões políticas. Mas essa abstração não pode ser total. Por isso, faz muito sentido a afirmação de Lula de que as esquerdas no Brasil não têm considerado as crenças dos brasileiros.

Mira-se no que se vê, acerta-se no que não se vê

A tese de que não haveria possibilidade de um Estado realmente laico no Brasil é potente o suficiente para sustentar o trabalho de Petra Costa, porque, além de tudo, seus elementos argumentativos estão presentes no filme. Vladimir Safatle também menciona a relação religião-política como algo que permeia a trajetória da humanidade. Acho portanto uma pena que a diretora, ao longo da projeção, tenha permanecido presa à pergunta que fez em seu início, mesmo quando seu desenrolar acabou dando em outra coisa. Coisa aliás de grande valor, porque é um documento histórico da pequenez de ambos, de Malafaia e de Bolsonaro. Da pequenez ética de seu pensamento e de suas intenções. Para não adjetivar com palavras piores.

STF

Além disso, a tese de que não é possível haver um Estado laico é interessante para ser testada no conjunto das ideias que sustentam a prática política em outros países. Incluem-se aí os que não têm o cristianismo como religião principal. Sua percepção é uma evidência de que todo Estado tem um lastro ideológico poderoso que o estrutura. Esse lastro muitas vezes é a fonte dos movimentos históricos que encaminham um país para a opressão ou para a igualdade. Nesse sentido, penso, perguntar o que motiva os votos das pessoas não levará a uma resposta fidedigna se essa fonte não for identificada.


Ficha Técnica
Apocalipse nos Trópicos (2024) – Brasil
Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa, Alessandra Orofino, David Barker
Edição: David Barker, Nels Bangerter
Fotografia: João Atala
Design de Produção: Gal Buitoni
Trilha Sonora: Rodrigo Leão
Elenco: Petra Costa, Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Cabo Daciolo, Sóstenes Cavalcante

 

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