Dentro da Noite Feroz: o fascismo no Brasil

Última atualização: 29/05/2021

Escrevo este texto exatamente no período da CPI instaurada no Senado brasileiro para investigar as ações dos governos federal e estaduais diante da pandemia de COVID-19 no Brasil. Entre os comentários que ouço sobre os depoimentos dados, incluem-se os que ressaltam a qualidade das perguntas feitas pelos senadores aos depoentes. No caso da CPI, as pessoas consideram dois tipos de boas perguntas: as pertinentes aos fatos e as que obrigam os depoentes a respostas bem delimitadas. Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil, de 2020, livro mais recente do antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, mostra que há um terceiro tipo de boa pergunta: aquela que ninguém fez antes.

Logo abaixo, adianto, dentre as afirmações impactantes que compõem o livro de Soares, a pergunta que mais me afetou, e para a qual proponho resposta. Primeiro, é importante dizer que Soares definiu, como tese para seu livro, a de que o conceito de fascismo caracteriza a circunstância histórica que desembocou na eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Esse ponto de partida gera uma série de questões, e a que mais me chamou a atenção foi a que diz respeito exatamente à eleição em si.

Note-se a absoluta pertinência de nomear o estado de coisas que vivemos no Brasil. Após essa nomeação, lembra Soares, ficará impossível fazermos de conta que não sabemos com qual projeto estamos lidando. Igualmente, ficará impossível não escolhermos, em 2022, se seremos ou não cúmplices desse projeto.

A pergunta que, feita, não quer mais calar

Tendo em mente o fato de que Luiz Inácio Lula da Silva, sempre em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto em 2018, foi tornado inelegível pelo STF, Luiz Eduardo Soares pergunta: “Ora, se este país, sobre o qual nos debruçamos hoje, é o mesmo que poderia ter elegido Lula, onde está a realidade tão firme, estável, espessa, densa, irremovível com que, parece, nos deparamos, o Brasil-de-Bolsonaro, o Brasil neofascista?” Ou, em outras palavras: quem são essas pessoas que elegeram Bolsonaro, quando, meses antes, era o progressista Lula que despontava como o futuro presidente do Brasil?

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O autor Luiz Eduardo Soares.

A pergunta de Soares, que primeiro a fez, vai produzir no leitor outras perguntas igualmente importantes. Como é que pessoas dispostas a votar em Lula acabaram votando em Bolsonaro, seu antípoda político e ideológico? Penso que encontrar uma resposta para essa pergunta é crucial para que, num futuro que, espero, seja breve e melhor que o presente, o Brasil não eleja de novo alguém que ameace diuturnamente o pacto civilizatório que, agora sabemos, é mais frágil do que pensávamos. Como já dito, este texto dedica-se a, entre outras ações, propor uma resposta a essa pergunta.

Dentro da noite Feroz: o fascismo no Brasil é o livro de um brasileiro que é um intelectual relevante, e também é alguém que já participou da elaboração de projetos governamentais de segurança pública. A respeitabilidade alcançada por Luiz Eduardo Soares é lembrada mais uma vez neste vídeo recente do programa Greg News sobre a ação da polícia civil carioca no Jacarezinho, RJ, no dia 6 de maio de 2021, em que morreram 28 pessoas. Gregório Duvivier nos faz lembrar que um governo que demite alguém da envergadura de Soares dá evidente mostra de suas escolhas civilizatórias.

Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil é um recorte, e sua leitura também

É natural que alguém que pesquisa, trabalha e escreve dentro do universo dos problemas de segurança e polícia no Brasil se disponha a escrever um livro sobre qual é a feição do fascismo em nosso país. Porque é esse o tema de Dentro da noite feroz, e também da participação de Soares no episódio 89 do podcast Guilhotina, do Le Monde Diplomatique.

Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil se inscreve entre as obras que dão inteligibilidade ao presente caótico, perigoso e assustador que vivemos. No Longa História, eu já escrevi acerca de outro livro bastante relevante sobre o nosso presente: Ponto Final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia, de Marcos Nobre. Nobre dedicou-se a compreender o pensamento bolsonarista a partir de, entre outros fatores, os conceitos arrolados no discurso do presidente. Soares dedica-se a outra tarefa, igualmente importante: mapear as condições de possibilidades da eleição, no Brasil, de um presidente que manifesta claramente o pensamento fascista. Evidentemente, isso inclui mapear o próprio fascismo, como se apresenta agora.

Não tive a pretensão de abordar todos os sentidos de Ponto final. Interessou-me salientar minha leitura particular do trabalho de Nobre. Ou seja: elaborei um recorte do recorte já feito pelo autor, na tentativa de fazer saltarem a ordem e o método em meio ao caos do mandato de Bolsonaro.

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A beligerância como padrão de comportamento.

Mesmo também realizando um recorte, Soares é detalhista, reunindo toda sorte de aspectos que constituem o universo bolsonarista como sendo eminentemente fascista. Assim, há uma estética, uma prática e um discurso cuidadosamente descritos pelo autor para argumentar por um fascismo à brasileira. Fascismo esse meticulosamente ignorado pelas elites herdeiras da casa grande escravocrata.

É sempre melhor falar de ideias do que de pessoas

No entanto, Soares aponta o perigo gigantesco em assumir que 57 milhões de brasileiros são fascistas. Por isso, entre outras razões, uma alternativa de análise seria a de definir uma série de ideias de ordens anteriores e distintas, porém agregadas à figura de Jair Bolsonaro, que, surfando no zeitgeist, as catalisaria. Seriam os “bolsonarismos”. A servir-lhes de eixo, a destruição como projeto.

Sobre o que capitaneia essa destruição, Soares salienta, no livro e também no podcast Guilhotina, uma entrevista dada pelo general Eduardo Villas Bôas à revista Piauí. Lá, encontra-se a afirmação de que o que precisa ser contido na sociedade brasileira é a expansão daquilo que o general chamou de “ideologia”: relaxamento dos costumes, preocupação ambiental, direitos humanos. Principalmente, é preciso conter o politicamente correto. Segundo Soares, esse termo sumariza e reúne uma série de valores repugnantes ao patriarcado radical e racista brasileiro. Esse patriarcado assume uma perspectiva falocêntrica de mundo. Por isso, seus defensores odeiam a possibilidade de cerceamento de seu discurso e suas práticas machistas, racistas e homofóbicas, por força das reivindicações civilizatórias dos movimentos negro, feminista e LGBTQIA+.

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Práticas familiares

Esse patriarcado radical e reacionário, num “amálgama neurótico-ideológico”, inventou o racismo e a homofobia. Ele encontra em Bolsonaro a esperança de restaurar uma ordem do passado, que as conquistas dos movimentos sociais dissolveram. Busca-se destruir, sobretudo, a conquista histórica e filosófica da separação entre sexualidade, gênero e corpo, causa do horror fascista à chamada ideologia de gênero (que, aliás, os próprios fascistas inventaram).

O que querem os fascistas brasileiros

Em lugar da pluralidade identitária ameaçadora da ordem divina (“Deus fez homem e mulher”, como afirmaram muitos sobre o falecido ator Paulo Gustavo, gay, casado e com filhos), os fascistas querem o retorno do critério da anatomia genital, que por milênios separou o mundo em duas grandes categorias. Em suma, eles querem, e Bolsonaro o personifica na esfera política, o “retorno do macho”. E aqui Soares agrega mais um termo ao léxico bolsonarista organizado por Marcos Nobre: a liberdade tratada por Bolsonaro é a liberdade conforme entendida pelo macho: “liberdade é a liberdade para violar”.

Para justificar a existência desse fascismo na contemporaneidade, Soares identifica duas temporalidades que coexistem no país desde o processo de redemocratização. Elas existem porque não se logrou capturar todos os corações e mentes para um novo Brasil que emergiu com a Constituição Cidadã de 1988. Paralelo ao tempo do desenvolvimento e das conquistas sociais, sempre sobreviveu o tempo do patriarcado colonial e escravocrata. Esse passado mantém seus enclaves principalmente nas forças policiais. Dessa maneira, o que Gregório Duvivier descreve acerca da participação de Luiz Eduardo Soares no governo Lula pode ser uma materialização da existência e da capacidade de resistência dessa temporalidade reacionária. E eles agora estão no poder.

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Pessoas falam sobre si mesmas através de suas ações.

Em grande medida, a personificação do macho assumida por Bolsonaro explica a popularidade em torno de trinta por cento dos eleitores que ele ainda tem. Explica os trinta por cento, mas não a votação massiva que Bolsonaro recebeu nos dois turnos da eleição de 2018. Aliás, esses trinta por cento, diferentemente do que muitos articulistas afirmam, diz mais sobre eles mesmos do que sobre Bolsonaro. Por isso, pensar nesse fato ajuda a responder à pergunta de Soares, que transcrevi acima.

Respondendo à pergunta mais importante de Dentro da noite feroz

Os governos do PT foram favorecidos pela alta das commodities, que economistas e cientistas sociais já estudaram em relevantes tratados. Aqueles governos reverteram uma série de índices de desenvolvimento que nos colocavam em posições vergonhosas entre as economias do mundo. “Fome” foi o tema do discurso de posse de Lula em 2002. Com o petista, o Brasil experimentou um período de bonança. Elevou-se o poder de compra e consumo de classes sociais que por séculos nada mais puderam fazer além de levar da mão para a boca.

Entretanto, o fim da era Lula coincidiu com o fim da bonança. O avanço de uma crise econômica e sanitária sem precedentes ocasionou a precarização progressiva do trabalho e da acumulação de capital pelos muito ricos. Resultado: desemprego, miséria e, de volta, fome. Nesse sentido, a busca por garantias de sobrevivência, aqui resumidas à garantia de que se vai comer hoje, ocupa um espaço gigantesco na mente de quem está nessa situação.

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As comparações são constantes: esta é do Jornal Brasil de Fato.

Quanto maior esse espaço, menos lugar e tempo existem para que as pessoas pensem nas dimensões políticas e ideológicas da vida. Fica impossível pensar no que significa viver numa democracia ou numa ditadura, ou se existem direitos sociais ou não. Realmente, para quem está com fome e sem trabalho, isso não faz a menor diferença. Quanto maior a miséria de um país, mais distantes para os que a sofrem estão as questões políticas, históricas. O imediato é que é o foco de toda a preocupação.

Quando quem vota em Lula vota em Bolsonaro

Nessa esfera do mais imediato é que Bolsonaro e Lula se equivalem. Ambos definiram, em algum momento de seus mandatos, ações de salvamento da fome. Nos governos Lula e Dilma, esse salvamento era parte de um projeto maior. Ora, Bolsonaro nunca se preocupou com os pobres. Assim, o Poder Legislativo impôs, na pandemia de COVID-19, a obrigação do auxílio emergencial, que pouco durou. De todo modo, o auxílio coloca Bolsonaro na posição de provedor, onde também esteve Lula por quase uma década. E ainda está, a tomar pelas pesquisas que o tornam competitivo para 2022.

A miséria e a fome interessam ao opressor porque não permitem ao que as sofre identificar o opressor quando está diante de um. É nesse sentido, paradoxalmente, que a crise econômica, que mantém as pessoas na esfera do imediato, pode levar Bolsonaro ao segundo turno e a uma possível reeleição. Depende de como ele administrará seu potencial de provedor. Nossa sorte é que, como se pode provar empiricamente, ser o provedor e ser o macho libertador fascista são identidades que, no Brasil, não cabem numa mesma pessoa. Não no Brasil machista, racista, cruel e psicopata que acabamos de descobrir que somos, e cujos detalhes Luiz Eduardo Soares nos ajuda a reconhecer. Para isso, não lhe falta talento para fazer as melhores perguntas.

Mais dois textos do Longa História que tratam de publicações sobre o governo Bolsonaro: Guerra à saúde, de Gustavo Pereira, e Ponto-Final: um ensaio sobre o Bolsonarês, de Ana Flávia Gerhardt


Ficha Técnica
Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil – Brasil
Título no Brasil:
Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil
Autor: Luiz Eduardo Soares
Gênero: Ciência Política
Primeira publicação: 2020
Edição brasileira: Boitempo Editorial
Número de páginas: 119
Idioma: Português
ISBN: 978-65-571-7014-4

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