Cinema Brasileiro: filmes para sair da mesmice

Última atualização: 19/06/2021

Neste Dia do Cinema Brasileiro, resolvemos sair da mesmice. Obras como Cidade de Deus, Tropa de Elite e Central do Brasil, merecidamente, são sempre citadas em listas filmes-que-você-precisa-assistir.

Entretanto, há muita coisa excelente fora do radar. Para homenagear este quase “lado B” do cinema brasileiro, separamos* quatro filmes que, assim como os que citamos aí em cima, você precisa ver, mas que quase ninguém vai te falar.

Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013)

Para quem quer entender o Brasil de 2021, Tatuagem é um exemplo de como percepções reacionárias de mundo insistem em definir a política nacional, mesmo com o desenvolvimento do país e as conquistas dos movimentos sociais.

O filme trata do que hoje se denomina guerra cultural: em tempos de ditadura, um grupo de teatro independente luta para oferecer sua Arte livre das amarras do moralismo que imperou junto com o poder dos militares. Como pivô da tensão entre artistas e caserna, está Fininho (Jesuíta Barbosa), soldado que se apaixona pelo ator Clécio (Irandhir Santos), e com isso se divide entre a ordem do quartel e o desejo de viver seu sentimento.

 

Tatuagem

Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel (2010)

Nesta comédia de humor ácido, uma senhora acredita estar caducando ao começar a conversar com seu velho liquidificador. Elvira e seu liquidificador (interpretados por Ana Lúcia Torre e Selton Melo) proporcionam muitas risadas em meio ao cotidiano na periferia e o misteriosos desaparecimento de Seu Onofre (Germano Hauit).

Surpreendentemente, no desfecho, André Klotzel consegue transformar uma ironia senil em uma confissão visceral e inusitada a partir da reflexão de um liquidificador que passou a vida a moer e pensar.

A Máquina, de João Falcão (2005)

O que transforma um filme qualquer em um filme brasileiro? É o local de filmagem? A nacionalidade da direção e elenco? A temática? Desculpe. Não deveria ter começado esse textinho, tão curto, com perguntas que não posso responder. Não é nem por falta de espaço, admito que dava para encaixar uma respostinha, aqui no meio da minha enrolação. É por falta de repertório, mesmo: me falta conhecimento para te trazer uma definição do filme brasileiro. Mas uma coisa eu posso te dizer: eu reconheço de longe quando um filme é brazuca.

Cinema Brasileiro
É, não seria uma lista de filmes brasileiros sem uma imagem pixelada.

E olhe que A Máquina não é um dos mais óbvios. É que o filme explora uma possibilidade de viagem no tempo, que não é uma coisa exclusivamente nossa. Mas ele faz isso a partir de uma pequena cidade, onde mora Karina (Mariana Ximenes), que quer conhecer o mundo. E o mundo, no caso, é um lugar cheio de tudo: mar, gente de terno e gravata, televisão e programas de auditório. Bem diferente da cidadezinha seca de onde Karina veio. Eu não identifico o Brasil nem pelo mundo, nem pelo vilarejo. Eu vejo o Brasil quando vejo os dois juntos, em uma só terra.

Então, a dica que te dou é: quer achar um filme brasileiro? Procure os contrastes. Nada é mais Brasil do que os Brasis, assim no plural, com os quais convivemos todos os dias. Ah, e veja A Máquina. Foi para te recomendar esse filme que eu escrevi tudo isso.

O Homem que Copiava, de Jorge Furtado (2003)

Classe trabalhadora com salário achatado, precisando escolher entre andar de ônibus ou tomar um café no bar da esquina, sem nenhuma perspectiva real de mudar de vida? A História anda em círculos para, surpreendentemente, O Homem que Copiava falar muito com a realidade de 2021.

o homem que copiava jorge furtado 2003

Mas não pense que a obra de Jorge Furtado entrou nessa lista de filmes brasileiros apenas para a gente falar mal do governo (já temos muitos textos, mas muitos mesmo, fazendo isso). Ela está aqui pelo equilíbrio entre humor e drama do cotidiano, pela história cheia de reviravoltas e, principalmente, pelas atuações impecáveis de Lázaro Ramos, Pedro Cardoso, Leandra Leal e Luana Piovani. Quantos filmes você já viu sofrendo para desenvolver um personagem? Pois O Homem que Copiava faz com que o espectador se importe, torça e vibre com as vitórias dos quatro. E sobre o final, acima de tudo, dois adjetivos: belo e moral.


*Contribuíram: Ana Flávia Gerhardt, Yasmine Evaristo, Marina Pais e Gustavo Pereira.

Publicado Por

1 comentário em “Cinema Brasileiro: filmes para sair da mesmice

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *