Clair Obscure: Expedition 33
Clair Obscure: Expedition 33 me fez voltar a amar histórias fechadas em jogos. A trajetória da Expedição 33 me mostrou como uma boa narrativa tradicional, com começo, meio e fim bem delineados, ainda tem um lugar garantido no meu coração. A linearidade da história, os fatos fixos e os personagens com falas praticamente iguais para diferentes gameplays em nada perdem para jogos com milhões de escolhas.
Dessa forma, acompanhar a Expedição 33 é como ver um bom filme. Mas além disso, é ainda poder escolher como os atores vão passear nesse cenário, que lutas vão encarar e como vão vencê-las. Assim como a visão de cima dos personagens, o mapa que precisa ser navegado sem atalhos é uma viagem à parte. É literalmente explorar com a Expedição e descobrir os mistérios escondidos pelos cantos de Lumiere.
A estética diferenciada mostra o cuidado dos desenvolvedores ao lidarem com a temática da pintura. Isso fica claro, principalmente, em como conseguem homenagear uma arte milenar em uma nova mídia. Dito de outra forma, em Clair Obscure, as referências ao surrealismo e à moda francesa do início do século XX trazem ao jogo um pouco desse ar de Paris da Belle Époque, fugindo da estética comum dos jogos que transitam entre os olhares japoneses ou estadunidenses.
A trilha sonora também remete à época, com músicas melancólicas de vocais majoritariamente femininos. A jogabilidade é desafiadora, e isso torna o jogo ainda mais interessante. O jogo exige que o jogador articule, adeque os personagens aos desafios e, principalmente, sincronize imagem e som com os movimentos do controle ou teclado.
Tudo isso junto contribui para construir uma história tocante sobre luto, amadurecimento e como precisamos nos mover e ressignificar. Paro por aqui para não dar spoilers, mas deixo a dica: a experiência de Clair Obscure é única e nos convida a refletir sobre a complexidade do limite da nossa dor.
Sobre a autora
Sabrina Gomes é doutoranda em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG, com foco em ecocrítica e análise de videogames. Professora de Inglês no CEFET-MG e na Fundação CEFET Minas, atua também na formação de professores por meio de programas culturais. Pesquisa jogos digitais desde a graduação e desenvolve projetos artísticos com impressão 3D.
