Zé Ninguém contra Putin

Um Zé Ninguém Contra Putin

Na cerimônia de entrega do Oscar deste ano, Pavel (Pacha) Talankin compareceu para receber o prêmio de documentário para Um Zé Ninguém Contra Putin, quebrando o suspense que se instalou ao final de seu filme. Por suas ações insurgentes na escola fundamental onde trabalhava, numa pequena cidade dos Montes Urais, Pacha precisou exilar-se para um país desconhecido até a noite da entrega dos prêmios da Academia. Porém, pelo menos naquela noite, sabíamos onde Pacha estava.

Seu documentário não era o grande favorito da noite. Muita gente esperava que Geeta Gangbhir, diretora de A Vizinha Perfeita, subisse ao palco em seu lugar. Mas a Academia não preferiu um cinema que trata das mazelas históricas dos Estados Unidos. Em vez disso, premiou um outro que trata de uma guerra em um país bem distante dela. Entretanto, talvez, penso eu, Um Zé Ninguém Contra Putin talvez fale tanto dos Estados Unidos quanto o documentário da Netflix que escancarou o racismo estrutural em um país fundado sobre ideais segregacionistas.

Manifestação patriótica

As analogias entre a imposição dos destinos da guerra da Ucrânia sobre a juventude russa, que Pacha Talankin denuncia, e o que sabemos ocorrer naquele país da América do Norte são notáveis. Chego a me espantar por ter visto Pacha em Los Angeles recebendo um prêmio dado justamente por aqueles que ensinaram o governo russo a infiltrar crenças nas pessoas – não com a mesma classe, precisamos reconhecer. Me pergunto se Pacha realmente compreendeu o que estava acontecendo num sentido mais amplo, geopolítico. Me pergunto se os estadunidenses votantes da Academia compreendem o que fazem também num sentido mais amplo. Talvez sim, porque premiaram um igual.

Um formato convencional de um realizador corajoso

Para compor Um Zé Ninguém Contra Putin, Pacha Talankin, junto com David Borenstein, optou pelo formato reality show. As cenas filmadas por Pacha na escola e em eventos sociais em que ele e os alunos estão presentes vão se desenrolando à medida que Pacha comunica seus sentimentos diante da câmera. Os depoimentos de Pacha provavelmente foram gravados posteriormente à sua partida, o que significa que podem ter sido filmados por outra pessoa. Em conjunto, o que se tem é uma narrativa, uma história sendo contada desde a deflagração da Guerra da Ucrânia até o momento em que Pacha parte.

Em termos estruturais, contudo, Um Zé Ninguém Contra Putin é um filme bastante convencional. Nesse sentido, A Vizinha Perfeita, montado a partir de filmagens de câmeras de policiais e de delegacias, ganha pontos. Me recordo de outros filmes que beberam da fonte dos reality shows com muito mais brilho. O lindíssimo Honeyland (2020), de Ljubo Stefanov e Tarmara Kotevska, e Zona de interesse (2023), de Jonathan Glazer (o filme desta década, na minha humilde opinião), adaptam o formato com resultados que alcançam a excelência.

Zé ninguém contra Putin desfile

O que torna Um Zé Ninguém Contra Putin objeto de interesse é a coragem de Pacha de denunciar o processo de exploração de sentimentos e símbolos nacionais para militarizar as escolas russas, a fim de arregimentar mais soldados para a empreitada ucraniana. Essa denúncia começa com o posicionamento de Pacha diante das determinações mandatórias didáticas e pedagógicas que vêm de Moscou. Ao longo do filme, podemos ver que a insurgência e o pensamento independente fazem parte da história de Pacha e o constituem como pessoa. Isso significa que não havia muito espaço para um desfecho diferente em sua história.

Faltou tratar do assunto de maneira ampla

A grande lacuna de Um Zé Ninguém Contra Putin é, como eu disse acima, a falta de uma perspectiva mais ampla sobre a origem da reestruturação educacional russa em função do esforço de guerra. Evidentemente, esse esforço não se faz sem muitas distorções conceituais. A mais grave delas, a meu ver, é a que mistura perigosamente o sentido de patriotismo com a obediência a quem está no poder numa dada ocasião. De certa maneira, Pacha reconhece essa distorção: “sou mais patriota que eles”, ele afirma, em algum momento. Outro traço desse reconhecimento é a recorrência de imagens em que Vladimir Putin afirma que a não obediência às novas regras vindas de Moscou representará traição à pátria.

Entretanto, Um Zé Ninguém Contra Putin não vai além da constatação de que ficou muito ruim para Pacha viver na Rússia sob as novas ordens. Se determinadas perguntas tivessem sido feitas, Um Zé Ninguém Contra Putin se elevaria ao estatuto de grande obra. Que perguntas seriam essas? Justamente as que questionariam onde foi que Putin aprendeu que a martelação contínua de determinadas informações na cabeça dos jovens russos surtiria numa aceitação praticamente irrestrita de suas intenções imperialistas.

Militarização da escola

O lugar que inspirou Putin a fazer determinadas coisas para trazer os russos para sua empreitada é o mesmo lugar que “motivou” Adolf Hitler a criar regras de segregação racial. Este lugar é os Estados Unidos, que é inspiração para toda sorte de decisões políticas, para o bem e para o mal.

O soft power não tão soft de Vladimir Putin

A ideia de soft power é tão poderosa quanto as outras formas de poder – político, econômico, militar. Um país pode vender-se para o mundo de forma muito bem sucedida explorando e divulgando o que tem de bom. Recursos e belezas naturais, arte e cultura são os atrativos mais comuns em iniciativas de soft power. Brasil e Coreia do Sul divulgam seus pontos positivos sempre que podem, e o retorno financeiro de seus investimentos somam-se aos bilhões, em turismo e consumo de bens culturais.

Os Estados Unidos vendem mais do que isso. Vendem ao planeta uma ideia de mundo, e o fazem há praticamente um século. O Cinema e as séries de TV e streamings têm sido o veículo mais usado para esse fim. Os Estados Unidos vendem a percepção de que o mundo todo deveria ser como eles, porque lá é o melhor país que existe, e todos os outros deveriam imitar sua forma de vida e de governo. Eles são tão bem sucedidos nisso que até os estadunidenses por muito tempo acreditaram na mesma coisa que o Cinema e as séries levavam os estrangeiros a pensar do país.

Zé ninguém contra Putin festa

Porém, pesquisas têm revelado que o grau de confiança dos estadunidenses na magnitude e proeminência de seu país já não é mais como antes. O país não dispõe de uma série de benefícios sociais para que sua riqueza, massivamente gasta em armamentos, possa patrocinar sem prejuízos internos as próprias guerras e guerras de seus aliados. A população gosta cada vez menos disso. Ainda persiste a intenção de fazer com que o mundo pense dos Estados Unidos o que os próprios estadunidenses pensam de seu país. Mas eles cada vez mais desconfiam de coisas que nós há muito já sabemos.

Muito mais poderia ser dito

Vladimir Putin repete muito mal e sem o menor glamour a prática estadunidense de ufanarem-se de si mesmos. Há uma diferença gritante aí: o patriotismo dos estadunidenses remonta à criação do Mito do Destino Manifesto, que o Cinema do país muito raramente questiona. Esse patriotismo sobrevive à atuação de quem ocupa a Casa Branca, e, embora muitos de nós achemos isso muito ruim, é um sentimento genuíno da maioria dos estadunidenses.

Putin não apenas traz o centro do processo para si e atrela patriotismo à obediência cega ao processo de militarização das escolas públicas. Na leitura de Pacha, ele transforma isso num processo de cima para baixo, sem inflamar os russos em seu amor ao país. Trata-se de uma ação que diz respeito às ações para a vitória na guerra contra a Ucrânia, sem ampliar o sentimento ufanista às belezas e riquezas naturais e culturais do país. A história contada remonta apenas à Segunda Guerra Mundial (chamada de Grande Guerra Patriótica pelos russos desde sempre), numa clara manutenção do sentimento bélico entre os jovens russos. Fica difícil incutir em seus corações o desejo de lutar por amor ao país.

Mãe de Pacha

Mas essas leituras não são favorecidas pelo material que Pacha escolheu nos oferecer. Junto à convencionalidade na forma de contar sua história, há também uma escolha em não penetrar fundo e expandir mais amplamente as implicações das ações que tomam lugar em sua escola. O resultado é um filme plano, sem camadas, grávido de inferências e reflexões, mas sem que os cordões para o passado, o futuro e o resto do mundo tenham sido puxados por seus diretores.


Ficha Técnica
Mr. Nobody Against Putin (2025) – Estados Unidos
Direção: Pavel Talankin, David Borenstein
Roteiro: David Borenstein
Edição: Rebekka Lonkvist, Nicolaj Monberg
Fotografia: Pavel Talankin
Design de Produção: Pavel Talankin
Trilha Sonora: Michal Rataj, Jonas Struck
Elenco: Pavel Talankin, Vladimir Putin, Galina Aleksandrovna

 

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