Ruas da Glória

Quando, há dez anos, Felipe Sholl apresentou seu primeiro longa-metragem, ficou evidente que seu sucesso como roteirista não era fruto do acaso. Já trabalho já demonstrava à época uma percepção apurada do fazer cinematográfico, aliada a um repertório intelectual consistente e à coragem de contar histórias que desafiam o conforto do espectador.

Desde então, em vez de migrar imediatamente para novos projetos como diretor, como muitos fariam de imediato, Sholl consolidou sua trajetória como roteirista, participando de séries e filmes de destaque, a exemplo de “M-8: Quando a Morte Socorre a Vida”. Em 2024, por fim, assinou conjuntamente o roteiro do longa “Manas” (Marianna Brennand), obra que merece reconhecimento por seu fôlego artístico — mais do que pela polêmica envolvendo a Academia Brasileira de Cinema no Oscar.

Agora, uma década após sua última direção, ele retorna aos cinemas com “’Ruas da Glória”, reafirmando sua maturidade como realizador enquanto mergulha no intimismo tanto quanto busca mergulhar nas noites quentes cariocas.

Trama, personagens e um retrato contemporâneo

A narrativa acompanha Gabriel (Caio Macedo), que se muda para o Rio de Janeiro após a morte da avó. Longe da família, ele tenta, pela primeira vez, se encontrar e descobrir quem realmente é. Instalado no bairro da Glória, logo mergulha na vida noturna local, especialmente nos bares gays da região, onde conhece Adriano (Alejandro Claveaux), um sedutor garoto de programa.

O envolvimento entre os dois rapidamente evolui para uma relação intensa, marcada pelo desejo e pela dependência emocional. No entanto, como o próprio filme sugere, relações construídas sob intensidade podem cobrar um preço. Gabriel passa, então, a enfrentar escolhas difíceis, cujas consequências moldarão sua trajetória.

A obra dialoga com outras produções do cinema brasileiro contemporâneo, não faltando comparações com “Baby”, de Marcelo Caetano, embora siga um caminho próprio. Enquanto o filme de Caetano apresenta um recorte mais segmentado do universo LGBTQIAPN+, procurando contar uma história que poderia acontecer em qualquer lugar, “Ruas da Glória” aposta em uma abordagem mais crua das relações humanas, buscando mostrar aquilo que poderia acontecer a uma pessoa qualquer, diante dos caminhos da vida. Aqui, os personagens são confrontados com suas fragilidades de forma direta, sem concessões de qualquer tipo— nem mesmo da câmera que está sempre buscando-os bem de perto.

Uma fotografia que revela o coração do filme

Grande parte do impacto do filmes vem da colaboração entre Sholl e o diretor de fotografia Léo Bittencourt. A câmera realmente se aproxima intimamente dos personagens, explorando tanto os espaços urbanos quanto os abismos emocionais em que eles se encontram. A iluminação naturalista e os enquadramentos contribuem para uma estética que potencializa o realismo da narrativa.

Mas esse realismo não priva o texto de provocar reflexões. Dentre elas, destaca-se ao estabelecer paralelos entre Gabriel e Adriano. Enquanto o primeiro ainda vive o processo de descoberta, o segundo representa um possível futuro marcado por frustrações, vícios e a perda de perspectivas. Essa construção narrativa amplia a dimensão dramática da obra, ao sugerir que o percurso do protagonista pode levá-lo a um destino semelhante. Essa abordagem psicológica já não é surpresa a quem conhece aq cobra de Sholl e parece estar começando a se tornar sua marca.

Apesar de não se apoiar em uma proposta totalmente original, o longa se insere em um contexto atual relevante, especialmente ao abordar temas como saúde mental, dependência e afetividade dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Para tanto, o filme escapa da armadilha de ser panfletário, enquanto sugere, de maneira sutil e nunca piegas, que há espaço para esperança — mesmo em cenários de aparente esgotamento.

O elenco entrega performances espetaculares e, de longe, este é um dos maiores valores do longa. Diva Menner se destaca em sua estreia no cinema, roubando a cena e construindo uma personagem ambígua e magnética, culminando em ao menos uma cena memorável. Alejandro Claveaux, por sua vez, apresenta uma de suas atuações mais marcantes, enquanto Caio Macedo demonstra que está pronto para papéis que podem levá-lo ao estrelato.

Não por menos o elenco recebeu prêmios merecidos no Festival do Rio, graduando uma produção adulta, madura e sensual, que merece ser vista na tela grande.

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