O Labirinto dos garotos perdidos
Quando tomei contato com o trabalho de Matheus Marchetti, em Verão Fantasma, passei um bom tempo pensando em como tínhamos ali um excelente exemplo de brasilidade inspirada pelos clássicos do giallo e pela estética camp.
Agora, com O Labirinto dos Garotos Perdidos, nota-se que o cineasta paulistano não apenas ampliou seu repertório, mas também amadureceu sua capacidade de transformar referências em algo próprio. Marchetti se distancia de seus modelos na mesma medida em que se permite dialogar com eles — uma qualidade rara e característica dos bons diretores.
Referências e síntese
Trata-se de uma fantasia que mistura suspense e terror. Acompanhamos Miguel, um jovem do interior que viaja para São Paulo para prestar uma prova. Hospedado na casa de um conhecido da internet que o recebe com certa frieza, ele passa a madrugada vagando pela cidade e acumulando encontros estranhos enquanto um serial killer aterroriza as ruas paulistanas.

São perceptíveis influências das mais variadas origens, passando obrigatóriamente pelos gialli italianos de Dario Argento e companhia, mas também com passagens que nos remtem à gigantes do drama e suspense, como Scorcese e Hitchcock. A atmosfera construída por cores vibrantes e contrastadas, a trilha sonora explosiva, a textura da imagem, os zooms, o uso da dublagem nos diálogos e o encadeamento de situações cada vez mais absurdas e tragicômicas deixam claras as filiações estéticas do filme. É uma obra que sabe a quem reverencia, mesmo quando algumas aproximações parecem involuntárias — como ocorre com a captação de som ocasionalmente irregular.
Apesar disso, vale destacar: este é, acima de tudo, um filme de Marchetti. As referências não funcionam como escudo ou muleta, mas como pontos de partida para a construção de uma linguagem própria. O diretor demonstra segurança suficiente para absorver seus modelos sem se tornar refém deles.
Um filme de seu tempo e para seu tempo
Curiosamente, O Labirinto dos Garotos Perdidos parece dialogar com um fenômeno frequentemente associado à Geração Z: o esvaziamento da experiência afetiva e sexual em uma geração cada vez mais mediada por telas, aplicativos e formas de interação à distância. Em vez de observar esse processo com distanciamento sociológico, porém, Marchetti reage a ele através do cinema. Seu filme aposta no encontro, no desejo, no toque e na vulnerabilidade.

Há um retorno ao erotismo que é simplesmente prazeroso. As cenas de sexo surgem como provocação estética, mas também como parte fundamental da narrativa e do desenvolvimento emocional dos personagens. O resultado é um coming of age do esgotamento, uma ode à melancolia contemporânea dos belos meninos, presos num enorme labirinto. Muito à sua maneira, o filme se revela uma reflexão sobre morte e desejo, amarga em muitos momentos, mas atravessada por uma delicadeza quase juvenil.
Em uma jornada de amadurecimento cinematográfico, se Verão Fantasma era um tsunami queer, O Labirinto dos Garotos Perdidos é a ressaca da maré. Uma força igualmente poderosa, mas que avança aos poucos, ganhando terreno em movimentos sucessivos até nos cobrir por completo. Como as relações afetivas na modernidade tardia, seu impacto não está no choque imediato, mas na permanência.
