Eu não te ouço
Muitas vezes, cabe ao crítico reconhecer o valor daquilo que já foi feito antes, ainda que revisitado, desde que essa repetição seja conduzida com extremo esmero. Em outras, é preciso valorizar propostas novas e desafiadoras, mesmo quando tropeçam em certos equívocos de execução, em razão de sua singularidade e dificuldade. Gostaria de dizer que uma dessas condições se aplica ao novo filme de Caco Ciocler, Eu não te ouço.
Inspirado no insólito caso do “patriota do caminhão” — meme nacional surgido após o comerciante Junior César Peixoto ser filmado pendurado no para-brisa de um caminhão em movimento —, o filme parte de um episódio ocorrido em novembro de 2022, na BR-232, em Caruaru (PE), durante manifestações que contestavam o resultado das eleições.
De forma sagaz, a narrativa ficcionaliza o acontecimento e busca levantar questões relevantes sobre o atual momento político do país, mas parece interromper seu percurso antes do tempo, tanto temática quanto visualmente.
Forma e conteúdo

Para alcançar seus objetivos, o filme aposta em uma estrutura mínima: um único cenário e apenas um ator, embora haja dois personagens em cena. Conhecemos um motorista de caminhão e um outro sujeito que decidiu se agarrar à parte frontal do veículo e permanecer ali durante toda a viagem. Ambos são interpretados por Márcio Vito. Caco Ciocler também faz uma breve participação vocal, como alguém que entrevista os dois personagens.
Trata-se, portanto, de um diálogo intermediado pela câmera ao longo de todo o filme, com apenas algumas intervenções pontuais — justamente os momentos em que o olhar do diretor se torna mais evidente na condução da narrativa, sobretudo em seu desfecho, que busca alcançar uma dimensão poética e filosófica. E consegue, ainda que de maneira algo superficial.
Não há dúvidas sobre a existência de uma forte polarização política no país, tampouco sobre a crescente dificuldade do brasileiro em acessar, ouvir e aceitar o contraditório. Talvez esse seja um fenômeno global, impulsionado pelas dinâmicas das redes sociais e pelas novas formas de comunicação. Talvez reflita também uma lógica contemporânea marcada por bolhas de validação mútua e por uma relação cada vez mais agressiva com a divergência. Tudo isso é real; o equívoco está em imaginar que essa disputa se limita a uma simples oposição entre direita e esquerda.
Não se pode afirmar que Caco Ciocler ignore essa questão, já que, sob uma observação mais cuidadosa, seu filme apresenta a incomunicabilidade entre um apoiador de Jair Bolsonaro e um homem que, sob o crivo das redes sociais, dificilmente seria classificado como um sujeito de esquerda. Há riqueza nisso, e poderia render mais se a geometria tivesse mais dimensões. Não sendo o caso, esse é o risco de optar por uma estética baseada na polarização: ao simplificar o conflito, corre-se o perigo de reduzir também a complexidade da realidade.

Uma longa estrada
Dessa forma, sem que o roteiro consiga sustentar plenamente o interesse, resta ao filme a atuação profundamente comprometida de Márcio Vito. Como já mencionado, ele interpreta os dois personagens e entrega, por meio do tom de voz, dos olhares e dos gestos, aquilo que o texto parece incapaz de alcançar por conta própria. É nesse ponto que o filme encontra sua força: na capacidade de despertar a percepção de que existe, em cada adversário — político ou não —, outro ser humano.
Temos aqui um vasto território a ser explorado, mas que acaba se revelando, ao final, apenas como uma pergunta interessante — uma pergunta que encerra o filme, quando talvez devesse abri-lo. Permanecem adiante, na estrada, outras questões ainda mais urgentes e talvez mais instigantes, às quais a narrativa nunca chega. E, quando chegamos a algum lugar, fica a sensação de que a viagem deveria ter sido mais curta. Demos voltas e voltas e, se estamos perdidos, talvez não seja aqui que encontraremos as melhores respostas — nem mesmo as melhores perguntas.
Como curta-metragem, talvez a proposta encontrasse uma forma mais adequada para suas ideias.

Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira, Márcio Vito
Fotografia: André Faccioli
Elenco: Márcio Vito
