O Riso e a Faca

Fiz meu berço na viração / Eu só descanso na tempestade / Só adormeço no furacão.” Uma leitura recorrente da canção “O Riso e a Faca, de Tom Zé, é a de que ela explora, de forma direta, a convivência de forças opostas dentro de cada indivíduo.

É curioso perceber uma transposição quase imediata desse tema para o longa homônimo de Pedro Pinho, diretor e roteirista português, que realiza aqui um ensaio ao mesmo tempo investigativo e incômodo sobre o que parece ser uma crise da intelectualidade europeia. Diante do avanço de políticas antimigratórias e da permanência de estruturas neocoloniais, o filme olha para um presente assombrado pelo passado e enxerga sujeitos à deriva, incapazes de alterar o rumo de um processo histórico exploratório que, no fundo, também os constitui enquanto pessoas.

Trata-se de um processo intelectual que já abordei em minha recente crítica a “O Estrangeiro”, nova adaptação do livro de Albert Camus, publicada neste site dias atrás. Muito do que identifiquei ali também aparece aqui, mas realizado com mais calma, maior autoconsciência e, acima de tudo, com mais arte — em especial por conta do elenco e, sobretudo, de Cleo Diára, vencedora do prêmio de Melhor Atriz na mostra Un Certain Regard.

Dimensões e percepções

A narrativa acompanha a chegada de Sérgio (Sérgio Coragem), um engenheiro ambiental que desembarca na Guiné-Bissau para avaliar a construção de uma estrada e seu impacto sobre as comunidades que a receberão. Ele vem substituir Leonardo, desaparecido após ser demitido da função, e esse sumiço passa a traumatizar gradativamente o novo profissional. Paralelamente, envolve-se com Diára e Guilherme, ao mesmo tempo em que inicia uma investigação informal para descobrir o destino de seu antecessor.

A posição de deslocamento do protagonista se aproxima da do realizador e transborda para a câmera, que não deixa de assumir um olhar voltado ao exotismo, ao estranhamento e também ao potencial libertador do encontro com uma cultura distinta, dilapidada por anos de assédio colonial e, ainda assim, vibrante e rica. É quase uma versão nacional e etnográfica do tropo da “Manic Pixie Dream Girl”, agora expandido para uma nação inteira, capaz de, por meio de sua cultura, reapresentar o mundo real ao colonizador branco.

Mas é difícil encontrar, no filme, a linha clara entre a exposição dessa armadilha e a sua própria reprodução. O fato de se tratar de uma coprodução, com parte da equipe e do elenco formada por brasileiros, além de nomes da Guiné-Bissau, de Cabo Verde e de outras nacionalidades, permite que outros olhares se incorporem à narrativa. Não bato o martelo sobre se isso basta, do ponto de vista crítico e filosófico, mas há, sem dúvida, uma tentativa.

Há um momento, em especial, em que vozes brasileiras ganham relevo: o personagem Guilherme, vivido por Jonathan Guilherme, que no Brasil seria imediatamente reconhecido como negro, é chamado de branco por um morador local e comparado ao português. A questão retorna mais adiante, em um diálogo brilhante no qual o protagonista se vê abalado ao estar com uma mulher paga para fazer sexo com ele por um colega de trabalho.

Algo como “você consegue ao menos se excitar sozinho?” soa como um recado duro a essa mentalidade condescendente da intelectualidade europeia, culminando em um golpe ainda mais incisivo: “tenho mais nojo de homens bons como você”. Não há descrição melhor que eu possa dar para a metáfora.

Um processo cinematográfico em curso

O método de Pedro Pinho para o cinema se aproxima mais de um ensaio escrito a várias mãos, um caminho feito de paradas e perguntas, menos interessado no ponto de chegada do que no modo como se chega até ele.

Um exemplo potente — e talvez o mais desafiador para o espectador médio, que infelizmente talvez não seja alcançado pelo filme — está na longa sequência da viagem do protagonista até a construção da estrada. Nela, um número expressivo de personagens é introduzido, conflitos surgem e se desenvolvem até que, de repente, tudo cessa.

O gesto, porém, não é gratuito: ele dialoga tanto com o próprio processo de produção quanto com o processo histórico no qual aqueles que passam logo deixam para trás os que permanecem. Em certo sentido, o próprio mistério da trama reside nisso.

Mas o brilho vai mesmo para Cleo Diára, especialmente porque sua personagem parece mover-se por diferentes posições dramáticas, sem jamais perder uma coerência realmente digna de prêmio. Se Sérgio representa a estagnação e a deriva, Diára encarna a força que existe em quem muito se transforma sem jamais perder aquilo que se é.

É justamente nessa oscilação-permanência que sua atuação parece ecoar a própria canção de Tom Zé que dá nome ao filme: uma composição construída sobre o choque entre extremos, entre a acidez e a delicadeza, entre a violência e a ternura. Diára incorpora esse jogo de opostos, retirando sua força justamente do caos, como se sua personagem existisse no mesmo paradoxo que move a música.

Vê-la em tela faz com que as mais de três horas do filme pareçam poucos minutos. Ainda bem para o filme.

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