O Estrangeiro

Indo direto ao ponto, “O Estrangeiro”, de François Ozon, é um filme que se perde. Preciso ser direto nisso, até porque não pretendo me delongar demais na discussão de uma obra que, em minha honesta opinião, sofre justamente por se delongar em excesso.

E é triste dizer isso, já que Ozon é um dos diretores mais corajosos em atividade. Seu cinema nunca se privou do risco: seja ao abordar a sexualidade sem amarras, como em “Jovem e Bela e Amante Duplo”, ao tratar com sensibilidade e dureza a pedofilia na Igreja Católica em “Graças a Deus”, ou mesmo ao se arriscar com o cinema de gênero em “Oito Mulheres”. Dono de uma carreira extremamente prolífica, com cerca de vinte longas-metragens no currículo, além de um vasto conjunto de curtas ficcionais e documentais, tratava-se de um cineasta aparentemente pronto para encarar um texto tão difícil quanto o clássico de Albert Camus.

E talvez tenha estado. Porque, quando falamos de adaptações de obras que carregam enorme responsabilidade simbólica e filosófica, a falha, por vezes, pode ser mais rica para o debate do que um acerto previsível.

A arrogância colonial de se dizer anti-colonial

Vivemos em um momento da história da arte — e da própria experiência humana — em que muito nos é exigido. Já não podemos alegar ignorância diante de posições deploráveis; e, quando as sustentamos, o mundo se encarrega de devolvê-las como espelho. Não espanta, portanto, que tenhamos atravessado décadas de ascensão do autoritarismo — sobretudo o reacionário e de extrema direita —, pois para muitos é mais fácil assumir o próprio barbarismo do que se adequar a um tempo que nos confronta, incessantemente, com nossos erros individuais e coletivos.

É também mais confortável operar a arte dentro do espectro do “politicamente incorreto”, esse território em que se abrigam os canalhas — ou, neste caso, os autores mortos —, aos quais concedemos a benevolência de “serem fruto de seu tempo”. O Estrangeiro, de Albert Camus, é uma obra atravessada pela lógica colonial e, à luz da sensibilidade contemporânea, também por suas implicações raciais. Adaptá-la exige, portanto, uma consciência muito clara de como lidar com esse legado.

François Ozon não escolhe o caminho mais fácil de ignorar essa questão. Em vez disso, opta por outra saída igualmente confortável: inserir “antídotos” ao colonialismo, sinais tão ostensivos que por vezes gritam mais alto do que a própria trama. O problema é que, ao tentar estabelecer um diálogo corretivo com a obra, o filme transforma essa relação em um cabo de guerra que acaba perdendo. No fim, a tentativa de polir e atualizar o texto esbarra na potência que o próprio romance já carrega, fazendo com que a intervenção contemporânea pareça menor do que a força bruta do original.

Não por acaso, o filme tem sido amplamente elogiado em nações que outrora foram potências coloniais. Pede desculpas pelo erro, acena como se tudo estivesse resolvido e segue em frente com as benesses do mal que provocou: essa é, em alguma medida, a própria história do colonialismo. François Ozon decide se posicionar justamente nesse contraponto contemporâneo, que busca refutar esse legado, em uma tentativa de construir um filme de viés decolonial.

Uma lição sobre as lutas que escolhemos lutar

Para superar Camus — isso que fica em jogo, preciso repetir —,Ozon opta por uma lógica de deslocamento em relação ao romance. A primeira frase é reescrita. Meursault já não diz mais: “Minha mãe morreu hoje, ou talvez ontem, não sei.” Em vez disso, antes mesmo de o filme propriamente começar, ouvimos: “Matei um árabe.” Da mesma forma, a versão de Ozon se encerra junto ao túmulo do morto e o encerramento é embalado por “Killing an Arab”, do The Cure.

Apesar disso, há algo que destoa: o filme mantém a face mais perfeita do cinema realista francês. Com Benjamin Voisin no papel de Meursault, esta obra em preto e branco oferece uma releitura estética do clássico de 1942. É preciso admitir e destacar a qualidade visual da fotografia e, sobretudo, a atuação de Voisin, filmado como um modelo em uma propaganda de luxo. É perfeitamente possível, claro, apreciar a primeira metade do filme, especialmente pela ousadia de Ozon em confiar na imagem e no silêncio, construindo uma obra quase muda durante um longo período. No entanto, a segunda parte — a prisão, o tribunal — é onde o filme se perde de vez, não apenas em conceito, mas também em ritmo e espírito. É nesse momento que nos afastamos da beleza hipnótica da primeira metade e passamos a reencontrar todos os defeitos que havíamos escolhido ignorar.

No fim, fica um gosto amargo na boca, fruto da percepção de que Ozon escolheu uma luta maior do que poderia vencer. É bonito vê-lo tentar, mas nada há de prazeroso em assistir à falha que se segue. Nessa queda de braço, Camus ainda vence.

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