A Voz de Deus

Já faz décadas que se vaticina que os cristãos evangélicos se tornariam maioria religiosa no Brasil. Com o crescimento expressivo de denominações neopentecostais a partir do final dos anos 1980, somado à construção de impérios midiáticos, instituições financeiras e lobbies políticos, levou algum tempo até que a elite cultural do país voltasse seus olhos para essa massa de pessoas que encontra, em sua subcultura, não só uma expressão de fé, mas uma cosmovisão capaz de orientar toda a vida.

Foi apenas com a surpresa — absolutamente indesculpável — da eleição de Jair Bolsonaro em 2018, seguida por suas sucessivas atitudes durante a pandemia de Covid-19 e, posteriormente, pela tentativa de golpe, que essa atenção se consolidou. Ainda que tardio — e apesar de dados do IBGE indicarem uma desaceleração no crescimento evangélico —, esse interesse finalmente alcança o cinema. Em menos de um ano, este é o terceiro documentário a buscar compreender esse grupo. Entre os anteriores, destacam-se “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, e “No Céu da Pátria Nesse Instante”, de Sandra Kogut.

Considerando essas obras e seus diferentes momentos de lançamento e circulação, é possível perceber um movimento que vai do político em direção a um núcleo mais íntimo, ainda que sempre atravessado por um olhar antropológico — externo, voltado a não iniciados. Não é possível afirmar qual é a relação pessoal de seus realizadores com a comunidade evangélica, mas é possível observar o tipo de abordagem que seus filmes constroem.

Em vez de tratar o fenômeno religioso a partir de uma liderança político-midiática — como no caso de Silas Malafaia no filme de Petra Costa — ou de acompanhar uma família profundamente atravessada pelo ambiente político recente, para a qual a religião opera como mais um elemento de um campo ideológico mais amplo — como em Sandra Kogut —, A Voz de Deus desloca o foco. O documentário, que estreia esta semana, acompanha a transição geracional entre dois pregadores mirins — termo utilizado para designar crianças que, desde muito cedo, assumem funções de pregação em igrejas, dirigindo-se a públicos que vão de outras crianças a grandes congregações. Trata-se de um processo que, em muitos aspectos, se aproxima da formação de artistas que iniciam suas carreiras ainda na infância, seja no cinema ou na televisão.

 Mudanças na vida e na fé entre o analógico e o digital

O fato de que os dois protagonistas viveram suas trajetórias em momentos distintos das últimas duas décadas é um dos grandes achados do filme — e isso se reflete diretamente na forma. Em vez de segmentar suas histórias, A Voz de Deus aposta em uma construção paralela, alternando constantemente entre os dois personagens por meio de uma montagem eficiente. A escolha cria um fluxo dinâmico e, ao mesmo tempo, exige atenção do espectador, que precisa identificar as linhas separam trajetórias que, à primeira vista, pareceriam semelhantes.

De um lado está Daniel Pentecoste, ex-pregador mirim que já figurou entre os mais conhecidos do país e que hoje lida com o peso de um futuro incerto à medida que amadurece. Do outro, João Vitor, vivendo o auge da popularidade, acumulando seguidores e transformando sua fé em conteúdo para uma audiência constante — e também em negócio, já que o alcance digital permite a realização de publis para marcas e comércios, ao mesmo tempo em que grava suas pregações diretamente pelo celular.

O filme acerta ao não tratar essas trajetórias como opostas, mas como manifestações distintas de uma mesma realidade em transformação. Assim, quando acompanhamos as dificuldades enfrentadas por Daniel na vida adulta — empregos instáveis, mudanças de cidade, criação dos filhos e conflitos políticos familiares —, elas surgem quase como um prenúncio das possíveis tensões que aguardam João Vitor no futuro.

Mesmo que se considere que o filme adota um olhar distanciado em relação a seu objeto — prática comum a certa tradição antropológica que, por vezes, exotiza mais do que compreende — e que, por isso, se limite a um recorte específico da realidade, essa perspectiva ainda assim aciona um alerta incontornável. Em um momento em que se discutem a adultização de crianças e sua exposição nas redes, “A Voz de Deus” toca em um nervo sensível ao observar a formação precoce de subjetividades dentro de estruturas religiosas altamente organizadas.

O desfecho do filme é particularmente eloquente. Após acompanharmos os efeitos que a vida pública e a exposição constante tiveram sobre Daniel, vemos João Vitor em um longo plano-sequência, equilibrando-se sobre um touro mecânico. A imagem, aparentemente lúdica, ganha outra dimensão: não se trata apenas de uma brincadeira, mas de um corpo infantil tentando se sustentar em meio a forças que o excedem.

Arrisco e assumo aqui uma associação, para mim inevitável, com a cena final de “Mignonnes”, filme carregado de polêmicas de Maïmouna Doucouré. Antes de toda a questão que cercou o filme, uma de suas imagens finais já sintetizava seu gesto crítico: após uma sucessão de cenas incômodas, as meninas voltam a brincar de pular corda, enquanto a câmera se eleva, recusando o olhar que antes as objetificava. Ali, o dispositivo cinematográfico parece reconhecer sua própria violência e, de algum modo, tentar se retratar.

Em “A Voz de Deus”, a sensação é oposta. Quando a câmera insiste em João Vitor tentando se manter sobre o touro, apesar dos solavancos, o que emerge não é uma liberação, mas um pressentimento. O enquadramento carrega um olhar triste, quase impotente, diante do risco que se anuncia: o de uma criança que aprende, cedo demais, a se equilibrar sobre responsabilidades que não deveria carregar. O corte seco, sem resolução, soa menos como conclusão e mais como um suspiro, como se fosse contido e resignado.

Mais uma peça de um complicado quebra-cabeça

 Ainda que não consiga — e certamente nem se proponha a — explicar toda a influência da ascensão protestante no cenário cultural e político do Brasil contemporâneo, o longa de Miguel Antunes Ramos constrói, ao longo de cinco anos de acompanhamento de seus personagens e suas famílias, um retrato que é ao mesmo tempo presente e projeção de futuro.

Compreender o Brasil, no entanto, permanece uma tarefa mais ampla e complexa. Há, aqui, um olhar que por vezes recorre ao exotismo ao observar o universo evangélico — apenas uma entre várias forças que moldam essa transformação. Famílias lideradas por mulheres de classe média, quase sempre em tripla jornada e exaustas, ou homens formados sob a expectativa de exercer autoridade e hoje em desalinho com essa realidade, são outras faces desse mesmo processo — ainda pouco exploradas por obras como esta.

Ainda assim, há valor no gesto de observar. Em um cenário que tantas vezes se move sem mediação ou reflexão, talvez já seja significativo que alguém esteja, ao menos, tentando olhar.

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