Zico, O Samurai de Quintino

É ano de Copa do Mundo, e mesmo aqueles mais alheios ao futebol dificilmente escaparão de certa emoção em torno do esporte mais popular do planeta. É o meu caso: embora não acompanhe o futebol há quase uma década, ainda me vejo sabendo ao menos os nomes dos jogadores que dominam o noticiário, seja por seu talento e trajetória dentro de campo, seja por aspectos que extrapolam as quatro linhas.

Cada época tem alguns desses nomes inescapáveis — hoje, Neymar Jr. ou Kylian Mbappé; ontem, Ronaldinho Gaúcho, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Se voltarmos ainda mais no tempo, surgem outros nomes incontornáveis: Pelé, Mário Zagallo, Garrincha e, neste caso, Zico.

Contar a história de qualquer um desses nomes, muitas vezes idolatrados por sua torcida, exige atenção e reverência, mas também um cuidado especial para tensionar narrativas amplamente cristalizadas no senso comum, evitando as armadilhas tanto do polemismo quanto de uma abordagem panfletária.

Menos biografia, mais estudo de caso

Zico

Isso, normalmente, porque algumas obras, mesmo tomadas por certo “chapa-branquismo”, ainda conseguem emocionar, ainda que pouco relevantes do ponto de vista histórico.

O documentário “Zico, o Samurai de Quintino” se sustenta entre essas duas pontas, funcionando tanto como uma reportagem de luxo quanto como uma homenagem ao homem que, ainda em vida, pode ver seu legado valorizado por aqueles que inspirou e pelas memórias que despertou na torcida. Dirigido por João Wainer, o projeto busca um olhar amplo, ainda que por vezes superficial, sobre o início da carreira do jogador, ganhando mais força ao se debruçar sobre sua passagem pelo Japão, ao evidenciar sua importância para a profissionalização do futebol naquela região — um legado perceptível até hoje.

Menos interessado em uma biografia tradicional e mais concentrado na experiência do atleta ao se transferir para o Japão, quando muitos viam essa decisão como loucura, o longa também constrói, de maneira sutil, uma homenagem ao chamado “futebol-arte”, estilo pelo qual a seleção brasileira se tornou conhecida em um tempo em que o profissionalismo do futebol europeu ainda não havia imposto ao futebol nacional a tentativa de importar métodos estranhos à nossa tradição.

Uma obra que inspira a inspiração

Focado em entrevistas e imagens de arquivo, pode-se dizer que o filme aborda de maneira clara a trajetória de Zico: a eliminação na Copa de 1982, a lesão causada por Márcio Nunes no jogo entre Bangu  e Flamengo, em 1985, e o peso do pênalti perdido contra a França em 86. Soma-se a isso a relação de Zico com sua família e com os companheiros do esporte, tratando tanto dos desafios dentro de campo quanto da tentativa de conciliação com a vida comum, muitas vezes sacrificada. Tudo isso está lá, formalmente.

Mas os momentos que mais inspiram são aqueles em que a narrrativa de volta ao Japão, jogando como quem ainda se diverte e sendo lembrado como “sensei” por jogadores que eram jovens iniciantes quando o conheceram nos campos nipônicos. Muito se falou, à época, sobre os motivos que levaram Zico ao Japão. O documentário deixa claro que não se tratava apenas de salário, embora as más línguas sugerissem que ele buscava evitar a competição, migrando para um mercado em que facilmente seria o melhor.

Sem afirmar isso de maneira direta, mas por meio de sua construção cinematográfica, o filme parece abrir espaço para outra hipótese: a de que o craque brasileiro foi até lá para resguardar algo que o futebol brasileiro perderia com o tempo — a graça, a vontade de jogar por amor e prazer.

Talvez seja uma leitura ampla demais. Mas talvez seja exatamente disso que os amantes do futebol precisem hoje.

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