Exit 8
Há um pensamento recorrente quando se trata da análise de obras baseadas em videogames: o de que as mais propícias à adaptação seriam justamente aquelas de vocação mais narrativa. Fala-se, quase sempre, da transposição dessas obras para o cinema a partir de seu enredo e de sua potência dramática, não raras vezes relegando a segundo plano os aspectos não narrativos da experiência. Penso ser um erro, já que o próprio cinema não se sustenta apenas pela narrativa, mas também pelo simbólico e pelo sensível. E talvez seja justamente ao abraçar essa natureza que as adaptações de games possam encontrar sua maior força.
Pense e responda para si mesmo: quantas vezes já sofremos ao assistir a adaptações de games? E há quanto tempo deixamos de perceber esse tipo de obra como verdadeiras atrocidades? Pode parecer uma pergunta sem propósito para abrir uma crítica, já que o papel do crítico é se debruçar sobre uma obra específica e, a partir dela, construir sua argumentação — e não discorrer sobre todo um gênero, tarefa ao mesmo tempo exaustiva e impossível no formato de um texto de blog.
Mas há, nesta obra, uma natureza cíclica particular que me pareceu convidar precisamente a essa reflexão.
Um belo caminho dos games para a tela grande
Na trama, um cidadão comum, vivido por Kazunari Ninomiya, segue para mais um dia de trabalho quando recebe, no metrô, uma ligação da namorada com a notícia de que ela está grávida. Ao tentar encontrar um lugar onde o celular tenha melhor sinal para continuar a delicada conversa, o protagonista acaba em um corredor aparentemente comum da estação. É aí que a engrenagem do filme se revela: para sair daquele espaço, ele precisará atravessar oito níveis de um estranho e doentio jogo que burla as regras da realidade. Se conseguir, encontrará a saída número 8, símbolo da liberdade. Se falhar, permanecerá preso para sempre.
Genki Kawamura, diretor do filme, assina aqui uma de suas obras mais curiosas como realizador e também como roteirista. Conhecido por sua trajetória como produtor, foi responsável por títulos de grande repercussão como “Your Name“, “Weathering with You”, ambos de Makoto Shinkai, além de “Monster“.

Quase um ano depois de sua exibição na mostra Midnight Screenings do Festival de Cannes, “Exit 8“ finalmente chega aos cinemas brasileiros. O longa adapta o game homônimo lançado em 2023 pela desenvolvedora independente Kotake Create, um sucesso viral que transformou a simplicidade de um corredor infinito em uma experiência de tensão psicológica.
Feito com baixo orçamento e trazendo muitos dos traços do cinema de horror japonês, mas sem pesar a mão e buscando um público mais amplo, o filme se abre com uma longa sequência em primeira pessoa, levando-nos a acreditar que, talvez, toda a experiência se desenrolaria nesse formato. Não é o caso. Logo após prestar homenagem ao material original, o longa se reposiciona no terreno do cinema tradicional, com a câmera acompanhando seus personagens e permitindo que observemos a ação de fora — movimento que, a meu ver, demonstra que Kawamura compreende com clareza que adaptar não significa reproduzir, mas traduzir.
A partir daí, o filme engrena, apresentando as regras daquele mundo e, pouco a pouco, revelando seus personagens e os caminhos que os levaram até ali.
O pecado de não radicalizar
Mas falta alguma segurança. Já na metade da projeção, o filme passa a buscar saídas fáceis — e falhas — para conferir maior profundidade à trama e aos personagens, recorrendo a arcos dramáticos que, sendo muito sincero, soam desnecessários.
Seu maior acerto talvez tivesse sido tornar tudo ainda mais radical, ainda mais monótono, ainda mais desesperador, à moda de um bom videogame que sabe frustrar o jogador o bastante para impeli-lo à superação, mas não a ponto de fazê-lo desistir.
Normalmente, a semelhança evidente entre um filme e o videogame que o inspirou resulta em uma inércia fatal ou em um déficit imaginativo. Aqui, porém, essa semelhança deveria ser justamente o objetivo.
Todos esses assalariados que usam o metrô acreditam no jogo da vida: repetem os mesmos gestos todos os dias, completam os níveis de suas carreiras profissionais, confiando que as regras, embora diabolicamente difíceis, são justas em seus próprios termos.
Mas o filme não precisava ser mais do que isso — e talvez pudesse ter aprendido precisamente essa lição com o jogo que lhe deu origem.
Repete-se o ciclo. Vamos tentar melhor na próxima.
