Um filme, assim como todos os significados que nós seres humanos produzimos, é, nas palavras de Mikhail Bakhtin, inerentemente polifônico. Ou seja: ele reverbera vozes de outras obras artísticas que já conhecemos, permitindo com isso que essas obras de referência falem de novo, ou falem coisas novas, a partir do que estamos assistindo. Isso aconteceu quando assisti a Naza, dirigido e roteirizado por Yuval Abraham e Rachel Szor. Em segundo plano, permaneceu em minha memória o episódio Engenharia Reversa (2016) da conceituada série Black Mirror, disponível na Netflix. Recomendo que o espectador assista ao episódio antes de ir ao cinema.

Evidentemente, há diferenças estruturais entre as duas obras. A principal delas é que Engenharia Reversa é uma ficção distópica. Naza é, tragicamente, um documentário sobre as formas como os soldados israelenses, sob ordens superiores, já mataram e matam milhares de pessoas sob o pretexto de eliminar os membros do grupo Hamas. Mas as semelhanças entre as obras são inúmeras, e observá-las em algum detalhe nos ajuda a reconhecer o que Naza traz de novo como discussão filosófica e sociológica contemporânea, a partir dos depoimentos sobre o que os militares sentiram (e não sentiram) ao bombardear a Faixa de Gaza e matar milhares de pessoas como se estivessem num videogame.

Em termos de forma cinematográfica, Naza não oferece muito. Entretanto, talvez isso não seja muito ruim. A ausência de inventividade estética pode ajudar o filme no sentido de que, libertos de distrações visuais, em muitos momentos imersos na quase completa escuridão, recebendo como estímulo perceptual apenas as vozes (alteradas digitalmente) dos militares, recebamos mais contundentemente ainda o que já é horroroso em si.

Um pouco sobre o Engenharia Reversa (com spoilers, então assista antes)

A série Black Mirror se propõe a articular a criação de artefatos tecnológicos, existentes ou apenas imaginados, às consequências morais e éticas de seu uso para resolver problemas pessoais e coletivos. No caso de Engenharia Reversa, o contexto é o de uma guerra infinita entre uma determinada humanidade e seres que ela considera inferiores em função de sua genética.

Em virtude do fato de que essa genética nem sempre representa diferenças visíveis entre os considerados “normais” e os “anormais”, inventou-se um mecanismo que faz com que os soldados em campo de batalha vejam, em vez de seres humanos, criaturas fisicamente alteradas que eles denominam “baratas”. Isso lhes permite matar em larga escala e sem remorso pessoas que são como eles, mas que não cabem no modelo definido agora por novos critérios que não os da aparência, com o apoio da ciência.

A trama começa quando o artefato implantado que faz os soldados enxergarem outros seres humanos como se fossem baratas passa a poder ser neutralizado com um dispositivo que as “baratas” produziram por engenharia reversa a partir do mecanismo que os soldados trazem no cérebro. Um deles, chamado Stripe (Malachi Kirby), após uma ação em que matou duas baratas, é atingido por ela e começa a enxergar o que de fato aqueles seres são: pessoas como ele.

Porém, a ideia de enxergar em Black Mirror nunca é trivial. Em virtude disso, o implante instalado na cabeça dos soldados não apenas muda a aparência de certas pessoas. Produz também novas realidades, que fazem os soldados acreditarem que vivem uma outra vida, e mantêm outras relações que não aquelas que mantinham antes de ingressar das Forças Armadas. Essa outra vida necessariamente é de prazer, e isso é um motivador para que eles sigam fazendo o que fazem.

Para haver ódio, é preciso haver um corpo percebido

Um dado interessante que Engenharia Reversa traz para nossa reflexão é a importância essencial do corpo para a produção de preconceitos e ódio. No episódio, como o novo fator de discriminação e exclusão não era mais visível, encontrou-se uma maneira de isso ser tornado realidade física. Esse detalhe evidencia como o corpo tornado diferente é fonte de reações e paranoias de todo tipo.

Ora, os corpos reais das “baratas” não traziam nada que incitasse o desejo de morte dos soldados. Então, criou-se uma dimensão holográfica intermediária entre eles e seus alvos/vítimas. A visualidade dessa dimensão é a de um videogame. Isso permitia que os soldados se sentissem numa realidade projetada, e, dentro dela, as “baratas” eram reais.

É interessante esse deslocamento de espaço que o universo do videogame, principalmente nos jogos mais avançados, promove. Jogando, a pessoa sabe que está numa dimensão não física, muito embora tudo ali dentro seja tão verossímil, robusto, quase concreto. Em Engenharia Reversa, surgindo entre a parafernália de imagens, aparecem as baratas. Confundir os universos de existência das coisas, sobretudo em meio ao stress e ao alto cortisol e adrenalina de uma batalha, é a coisa mais fácil de acontecer. Assim, matar se torna inócuo, porque não se sabe mais o que e onde se está matando. Ainda mais quando se é recompensado com experiências de prazer na noite após cada batalha.

Comparando as duas obras

Naza traz para a leitura de quem escuta os relatos dos soldados israelenses a confusão entre as dimensões do real que uma guerra de drones necessariamente provoca. Os militares que soltam mísseis e bombas observam os cenários de batalha como se estivessem jogando um videogame. Matar, destruir se torna parte da tarefa de passar para uma próxima fase. Chegando lá, eles usufruem do prazer da vitória de superar a fase anterior, sem qualquer problema de consciência pelas milhares vidas que subtraíram.

A ideia de estarem num videogame também é transposta para situações em que não há drones nem comandos remotos, mas sim a figura concreta do soldado no sentido, digamos, tradicional: de tocaia, fuzil na mão, esperando apenas que seu alvo se exponha para finalizar a missão. Porque os videogames “inspiraram” (na falta de palavra melhor) a ação vergonhosa, provinda da mente degenerada de algum genocida, de colocarem comida no ponto extremo de uma área aberta para que palestinos famintos fossem mortos por snipers ao tentar correr até lá para alcançar algum alimento.

Entretanto, Naza traz de novo, inclusive em relação a Engenharia Reversa e, na vida “real”, a muitos dos genocídios que a humanidade teve a desgraça de praticar e testemunhar, a ideia de que os corpos excluídos, os corpos que não deveriam mais existir, não representam mais nenhum incômodo. Não se precisa pensar mais em o que fazer com eles.

A indiferença como ingrediente principal na receita do fascismo

No livro “A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais”, o filósofo e psicanalista Vladmir Safatle propõe que, entre os fatores que levam os seres humanos a permitir a emergência do fascismo numa sociedade, há um sentimento humano muito mais importante que o ressentimento, como alguns autores defendem. Segundo Safatle, a indiferença em relação ao sofrimento de pessoas que estão excluídas das estruturas democráticas de sociedade leva à intensificação de segmentos cada vez mais extensos de sociedade para quem os direitos humanos e sociais são mínimos.

Contudo, a excessiva individualização neoliberal não permite que a empatia com o sofrimento alheio floresça. “Não vai ter sociedade para todo mundo”, diz Safatle. O fato de que, na estrutura neoliberal de um mundo em múltiplas crises, a parte incluída não se importa com a parte excluída é uma forma de essa situação nunca acabar.

Em Naza, Yuval Abraham e Rachel Szor parecem querem materializar essa indiferença em sua edição. Os diretores optam por alternar os depoimentos dos soldados, que narram episódios de massacre à distância de civis adultos e crianças (os Nazas do título) perpetrado com a desculpa de que era preciso eliminar membros do Hamas, com imagens dos prédios das vizinhanças de Tel Aviv, em que israelenses seguem suas vidas cotidianas como se nada estivesse acontecendo.

A exibição dessas cenas é repetitiva, o que enfraquece a mensagem, e bem pouco original. Por exemplo, durante o relato do massacre de palestinos famintos, os diretores mostram as pessoas comendo em seus apartamentos, refeições comuns, sem nenhum excesso. Uma leitura possível para isso poderia ser a de que, para os israelenses, a comida está facilmente disponível, tanto é que eles nem precisam comer bastante numa refeição, já que a próxima está garantida. Mas essa ideia se dilui diante do horror narrado pelas vozes na escuridão.

O problema do que fazer com os corpos genocidados

Mas a grande e poderosa ideia de Naza, que faz valer e muito uma ida ao cinema para aguentar ouvir como o governo israelense planejou e executa com sucesso o genocídio palestino, é o que tratamento dado aos corpos genocidados. Nesse sentido, vale novamente o cotejo com Engenharia Reversa.

Observe-se que o roteiro do episódio de Black Mirror enfatiza a ideia de como é importante haver uma sistematização de tratamento dos corpos cujas vidas as políticas de morte ceifaram. No episódio, havia o problema de os corpos das “baratas” não apresentarem diferenças perceptíveis em relação às “não-baratas”. Assim, criou-se um mecanismo para fazer os soldados ilusoriamente enxergarem corpos alterados, diferentes dos deles.

Sobre isso, preciso remeter ao genocídio perpetrado pelos nazistas em relação aos corpos que eles desejavam excluir da face da Terra. Entre outros, deficientes de toda sorte, gays, judeus. O filme Zona de Interesse (2023), de Jonathan Glazer, gira em torno das políticas públicas capazes de fazer com que os corpos abjetos fosse não apenas exterminados numa escala industrial, mas também fazer com que esses corpos desaparecessem da face da Terra com a máxima eficiência.

Um passo além de Auschwitz

Contudo, Naza deixa claro que o que fazer com os corpos dos palestinos genocidados não era um problema para o governo israelense. Após serem assassinados com as bombas jogadas pelos drones, eles ficam ali, insepultos, expostos para quem quiser ver.

Em seu trabalho, Vladimir Safatle também propôs uma razão para essa preocupação. Quem os assassinou sabe que ninguém os quer ver. Ninguém se importa. Todos são indiferentes à sua morte. Ninguém quer ir lá para testemunhá-los, fotografá-los. Assim como os soldados que cumprem as ordens de massacre, os não-palestinos estão em suas casas-bunkers. Sabem que os palestinos não podem revidar, porque ainda não inventaram seu dispositivo por engenharia reversa.

Diante do horror absoluto de Auschwitz, o filósofo Theodor Adorno definiu um norte ético para a humanidade: devemos sempre reconhecer em nossas ações se elas nos afastam ou nos aproximam dos atos que em conjunto compuseram aquilo que o nome Auschwitz representa na História do mundo. Nesse sentido, Naza se torna um documento histórico ao mostrar algo que Adorno, se constatasse isso, deslocaria seu parâmetro para a Palestina. Ao desprezar o povo palestino de forma absoluta, a ponto de sequer se preocupar com o que fazer com seus corpos, o governo israelense dá um passo além de Auschwitz. Não apenas reproduz o horror do campo, mas o eleva a uma dimensão que os nazistas não foram capazes de imaginar.

O mais irônico disso, e aqui eu uso esse termo num sentido meramente retórico, é a gente constatar qual é o país que foi capaz e teve a coragem de realizar esse feito.

Ficha técnica

Naza – Israel, 2026

Direção: Yuval Abraham, Rachel Szor
Roteiro: Yuval Abraham, Rachel Szor
Edição: Yuval Abraham, Rachel Szor, Harry Davies
Fotografia: Rachel Szor
Elenco: Yuval Abraham

Autor

Foto de Ana Flávia Gerhardt

Ana Flávia Gerhardt

A vida é muito curta pra gente passar por ela sem se divertir.

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