Às vezes, ao assistir a um filme, fazemos conexões com outros que fazem parte de um universo cinematográfico completamente diferente. Isso acontece porque uma obra, depois de criada, está sujeita a enriquecimentos temáticos e estéticos que emergem das leituras de quem a aprecia. Enquanto assistia ao lindíssimo Rose (2026), de Markus Schleinzer, aconteceu de eu me lembrar de O Diabo Veste Prada 2 (2026), de David Frankel. As semelhanças entre um filme de arte como Rose e um filme comercial como O Diabo Veste Prada 2, por incrível que pareça, são inúmeras.

Mas há um ponto específico que me interessa. O Diabo Veste Prada tem o cuidado de ser um filme sobre mulheres que traz reflexões sofisticadas sobre empoderamento feminino que só na contemporaneidade conseguimos reunir elementos conceituais para definir. Destaca-se a ideia de que as possibilidades de uma real potência feminina diminuem bastante quando essa potência é construída sobre uma base financeira masculina. Em outras palavras: o que nos é dado (particularmente por homens) pode ser tirado a qualquer momento, e é o que de fato ocorre no filme.

Rose e Suzanna

Em Rose, assim como em O Diabo Veste Prada 2, essa descoberta também é feita pelas personagens. Contudo, na Alemanha do século 17, a ideia de que tudo o que as mulheres quiserem precisa ser dado por homens é uma verdade muito mais institucionalizada do que é na Nova York da terceira década do século 21. Essa questão é o eixo de Rose, e, num tempo em que estamos vendo o risco de perdas de direitos de pessoas subalternizadas em todo o mundo, ela se torna absolutamente central e relevante.

Um filme de época com duas questões contemporâneas

Tratar de uma questão contemporânea torna Rose um filme diferenciado. Digo isso porque esta questão vem empacotada num cenário absolutamente estranho a ela, em termos cronológicos. Por cenário quero significar não apenas o entorno espácio-temporal em que a história se desenrola, mas também o universo de pensamento dos personagens.

Todos são pessoas inseridas no campo de pensabilidade de seu tempo. Inclusive a protagonista: quando perguntada sobre por que razão tomou determinadas decisões em sua vida, ela dá uma resposta que passa longe de qualquer teoria social. Isso é bem diferente e bem melhor, por exemplo, do que o equivocado Entre mulheres, de Sarah Polley (2022), um filme de época que mais parece uma aula de curso de pós-graduação em Teoria Feminista.

Rose atirando

Já que a exposição do tema e seus problemas e argumentações não pode ser feita pelos personagens, eles acabam atravessando o enredo e as atuações. E é aí que entram as atuações da colossal Sandra Hüller, como Rose, e Caro Braun, como Suzanna. A dinâmica entre as duas constrói a primeira grande pergunta do filme: e se as mulheres fossem livres e sua potência pudesse se concretizar? Nessa mesma dinâmica também está uma pergunta secundária que decorre necessariamente da primeira: quais são as condições de possibilidades para que essa liberdade e essa potência sejam realidade?

Rose questiona por que o ser humano é obrigado a correr riscos para ser livre e potente

Sabedora do imenso risco que corria no tempo em que vivia, mesmo assim Rose cumpriu o destino de todo ser humano, que é o de crescer, brilhar. Construiu condições para isso numa época e num lugar nos quais crescer e brilhar eram privilégios masculinos. E o confronto entre suas escolhas e a estrutura de mundo em que vivia faz emergir a segunda grande pergunta do filme: por que é tão ameaçador a um determinado mundo quando alguém se recusa a agir de acordo com suas regras?

Rose era, amplamente falando, o que hoje denominamos uma travesti. Por força das circunstâncias ou por desejo, ou as duas coisas, Rose se tornou aquilo que a Deputada Erika Hilton denomina “corpo abjeto”: aquele a quem a sociedade tem ojeriza e deseja eliminar. Atuar como um corpo abjeto torna o trabalho de Sandra Hüller inesquecível, pela coragem em não incorporar maneirismos ou impostação vocal masculina, ou qualquer comportamento grosseiro e violento: a personagem resolve com inteligência as eventuais demandas por força física. Nesse sentido, o corpo de Rose se torna abjeto não por seu comportamento social, mas por uma estranheza provocada pela magnífica atuação de Hüller e sentida pelos que estão à sua volta.

Suzanne

O contexto mais amplo do filme também afirma o corpo de Rose como abjeto, na medida em que a ele se destina o que até hoje as mulheres vítimas da violência masculina padecem: o sofrimento com requintes, o assassinato com crueldade e agonia, a humilhação pública, o estupro como imposição de poder: “mostraram a mim quem mandava”, ela afirma, em algum momento.

Rose mostra que passado e presente podem se fundir numa mesma barbárie

É nesse e em outros pontos que Rose se mostra um filme contemporâneo, o que é horroroso constatar. É horrível constatar que o ser humano não aprendeu nada sobre como ser menos fascista. Em momento crucial do filme, Rose tenta lembrar às pessoas de seu convívio como as vidas delas melhoraram enquanto trabalhavam para ela (esse momento torna significativa a cena em que Rose divide o pão com os empregados na mesma mesa). Como elas receberam mais dinheiro, como tiveram educação, saúde. Não pude deixar de pensar que o mesmo se dá agora, no presente brasileiro: um presidente que melhora o salário, a saúde e a educação, mas muitos o odeiam porque ouviram dizer que ele quer subverter suas estruturas de mundo em termos de relações de gênero: “ele quer acabar com a família”, dizem.

Rose é mais um filme que mostra quão violentas as pessoas podem ser quando aparece alguém que quer subverter minimamente essa estrutura de mundo. Isso as torna tão violentas que sua reação é desmedida, desproporcional, como se estivessem sofrendo uma ameaça existencial. Mas, como Cinema, Rose cumpre essa tarefa com uma delicadeza estética que não nos desvia de seu foco, de seu querer dizer. A fotografia em preto e branco é bem uma evidência disso, na medida em que nos ajuda a desviar o foco da natureza exterior da narrativa, para focarmos na natureza das relações sociais e do comportamento dos personagens inseridos nelas.

Coroa

Essa capacidade de nos manter atentos a essas relações nos provoca uma profunda empatia por Rose e Suzanne. Vem, junto, a indignação por saber que ainda hoje, em 2026, há quem deseje que o mundo e as mulheres voltem a ser como essas duas mulheres da Alemanha ultraconservadora do pós-Primeira Guerra. E há, absurdo dos absurdos, quem vote nessas pessoas e as eleja. Porque até o que foi conquistado com o sacrifício de tantas vidas também pode ser perdido.


Ficha Técnica

Rose (2026) – Alemanha

Direção: Markus Schleinzer
Roteiro: Markus Schleinzer, Alexander Brom
Edição: Hansjörg Weißbrich
Fotografia: Gerald Kerkletz
Design de produção: Olivier Meidinger
Trilha sonora: Tara Nome Doyle
Elenco: Sandra Hüller, Caro Braun, Marisa Growaldt, Godehard Giese

Autor do artigo

Foto de Ana Flávia Gerhardt

Ana Flávia Gerhardt

A vida é muito curta pra gente passar por ela sem se divertir.

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