Faz sentido que a percepção de “Digger” seja mista e contraditória. O novo filme de Alejandro G. Iñárritu, estrelado por Tom Cruise, comporta uma obra capaz de receber os maiores elogios quando observada por aquilo que acerta na direção, mas também críticas duras quando vista sob a ótica daquilo que não tem coragem de enfrentar. Vale dizer, ainda, que a Warner Bros. — a mesma que tem usado as críticas mistas ao filme como estratégia de marketing, através do mote “Decida Você Mesmo” — fez uma longa campanha, inclusive junto aos críticos, para que as reviravoltas do filme permanecessem ocultas nas análises, como se fossem elas o coração da obra. Não são.

O coração do filme reside em outra verdade: incapaz de imaginar o fim do capitalismo, a obra prefere pensar no fim do mundo e, depois, transformar isso em um réquiem para a humanidade através da arte como epitáfio. E se a frase anterior soou pedante e pomposa demais para conter uma ideia tão simples, saiba que estamos apenas no clima do filme.

Uma sátira fácil

Na trama, acompanhamos um magnata do petróleo idoso chamado “Digger” Rockwell. A abertura do filme, carregada de uma teatralidade belíssima, logo é rompida pelo grotesco de Digger e sua gata à beira da morte. A teatralidade, porém, permanece à medida que as urgências daquela manhã vão se desdobrando, com personagens entrando e saindo de cena como se estivessem em uma peça de teatro. Até que o inconcebível acontece. A negligência de Digger para com os cientistas e especialistas de sua companhia permite que uma plataforma de gelo se desprenda de uma geleira, provocando um desastre de proporções globais.

Agora, ele precisa correr contra o tempo para provar que é o salvador da humanidade antes que o acidente ecológico cause estragos irreversíveis no planeta. É dessa ironia que a sátira tira seu combustível, com imenso brilho, é preciso dizer, graças à atuação poderosa de Tom Cruise. Sem ela — e sem a disposição do restante do elenco, também estrelado — tudo desmoronaria muito antes.

Na superfície, o filme de Iñárritu é uma crítica aos líderes e representantes de uma direita contemporânea marcada pelo autoritarismo, pelo negacionismo, pelo militarismo e pelo culto ao poder. Para isso, recorre a um exagero que remete a obras como “Não Olhe para Cima” e mesmo a clássicos como “O Grande Ditador” e, especialmente, “Dr. Strangelove” (1964), de Stanley Kubrick. O problema é que a tentativa soa pouco inspirada e suas referências são, muitas vezes, grosseiras.

Isso se justifica por uma segunda camada da trama, justamente aquela que a produtora parece tratar como o grande spoiler da obra. É ela que abre uma outra leitura, muito mais cínica e fatalista, menos interessada em ser um alerta e mais próxima, como disse na abertura, de um lamento. É como se o diretor estivesse representado no filme pelo cientista-chefe Ganesh (Riz Ahmed), alguém que compreende a dimensão do desastre enquanto observa os poderosos continuarem a agir como se ainda houvesse alguma possibilidade de controle, mas nunca com agência de mudar, sempre a mercê das marés.

É curioso que o personagem que carrega o nome do deus hindu protetor da sabedoria seja justamente quem diz, em dado momento do filme, com todas as letras, que perdemos a batalha contra as mudanças climáticas. Escrevo esta crítica enquanto os primeiros efeitos do maior El Niño da história já se fazem sentir na minha cidade, e há, portanto, alguma emoção pessoal envolvida nessa afirmação.

O réquiem depois do fim

Daí, ao meu ver, o motivo para tantas percepções mistas. Mesmo eu, como um espectador solitário, as tenho. Enquanto obra carregada de uma beleza grotesca, “Digger” enaltece a arte, especialmente sob a direção de um dos maiores e mais capazes artistas do audiovisual mundial contemporâneo, reunindo grandes artistas como fez em “Birdman”, embora de maneira mais acertada naquele filme.

Como crítica aos tipos representados por figuras como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Elon Musk e Javier Milei — encarnados, cada um à sua maneira, pelos personagens caricatos interpretados por John Goodman, Robert John Burke e Michael Stuhlbarg —, porém, o filme se perde. Aceita que eles passarão, mas levarão consigo nossas esperanças. Talvez tenham levado.

“Digger”, afinal, pode ser lido como “escavador”. Em inglês, a palavra ainda pode carregar um tom de reverência àquele que escava em busca de riquezas. O diretor parece ter tentado fazer o mesmo. Mas, em bom português, temos outra expressão que, em algumas circunstâncias, pode traduzir “digger”, ainda que de forma pejorativa: “toupeira”.

E talvez “toupeira” represente um pouco melhor tudo o que vemos em tela. Porque, diante de um mundo que parece terminar, talvez também sejamos nós as toupeiras se aceitarmos o fim tão apaticamente quanto eles nos venderam.

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Rafael Assis

Rafael Assis é escritor, poeta e redator, natural de Minas Gerais.

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