O Fim da Rua

Em um mundo pré-internet e streaming, nossas opções para ver filmes em casa eram ir a uma locadora ou assistir ao que passava na televisão. Nessa época surge a expressão “filme da Sessão da Tarde”, que eram histórias simples, geralmente envolvendo colegial americano, relações familiares, autodescoberta e temas correlatos. Em meio a viagens no tempo, aventuras dentro de livros ou torneios de Karatê, os filmes abordavam essas relações. O longa O Fim da Rua (2026), de David Robert Mitchell, tenta emular esse cenário.

Uma família em apuros em O Fim da Rua.
Uma família em apuros em O Fim da Rua.

O longa segue a fórmula clássica – de muitos filmes da Sessão da Tarde, inclusive – em que uma família prestes a se dissolver tem que lidar com um problema muito maior que eles. Como consequência, isso ajuda a ficarem unidos no fim do dia. No caso em questão, o grupo é formado pelo pai Greg Platt (Ewan McGregor), a mãe Denise Platt (Anne Hathaway) e os dois filhos Audrey Platt (Maisy Stella) e Brian Platt (Christian Convery).

Eles vivem nos anos 1980 e enfrentam dificuldades financeiras que são escondidas pelo pai. A mãe está escrevendo secretamente um livro que parece narrar sua vontade de fugir da própria família. Os filhos acabam absorvendo os conflitos dos pais e transformando em rebeldia ou introspecção. No meio disso, fenômenos estranhos começam a acontecer na vizinhança e culminam com um bairro quase inteiro sendo transportado para a época dos dinossauros. A família então busca uma forma de voltar para casa, enquanto sobrevivem às ameaças selvagens.

Na natureza selvagem

Acho que um dos diferenciais de O Fim da Rua é que os dinossauros realmente são selvagens. O tempo todo é uma correria para fugir de um tipo diferente que se arrasta, corre ou voa. Acredito que, diferente de algumas produções que deixam os animais mais “mansos”, se tornando até amigos ou possíveis mascotes da família, aqui eles são selvagens de verdade. Para os pré-históricos, é um banquete e tanto. Uma porção de humanos que não fazem ideia do que aconteceu para estarem ali, e nem sequer sabem dos perigos que estão à solta. São presas fáceis para os mais selvagens.

Muitos dos conflitos que aparecem aqui parecem ter sido extraídos diretamente de filmes de Steven Spielberg. Me lembrou muito a família de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), a relação dos protagonistas de Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993) – apesar de não ser uma família de sangue. Além, é claro, da ambientação na década de 1980 de filmes como E.T.: O Extraterrestre (1982). Acho que para os mais jovens, a relação talvez seja feita com o universo de Stranger Things (2016 – 2025) que, com seu sucesso, acabou reacendendo a nostalgia oitentista.

Corra que o dinossauro vem aí
Corra que o dinossauro vem aí

Falta de essência

Entretanto, O Fim da Rua peca em uma coisa que é essencial para o funcionamento da maioria dos títulos que citei acima: aprofundamento e envolvimento com os personagens. O que todos esses filmes têm em comum, é o interesse pelo humano. Os personagens são criados para nos aproximar do que eles são, de seus problemas e personalidade. Isso nos faz torcer pela sua sobrevivência ou que consiga sair com a garota para o baile no final. Fiquei pensando em títulos como Os Goonies (1985), de Richard Donner, que de forma muito eficiente em um tempo razoável, conseguia nos aproximar das peculiaridades dos personagens.

Contudo, as coisas não vão tão bem. O roteiro não consegue construir uma profundidade suficiente para nos aproximar dos protagonistas. O filme nos apresenta apenas o básico: um pai otimista e brincalhão e uma mãe mais centrada, mas não desenvolve suficientemente as peculiaridades de cada um.

A ferocidade do mundo selvagem que citei anteriormente, talvez tenha atrapalhado nesse sentido. Tudo fica tão apressado para fugir dos seres jurássicos — cenas muito bem dirigidas, devo dizer — que o filme não encontra espaço para se aproximar dos personagens, algo que acredito ser o que mais marcava os filmes da Sessão da Tarde. No início temos até um vislumbre de que isso irá acontecer, mas depois, vira apenas uma corrida pela sobrevivência.

Ewan McGregor e Anne Hathaway em perigo em O Fim da Rua.
Ewan McGregor e Anne Hathaway em perigo em O Fim da Rua.

Dedicação de humanos e pets

Devo destacar também que Ewan McGregor e Anne Hathaway fazem o melhor que podem para seu papel funcionar. Mas o roteiro parece não dar espaço suficiente para que eles mostrem o seu valor. O que é uma pena, pois os atores são famosos por se dedicarem bastante aos seus trabalhos. Achei interessante terem chamado o ator P.J. Byrne para interpretar o vizinho pentelho. Ele tem uma personalidade muito parecida com a que fez na série The Boys (2019 – 2026) como o cineasta e roteirista dos filmes dos heróis. Fiquei pensando que o produtor de O Fim da Rua deveria ter assistido à série e pensado que ele era o ideal para o papel. Ah, vale destacar a atuação do cachorro da família que é mais um elemento dos filmes vespertinos.

Apesar das tentativas, O Fim da Rua não consegue alcançar o nível de um “clássico da Sessão da Tarde”. Apesar de um início promissor, indicando os conflitos e principais caminhos a seguir, a produção perde em mostrar a ferocidade do mundo jurássico. Cenas de ação muito bem filmadas e a presença de excelentes atores não foram suficientes para sustentar o engajamento. Seria um filme adequado para as tardes de domingo em que você almoça em frente à TV, do que uma tarde após voltar da escola e está super atento a tudo. O que é uma pena.

 

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