Socorro!
Esta resenha traz spoilers do filme Socorro!, de Sam Raimi.
A luta de classes em modo (literalmente) raiz
A TV das últimas décadas traz os reality shows como uma inovação que, embora contenha muito de encenação e ficcionalização, revigorou o Cinema com obras notáveis em número significativo. Socorro!, do estadunidense Sam Raimi, disponível na Disney+, também bebe da fonte dos reality shows. Antes que se possa sugerir que esse formato vulgariza a linguagem cinematográfica, lembro pelo menos quatro filmes bem acima da média que se inspiram no formato: o pioneiro O Show de Truman (1988), de Peter Weir, o lindíssimo Honeyland (2019), de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, o espetacular Zona de Interesse (2023), de Jonathan Glazer, e o mais recente A Vizinha Perfeita (2025), de Geeta Gandbhir.
Em Socorro!, Raimi retorna às telas quatro anos depois de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, incorporando os reality shows, mais especificamente os de sobrevivência, não apenas como componentes da estrutura do filme. Esse tipo de programa é parte da narrativa e da construção da protagonista Linda Liddle (Rachel McAdams, excelente como sempre e a própria alma do filme; a notar, o sobrenome “Liddle” da personagem, que também pode significar “pequeno”), funcionária que sofre assédio moral na empresa onde trabalha. Nas folgas, porém, desenvolve conhecimentos sobre sobrevivência na selva para pleitear vaga em algum reality do gênero.

Isolada com Bradley Preston, o chefe herdeiro, abusador e incompetente (Dylan O´Brien), numa ilha deserta após um acidente de avião, Linda porá em prática o que aprendeu. Nesse meio tempo, ambos, ela e o chefe, entrarão numa peleja de gato-e-rato que se transforma numa verdadeira luta de classes. Raimi e os roteiristas Damian Shannon e Mark Swift escapam de toda e qualquer possibilidade de cair em clichês tão presentes em filmes de enredo semelhante, construindo uma narrativa dinâmica, enxuta e cheia de diversão.
O subgênero gore em sua versão mais divertida
Em Socorro!, Sam Raimi retorna ao subgênero gore que caracterizou Arraste-me para o Inferno (2009), novamente com grande eficiência e brilho. Agora, Raimi aprofunda o sentido de empregar o gore para reforçar a distância social e ética entre Linda e Bradley. Por exemplo, isso ocorre quando ela vomita o jantar diretamente em cima do rosto dele, como efeito de uma substância tóxica que ele coloca em sua comida. Ao assistir a isso, o espectador experimenta uma espécie de vingança contra todos os patrões que ocupam ilegitimamente seu lugar de privilégio.
O mesmo recurso em outras ocasiões é empregado para reforçar a resistência e resiliência da moça num ambiente hostil, que aos poucos se torna sua zona de conforto. Por outro lado, o contato de Bradley com coisas repugnantes apenas reitera sua total incapacidade de lidar com a situação em que se encontra.

O emprego do gore no sentido de valorizar Linda e desqualificar Bradley na ilha deserta é apenas um dos meios que Sam Raimi utiliza para definir a distância entre eles. Nesse sentido, há em Socorro! uma recusa à narrativa do casal que começa se odiando e depois se apaixona, ou àquela em que o mau caráter da relação se transforma moralmente ao longo da história. Não que em alguns instantes isso não pareça que vai acontecer. Mas, espertamente, Raimi não entrega o que esperamos. E só lhe agradecemos por isso.
Sam Raimi não acredita em Paulo Freire
Tampouco há em Socorro! uma ideia de que os personagens ali numa ilha deserta romperiam com a opressão que caracteriza o relacionamento deles no mundo supostamente civilizado. Nota-se, ao contrário, uma inversão de papeis, com Linda assumindo o lugar da opressora, que controla os espaços ocupados e a educação de Bradley. Não, há, portanto, a instauração de uma relação horizontal, desfazendo estruturalmente o poder verticalizado que Linda sofria no escritório. Não que ela eventualmente não compartilhe seu conhecimento com o chefe. Mas essa partilha é controlada a fim de que Bradley não conquiste nenhuma independência que lhe permita sair da ilha.
Mas há um motivo importante para que Linda prenda a ele e a si mesma por lá. A ilha deserta lhe deu potência e referendou seus saberes e sua coragem, como podemos constatar na espetacular cena da caça ao javali. Qualidades que, aliás, ela supunha que seriam utilizadas em um reality show, mas que acabaram sendo usadas na verdadeira “reality” mesmo.

Através de Linda, Sam Raimi homenageia a Joan Wilder de Kathleen Turner em Tudo por uma Esmeralda (1984), de Robert Zemeckis. Socorro!, assim como no filme de Zemeckis, traz a clássica cena da protagonista que, na floresta, põe a flor nos cabelos soltos e se revela bonita. Mas, diferentemente de Joan Wilder, que é admirada por seu futuro romance Jack Colton (Michael Douglas), Linda Liddle revela-se bonita para si mesma, sem a necessidade de aprovação ou admiração de seu companheiro de “estadia” na ilha. Se o chefe vai ou não se sentir atraído sexualmente pela nova Linda, isso se torna algo absolutamente dispensável.
Catarse em duas camadas
Socorro! já é um filme diferenciado por mostrar que o Cinema não precisa deixar de ser entretenimento quando opta por não adotar modelos narrativos estereotipados. Nem sequer a ideia clássica de herói é assumida pelo roteiro. A forma como a personagem Linda Liddle é construída e interpretada por Rachel McAdams faz com que torçamos pela personagem mesmo depois de descobrimos que ela é uma sociopata.
Concorre para isso o que eu afirmei acima: ao se ver isolada em uma ilha tendo um homem ferido para salvar, Linda não apenas descobre a própria potência como também se livra do peso daqueles de quem depende para fazer com que sua potência se materialize como sucesso social. Sem uma sociedade em torno de si, Linda não precisa provar nada para ninguém. E quem tentar impedi-la de viver o prazer dessa nova vida vai pagar caro por isso.

Sam Raimi constrói um filme acerca do embate entre herança e competência, entre poder e potência. Ganham os últimos, o que nos faz sentir ao longo do filme uma catarse em duas camadas. Na camada do enredo, as catarses de liberação das tensões entre personagens oponentes. Na camada da narrativa, a catarse de testemunharmos o mais fraco socialmente se tornando o mais forte. Num mundo de tanta injustiça, vale a pena de vez em quando experimentarmos essa possibilidade, nem que seja só na ficção.
Ficha Técnica

Direção: Sam Raimi
Roteiro: Damian Shannon, Mark Swift
Edição: Bob Murawski
Fotografia: Bill Pope
Design de Produção: Ian Gracie
Trilha Sonora: Danny Elfman
Elenco: Rachel McAdams, Dylan O´Brien, Edyll Ismail
