Cronologia da água imagem destacada

A Cronologia da água

As lembranças das coisas, quando nos vêm, surgem primeiro como flashes. Imagens em princípio desconectadas vão se articulando para formar alguma coisa que é mais ou menos o que pudemos guardar do passado, misturado a medos, desejos e fantasias. Essas lembranças são acionadas a partir do que nos acostumamos a chamar de “gatilhos”: imagens, falas ou fatos que despertam cenas de um passado que estava em algum canto empoeirado de nosso cérebro.

O belíssimo “A Cronologia da Água“, primeiro longa de Kristen Stewart, se constrói em grande medida com as lembranças engatilhadas pelas experiências da escritora Lidia Yuknavitch. A ideia de cronologia sugerida pelo título do filme não diz respeito ao que normalmente pensamos do termo. Essa cronologia é traçada pelas lembranças de Lidia e como elas se ajustam à sua vida como um todo.

cinzas a cronologia da água

Gosto imensamente de realizadores que buscam uma resolução visual para questões que desejam levar à tela. No caso de “A Cronologia da Água”, me parece que Stewart tinha como desafio manifestar imageticamente a ideia de gatilho, que hoje faz parte de nossos discursos cotidianos. A solução da montadora Olivia Neergaard-Holm para essa questão é tão eficiente que acaba nos educando ao longo do filme. Durante a projeção, vamos reconhecendo que os cortes de milissegundos que aparecem repentinamente no filme não são aleatórios. São o anúncio de que a situação vivida pela protagonista despertou gatilhos de vivências impactantes do passado.

O cérebro e os gatilhos

Em termos da materialidade cerebral, o que torna memoráveis algumas de nossas experiências é a produção de neurotransmissores que, digamos, solidificam as redes neurais que essas experiências formam. É interessante entender isso para a gente se dar conta de que o que passamos na vida, especialmente as experiências marcantes, transformam anatomia e a fisiologia de nosso cérebro. “A Cronologia da Água“, entre outros atributos, é um conjunto de recortes dessas vivências memoráveis do passado de Lidia Yuknavitch, boas e ruins. Mais ruins do que boas, é preciso dizer.

Ora, o cérebro grava fortemente tanto experiências boas quanto ruins. Contudo, sentimos que as experiências ruins superam em muito as boas em termos de como moldam nossas relações com o mundo. Ao resenhar o filme, o crítico Pablo Villaça lembra que traumas vividos em nosso passado têm tanto poder de nos inviabilizar para a vida, que chegamos a ser incapazes de nos relacionar com quem não vivenciou os mesmos sofrimentos que passamos.

parto Lidia

À fala de Villaça, acrescento que “A Cronologia da Água” mostra que muitas vezes nem a empatia de entes queridos é suficiente para viabilizar o relacionamento de pessoas traumatizadas com eles. Mas o contrário também acontece. Ter vivido as mesmas experiências também não é garantia de alguma empatia. Talvez só o perdão, num sentido amplo – perdoar a si mesmo, perdoar aos outros -, pode nos reconectar verdadeiramente a nossos semelhantes. Ao fim e ao cabo, Lidia Yuknavitch pode ter se dado conta disso.

Percursos paralelos que conduzem a transformações

Kristen Stewart desenha de forma precisa e integrada o percurso da personagem para chegar a essa condição de amadurecimento. Os gatilhos aparentemente aleatórios referem-se não apenas a episódios de violência e deslegitimação, mas também às duas práticas de transcendência e singularidade de Lidia, que são a natação e a escrita. Stewart confere a essas duas práticas uma série de valores e importâncias.

Fica muito evidente que a natação e a escrita vão se ressignificando à medida que a protagonista se torna adulta. Transformam-se, de válvulas de escape e fuga de uma adolescência sofrida e traumática, para uma forma de engajar-se e conectar-se à vida e às pessoas num sentido cada vez mais pleno. Isso é realmente belíssimo e emocionará o espectador que também aprendeu a se engajar em práticas de conexão vital, quaisquer que sejam elas.

A cronologia da água trilhos casal

Nesse sentido, A Cronologia da Água” se assemelha bastante ao igualmente belo “Pariah” (2011), de Dee Rees, que também narra o encontro da protagonista com sua própria potência através de sua escrita. Mas “A Cronologia da Água” vai mais longe, por ser mais do que um filme coming of age e por fazer dos saberes potentes da protagonista formas de legado ao mundo e a seus descendentes.

O que torna um filme uma Obra de Arte

Nesse sentido, ao abordar o gatilho como mote para a construção de sua narrativa de transformação pessoal, Stewart conta também com a atuação encantadora de Imogen Poots, que praticamente nos faz esquecer de pensar na diferença entre sua idade atual (36 anos) e as de sua personagem ao longo do filme. O passar dos anos se acompanha de seu amadurecimento sem o recurso a qualquer alteração visual mais estrutural por parte da atriz. Ao fim do filme, Poots inspira a certeza de que Lidia Yuknavitch é uma pessoa plena e não mais sujeita às ações que praticava na adolescência e início da vida adulta.

dia de sol no lago

Então observe o leitor que o filme caminha articulando metamorfoses em várias esferas. As mais notáveis estão na esfera da maturação e mudança de atitude da protagonista diante da vida e das pessoas, e na esfera da renovação completa de sua relação com a escrita e a água. Nesse sentido, o filme também, como um todo, opera uma metamorfose em seu próprio eixo. De um filme estruturado visualmente na ideia de gatilhos do passado, ele mesmo passa a produzir e oferecer gatilhos para que nós mesmos possamos pensar em nossas vivências, mesmo que não sejam tão violentas quanto as da protagonista, e em seu potencial de nos ampliar a reflexão sobre nós mesmos, nossas vidas e o mundo.

Filmes capazes de provocações como essa se chamam Obras de Arte.


Ficha Técnica
The Chronology of Water (2025) – Estados Unidos
Direção: Kristen Stewart
Roteiro: Kristen Stewart, Lidia Yuknavitch
Edição: Olivia Neergaard-Holm
Fotografia: Corey C. Waters
Design de Produção: Jen Dunlap
Trilha Sonora: Paris Hurley
Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Michael Epp, James Belushi

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