A Revolução dos Bichos
A obra The Animal Farm, do escritor inglês George Orwell, traduzida para o português como A Revolução dos Bichos (tradução a meu ver empobrecedora da complexidade do texto) é um clássico da literatura mundial e uma obra de referência para qualquer discussão política. Foi escrita em princípio como uma crítica à revolução russa de 1917 e a seus desdobramentos na consolidação da sociedade soviética. Em 2026, o livro ganha uma adaptação para o cinema em forma de animação dirigida pelo também inglês Andy Serkis. Considero absolutamente oportuna qualquer adaptação de A Revolução dos Bichos em qualquer tempo, para o cinema, para a TV ou qualquer outro veículo ou expressão artística.
O trabalho de Andy Serkis, em específico, traz para a animação e para os tempos atuais uma narrativa que não podemos chamar de fábula no sentido prototípico. De fato, como as fábulas, A Revolução dos Bichos tem um caráter distópico ao transpor para o universo dos animais não-humanos questões, ações e ideias tipicamente humanas. Porém, a ausência de algo que se pode tomar como uma moral da história afasta A Revolução dos bichos do mundo das fábulas. É imensa a riqueza de significados e percepções que o texto traz sobre o ser humano como um animal político. No livro, as ações públicas são atravessadas e constituídas pela ética e caráter dos personagens, seus desejos mais recônditos.

No filme em particular, junto ao roteirista Nicholas Stoller, experiente na animação e na comédia, Andy Serkis leva a cabo uma modernização da história dos animais que se rebelam contra seu dono e se engajam na auto-gestão de suas vidas e de sua força de trabalho.
O que há de novo na versão de Andy Serkis e Nicholas Stoller
É sempre delicada a tarefa de escrever sobre adaptações. Para isso, a gente precisa navegar no mar revolto das forças criadoras específicas de cada forma de dizer. No caso do filme, o dizer literário presente no dizer cinematográfico. Normalmente, as pessoas tendem a acreditar que a obra literária sempre será mais rica que sua adaptação para o Cinema. Nesta resenha, vou tentar passar ao largo da problemática da adaptação e ser mais descritiva ao abordar as escolhas de Serkis e Stoller.
Sobre isso, a meu ver, Serkis e Stoller se interessaram em trazer para os dias atuais o processo de degeneração dos ideais que moveram a revolução em seus primeiros tempos. Para o cinema de hoje, os realizadores assumiram que o fato de se inserirem na sociedade de consumo foi o grande elemento causador da perdição dos animais da fazenda. E seus desejos de possuir mais e mais coisas acabou sendo usada por seu líder corrupto para que seu bem mais precioso fosse entregue com facilidade às forças do capital.

Há também uma preocupação em assinalar que o elemento provocador do desejo de consumo dos personagens foi algo externo ao caráter deles. No caso, a personagem Frieda Pilkington (Glenn Close), não presente na obra original. Pilkington é uma magnata que deseja se apossar das terras dos bichos. Para isso, seduz o ganancioso Napoleão, seu líder, a levá-los a gastar todo seu dinheiro no shopping e ficarem cegos à apropriação perpetrada pela vilã.
Nesse sentido, Serkis e Stoller sugerem a ideia de que os bichos, diferente dos humanos, são criaturas boas, mas influenciáveis e fracas de vontade.
O que essas diferenças acarretam
Essas escolhas podem ser observadas em contraste com a obra original de Orwell, que parte de premissa bastante diferente. Como afirmei acima, é ponto pacífico que A Revolução dos Bichos critica o apagamento dos ideais da revolução russa à medida que a sociedade soviética se consolidava. Porém, é ponto pacífico também, e isto é que nos permite atribuir ao livro o caráter de clássico absoluto e obrigatório, que os fatos, fatores, causas e personagens cujas histórias se desenrolam ao longo do enredo, e também o destino que tiveram, se aplicam a todas as sociedades que sofrem o processo de fascistização.

Nesse sentido, a iniciativa dos realizadores de atualizar no filme a temática do livro acaba sendo uma tentativa de tornar a história mais perto da realidade imediata das pessoas. Contudo, essa iniciativa esvazia o conteúdo político da obra de Orwell, considerando apenas um motivo, a compulsão por consumo trazida a eles por elementos externos, como causador da destruição do projeto de auto-gestão dos bichos.
Muitas sociedades contemporâneas gabaritam o bingo de Orwell para o fascismo
Essa virada do roteiro ainda causa outro efeito importante, que é o de vir desintegrada de outros fatores relevantes que o livro aborda e o filme repete, que é por exemplo o momento em que os porcos, que assumem o comando dos animais, começam a andar de pé. Essa passagem, aliás, provoca um impacto visual inesquecível, o que ratifica a importância que ela tem também no livro de Orwell. Contudo, no livro, essa ação está conectada a outros fatos que caminham para um processo multifacetado de mimese dos animais aos humanos. Mas no filme isso é algo que se perde e fica como fato isolado e secundário.
Esse pormenor comprova a desistoricização do filme do Serkis. Não consegui encontrar paralelo ou comparação do processo descrito em seu filme com o avanço do fascismo no mundo. Serkis trata de um fator específico que de realmente acontece nas sociedades, mas não fica possível observar o que acontece com esse fator dentro de um plano histórico mais amplo.

Diferentemente, o trabalho de Orwell descreve a receita completa de como avança o fascismo na sociedade. Sua primeira tese é a de que os ingredientes já estão todos lá, em latência no cotidiano, nos projetos coletivos, nas formações de lideranças.
O filme de Serkis e Stoller propõe um final que não assuste sua plateia
Nesse sentido, a obra de Orwell acaba se revelando mais atual que o filme de Serkis, porque é atemporal. Contribui para essa atemporalidade no livro a ausência de estímulos externos para a transformação dos bichos. Tudo aquilo em que se tornariam já estava lá: a ganância, a covardia, o conformismo. Até suas qualidades acabam sendo usadas contra eles, para que oprimam uns aos outros mais ainda.
Em outras palavras: Orwell escancara o fato de que o que nos torna humanos, o de ruim e também o de bom, nos torna potenciais destruidores de nós mesmos. Serkis e Stoller preferem apostar na ideia de que somos essencialmente bons, porém influenciáveis, e acabamos errando às vezes com as melhores intenções. É uma tese, e há quem a defenda.

Pelo menos, o filme termina recusando um final feliz, em função de um final pedagógico, o que se alinha um pouco ao gênero fábula. Mas essa é mais uma contribuição dos realizadores, que buscam se aproximar da plateia e permitir que ela saia menos perplexa do cinema. Orwell, porém, não nos faz essa concessão.
No cotejo geral entre as obras, fica, como lição de moral que me permito neste texto, a importante fala do filósofo Edgar Morin: “Ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial”. É isso.

Direção: Andy Serkis
Roteiro: Nicholas Stoller, George Orwell
Edição: Kevin Pavlovic
Design de Produção: Amos Sussigan
Trilha Sonora: Heitor Pereira
Elenco: Seth Rogen, Gaten Matarazzo, Steve Buscemi, Glenn Close, Woody Harrelson, Kathleen Turner, Jim Parsons
