100 Noites de desejo
Sou absolutamente apaixonado por dois quadrinhos de Isabel Greenberg: The Encyclopedia of Early Earth — ainda inédito no Brasil — e sua expansão espiritual, 100 Noites de Hero, obra mais madura e bem-sucedida graças à força de seus temas e de sua construção narrativa. É justamente esta última que ganha agora uma adaptação cinematográfica.
Explicando livremente, 100 Noites de Desejo, como ficou o título do filme traduzido no Brasil, mergulha em uma fantasia medieval que utiliza o romantismo, o erotismo e a narrativa fantástica para discutir poder, repressão e liberdade feminina. Inspirado em estruturas narrativas clássicas como “As Mil e Uma Noites”, o longa constrói um universo estilizado e teatral em que contar histórias deixa de ser apenas entretenimento para se tornar um ato de resistência diante de um mundo dominado por homens.
Visual vibrante para um história sombria
Na trama, a nobre Cherry (Maika Monroe) precisa dar à luz um herdeiro; caso contrário, será condenada à forca pelos Irmãos Bico, uma ordem religiosa que faz a vezes da Inquisição Espanhola nesse mundo. Seu marido, Jerome (Amir El-Masry), porém, se recusa a consumar o casamento, e sua dedicada e enigmática criada, Hero (a graciosa Emma Corrin), é sua única companhia. Sem que os dois saibam, Jerome e o malandro Lorde Manfred (Nicholas Galitzine) fazem uma aposta: durante a ausência do marido, Manfred tentará seduzir a sexualmente frustrada Cherry em cem noites.

Apesar da estética graciosa, que procura emular bem o estilo lúdico do quadrinho, esta não é uma história feliz. Mesmo os contos narrados dentro da história são atravessadas pela tristeza: mães que abandonam as filhas, amantes separados, pais que tomam decisões das quais se arrependerão para sempre. Em meio a tudo isso, sempre são as mulheres que precisam fazer sacrifícios, esconder seus talentos e sufocar seus desejos para sobreviver em um mundo patriarcal.
Pouco a pouco, entre as tragédias, o filme procura mostrar a esperança como a forma como uma história atravessa gerações, passando de pessoa para pessoa e criando novos vinculos. Em suma, a maneira como narrativas de resistência inspiram outras narrativas de resistência.

Há uma centelha de esperança no desfecho, que nos leva a acreditar que os sacrifícios feitos por essas mulheres não foram em vão. E que, talvez, os sacrifícios que fazemos em nosso próprio mundo também possam produzir algum significado.
O elenco enfrenta o desafio e brilha
Corrin e Monroe, que compartilham excelente química em cena, adotam uma abordagem mais contida do que Galitzine. Tem início, então, um jogo de sedução e estratégia: um sinal secreto permite que Hero interrompa as investidas de Manfred contando uma nova história a cada noite. Relatos esses que ganham vida em sequências visualmente exuberantes. Entre elas está a principal, uma narrativa protagonizada por três irmãs que resistem à subjugação patriarcal por meio de sua alfabetização secreta, com uma das personagens interpretada pela estrela pop Charli XCX.

O Manfred de Galitzine é arrogante e irritantemente convencido, tratando Hero com um paternalismo condescendente. Ainda assim, o personagem conquista certa complexidade ao longo da narrativa, especialmente em sua aproximação de Cherry. No entanto, é Hero quem verdadeiramente se mostra o coração da trama pela forma como se apresenta uma mostra do que é o afeto genuíno.
Gênero, sexualidade, classe e poder estão em constante deslocamento ao longo do filme, produzindo um efeito lúdico que, aos poucos, dá lugar a uma dimensão mais melancólica e sacrificial. O resultado é uma história delicada, consciente de sua própria natureza fabular e capaz de ultrapassar os limites da tela. E no fim, por mais que pareça uma mistura improvável de ideias, referências e influências distintas, consegue entrelaçar esses elementos em uma fábula imaginativa, divertida e genuinamente comovente sobre libertação feminina e amor queer.
