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Anatomia do Caos

Uma pergunta para a qual não temos (e talvez nunca teremos) resposta

Já no segmento final de Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, quando o Brasil já havia perdido mais ou menos seiscentas mil pessoas para a COVID 19, vemos um homem idoso, provavelmente bolsonarista, derrubar as cruzes postas à cabeceira de túmulos simbólicos na areia de uma praia, numa manifestação contra a política genocida de Jair Bolsonaro para a pandemia que começou em 2020. Essa impactante imagem se junta a outras igualmente impactantes para compor o documentário que contou com o grupo Prerrogativas em sua produção.

Anatomia do caos hospital

Essas cenas geram em cada espectador uma reação particular, dependendo de sua vivência e memória da pandemia. A mim, a cena remete ao fato de que, sendo a COVID-19 uma doença que inicialmente atacou e matou em grande parte pessoas de mais de sessenta anos, me espanta que um homem idoso se manifeste contra o repúdio das pessoas às ações de Jair Bolsonaro. E mais ainda: me espanta mais ainda que, segundo a pesquisa IPEC de outubro de 2022, pelo menos 41 por cento dos eleitores brasileiros com mais de 60 anos ainda tencionavam votar no então presidente nas eleições que estavam acontecendo naquele ano.

Nada de novo nos Três Poderes

O que justifica assistirmos a Anatomia do Caos, diante da memória dolorosa da pandemia que ainda está fresca em nossas mentes, é o fato de que, malgrado o esforço gigantesco da CPI da COVID em apresentar, com sucesso, provas materiais da gestão criminosa de Bolsonaro para a pandemia, a Procuradoria Geral da República, na figura de Augusto Aras, simplesmente arquivou os resultados das investigações capitaneadas pela Comissão. Condenado por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro não foi indiciado com base nas provas apresentadas pela CPI. Isso enche de revolta muita gente, inclusive eu.

Aliando e se apoiando nesses dois elementos que citei acima, a saber, o impacto de muitas imagens da pandemia e o frescor da memória que temos dela, Ferreira constrói um documentário sem ousadias estéticas nem vieses aparentes além do que já constatamos no recorte, enquadre e edição de imagens. Ela sabe que as imagens, os discursos e as pessoas falam por si.

Anatomia do caos cemitério

Entretanto, há um dado novo, em termos de imagens, para ampliar um pouco o escopo da dinâmica da CPI. Ferreira apresenta cortes das reuniões do board da Comissão que aconteciam fora do salão da CPI. Nelas, os comentários dos parlamentares não soam originais, já que eles não saem dos personagens públicos que encarnam. Alguns deles, como Randolfe Rodrigues e Simone Tebet, são filmados em outros lugares, mas sem acréscimos significativos ao que já sabemos sobre os acontecimentos em questão.

A CPI da COVID acabou em pizza

Porém, o que se destaca como dado significativo em Anatomia do caos é uma cena rápida, em que dois parlamentares, após quase se atracarem fisicamente durante os trabalhos do dia, cumprimentam-se amigavelmente ao fim da sessão. Em outras palavras: o que vemos são apenas performances.

Essa cena nos deixa um gosto amargo na boca, aquele velho gosto da impunidade que já bem conhecemos, que vem junto com a percepção de que a CPI é um grande teatro onde estão dispostos os elementos mais impactantes para causar no espectador-eleitor a memória forte de algum senador que pretende ser reeleito. Ou, o que nos acostumamos a afirmar: vai tudo acabar em pizza. E acabou, como sabemos.

Anatomia do caos parlamentares

Por essa razão é que Anatomia do Caos acaba sendo um documento importante para nossa memória histórica, para que haja alguma instância de realidade em que as pessoas que trabalharam ativamente para a morte de mais de 700 mil brasileiros e brasileiras durante a pandemia de COVID-19 tenham suas ações registradas para a posteridade. Se não foram julgadas pelos tribunais oficiais, que pelo menos o sejam no tribunal do povo.

E que, nesse tribunal, elas recebam a punição que podemos lhes dar, que é a não eleição, o ostracismo. Em alguns casos, isso acontece.


Ficha Técnica
Anatomia do caos (2026) – Brasil
Direção: Dandara Ferreira
Roteiro: Dandara Ferreira
Edição: Lara Beck, Renato Sircilli
Fotografia: Roberto Stuckert
Trilha Sonora: Fabrício Modesto
Elenco: Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, Simone Tebet, Eliziane Gama, Renan Calheiros, Alessandro Vieira, Jair Bolsonaro

 

 

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