A Fabulosa Máquina do Tempo
Antes do advento do Bolsa Família, o jovem município de Guaribas (foi fundado em 1994), no Piauí, detinha o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. A baixíssima presença de crianças na escola era particularmente preocupante. Em 2003, Guaribas foi eleita como a localidade de implementação do Bolsa-Família, ainda como projeto piloto. A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, aborda de forma meio lúdica, mas nunca sem ser séria, as transformações que esse programa social causaram na cidade.
Para realizar seu filme, Capai e Daniel Grinspum optam pela imagem da máquina do tempo, do universo da ficção científica. Mas o objetivo aqui é ampliar o sentido do termo para trazer à mente das pessoas a percepção de que o mundo é uma gigantesca máquina do tempo, em que passado, presente e futuro brincam entre si, se interpenetram e se constituem mutuamente.

E é isso mesmo. Eu nasci em 1966. Pessoas da minha geração convivem com pessoas de gerações anteriores, com outros entendimentos do que é a vida e o mundo, outras práticas, outros medos e sonhos. Ao mesmo tempo, convivemos também com gerações mais recentes, pessoas que nasceram já no século 21, tempo que a ficção científica de meus dias e infância e adolescência fantasiava como sendo de mais tecnologia e mais progresso. Tecnologia sim, mas progresso… não sei não.
A Fabulosa Máquina do Tempo é um filme sobre mulheres
Porém, A Fabulosa Máquina do Tempo não é um filme sobre todas as pessoas de Guaribas. É, exclusivamente, sobre mulheres de pelo menos duas gerações: filhas e mães. Os homens não entram ali como imagem em nenhum momento. Entram apenas como discurso, em relação ao que representam na vida amorosa presente e futura delas. E isso é bastante coerente. Com efeito, o Bolsa-Família é uma política pública relacionada a mulheres com filhos. O benefício é entregue a elas e estabelece que seus filhos estejam na escola. Nesse sentido, a escola surge, além de seu lar, como o lugar central das práticas e pensamentos das meninas.
Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laura são os nomes de registro de algumas delas. Mas, como elas estão envolvidas numa brincadeira que inclui a produção de um filme imaginário, elas também têm nomes ficcionais: Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata. A Fabulosa Máquina do Tempo assume que, assim como as dimensões temporais, brincadeira e “realidade” são universos que se atravessam. Assim, encenações de situações como uma cerimônia de casamento fazem parte do que está sendo dito pelas meninas.

De fato: como o futuro ainda não aconteceu, ele só pode ser encenado, assim como também são encenadas as cenas relacionadas às profissões que as meninas querem ter quando se tornarem adultas. Mas o futuro não se faz presente sem que haja, em confronto com ele, o passado. E este está materializado na vida de suas mães.
A igreja como realizadora de sonhos
Outro dia ouvi uma afirmação interessante de Manuela D´Ávila, figura proeminente da esquerda e do feminismo brasileiro: a vida para os homens piorou, mas para as mulheres melhorou. De fato: pelo depoimento das mães das meninas, podemos vislumbrar um cenário em que elas, quando da mesma idade de suas filhas, não dispunham de um leque de sonhos e de escolhas para muito além da vida ao lado de algum homem.
Observe-se que, mesmo depois da mudança que o Bolsa-Família trouxe para suas vidas, os homens continuam sendo motivo de preocupação. A dependência do álcool se torna o grande problema que impede sua felicidade, e aí entram as igrejas neopentecostais para fazer com que seus maridos parem de beber, e com isso se estabeleça de vez a felicidade no lar. Me pergunto se elas se mantêm na igreja porque imaginam que estar ali é uma condição para que os maridos não bebam.

Contudo, suas filhas já cogitam o futuro sem a obrigatoriedade do casamento. Pensam em sair de Guaribas, pensam em se manter financeiramente sem a dependência masculina. O que elas ainda não percebem é que a escola que muitas vezes acham chata é que lhes define esse pensamento, que é muito diferente daquele que suas mães tinham. Por sua vez, a presença das meninas na escola também transforma suas mães. Nenhuma delas parece desejar que a filha tenha uma vida igual à dela. Tanto melhor.
No futuro, a vida pode piorar para todo mundo
A Fabulosa Máquina do Tempo será assistido com pleno significado se articularmos suas ideias ao fato de que atualmente há grupos que postulam pela supressão de direitos sociais que favoreceram a autonomia pessoal, econômica e política das mulheres. Por isso é que, junto com quem quer o fim do Bolsa-Família, andamos ouvindo gente que defende o fim do voto feminino, por exemplo. O fascismo, que traz junto o reacionarismo, também traz maldade e sadismo no que deseja para as mulheres: se a vida para os homes piorou, precisa piorar para as mulheres também.

O que precisamos neste momento, e a meu ver A Fabulosa Máquina do Tempo ajuda muito em nossa argumentação, é generalizar a constatação de que, se a vida piora para as mulheres, ela piora para os homens também. Piora para todo mundo, portanto.
Ficha Técnica

Direção: Eliza Capai
Roteiro: Daniel Grinspum, Eliza Capai
Edição: Daniel Grinspum, Eliza Capai
Fotografia: Carol Quintanilha
Trilha Sonora: Décio 7, Juliana Linhares
Elenco: Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laiane, Larissa, Laura, Lorenna, Manu, Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata
